O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta semana na rede social Truth Social que “não há inflação”. Porém, os dados do Índice de Preços ao Consumidor divulgados nesta última quinta-feira (11) mostram uma história diferente.
Os dados não apenas revelam inflação em alta, mas também mostram que o ritmo do aumento dos preços ao consumidor está acelerando.
Os preços ao consumidor subiram 0,4% em agosto em relação ao mês anterior, elevando a taxa anual de inflação para 2,9%, o maior nível desde janeiro, segundo dados divulgados pelo Bureau of Labor Statistics na quinta-feira.
A aceleração ocorre enquanto Trump tem imposto tarifas mais altas em praticamente tudo o que os Estados Unidos importam, além de intensificar a repressão a imigrantes sem documentação, inclusive em seus locais de trabalho.
Muitos economistas afirmam que tanto as tarifas quanto o aumento da fiscalização da imigração estão contribuindo para a elevação dos preços, alertando que essas políticas podem pressionar ainda mais os preços, a menos que a administração mude seu curso.
“Lentamente – na verdade, bem lentamente – mas com certeza, estamos vendo evidências de mais repasse tarifário” aos consumidores, escreveu Brian Coulton, economista-chefe da Fitch Ratings, em nota divulgada na quinta-feira.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ressaltou que a taxa anual de inflação durante o mandato de Trump este ano está ligeiramente mais contida do que o índice de 2,9% divulgado pelo BLS na quinta-feira.
“À medida que a agenda econômica de Trump continua a fazer efeito, os trilhões de dólares em investimentos do setor privado e estrangeiro, os cortes históricos de impostos, a desregulamentação massiva e o domínio energético que o presidente está liderando irão alimentar um boom econômico”, disse Leavitt, em comunicado à CNN.
Preços dos alimentos em alta
Entre os maiores contribuintes para o aumento geral da inflação em agosto estavam os alimentos, com os preços dos supermercados subindo 0,6% – o maior salto mensal em quase três anos. Os preços dos alimentos comprados em restaurantes e outros estabelecimentos aumentaram 0,3% no mês passado, igualando a taxa de julho.
Produtos importados sujeitos a tarifas mais altas registraram alguns dos maiores aumentos nos preços dos alimentos. Por exemplo, os preços do café dispararam 3,6%, o maior aumento mensal desde 2011. Em comparação com o ano anterior, os preços do café subiram 20,9%, um aumento anual próximo ao recorde. Os Estados Unidos dependem de países estrangeiros para o café, já que há poucos lugares onde pode ser cultivado domesticamente.
O Brasil é a principal fonte de café dos EUA, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
No entanto, as importações brasileiras – incluindo café – começaram a enfrentar enormes tarifas de 50% no mês passado.
Diane Swonk, economista-chefe da KPMG, prevê que os preços do café “facilmente excederão o recorde à medida que os efeitos totais das tarifas de 50% impostas ao Brasil no mês passado chegarem às prateleiras das lojas.”
Os preços do tomate subiram 4,5% no mês passado, outro aumento notável. Os Estados Unidos dependem do México para uma variedade de tomates frescos, a maioria dos quais começou a enfrentar tarifas de 17% em julho, após o vencimento de um acordo comercial que durou quase três décadas.
Além das tarifas, as políticas de imigração de Trump — incluindo prisões em massa e deportações de estrangeiros que entraram ilegalmente no país — estão contribuindo para o aumento dos preços dos alimentos, disse Sung Won Sohn, professor de finanças e economia da Universidade Loyola Marymount, à CNN.
O Pew Research Center estima que mais de 750.000 imigrantes nos EUA deixaram a força de trabalho desde janeiro. Os setores de agricultura e serviços alimentícios, que dependem de trabalhadores estrangeiros, provavelmente serão afetados de forma desproporcional pelo aumento das prisões de imigrantes em comparação com outras indústrias, disse Sohn, que também é economista-chefe da SS Economics.
A redução no número de trabalhadores imigrantes elevou os custos trabalhistas, o que impulsionou o aumento dos preços dos alimentos, segundo ele.
Vestuário e acessório
Outros produtos altamente expostos a tarifas que registraram alguns dos maiores aumentos de preços no mês passado incluem: máquinas de costura, tecidos e suprimentos (+9,1%); joias (+6,8%); roupas femininas (+4,4%); calças e shorts masculinos (+4,2%).
O salto mensal nos preços das joias foi o maior já registrado desde que o BLS começou a reportar o IPC no final da década de 1910.
Aumentos de preços majoritariamente moderados — por enquanto
No geral, os efeitos relacionados às tarifas foram relativamente moderados no relatório de inflação de agosto. Mas isso pode mudar à medida que os impactos totais das tarifas se consolidarem.
Os preços têm se mantido contidos em parte porque as empresas acumularam estoques antes que as tarifas de Trump entrassem em vigor
Além disso, muitas empresas têm absorvido a maior parte de suas contas tarifárias até o momento, em vez de repassar todos os custos aos consumidores através de aumentos de preços.
A motivação para evitar esse repasse vem, em parte, da expectativa de que a maioria das tarifas de Trump atualmente em vigor possa ser invalidada como parte de um processo em andamento que agora segue para a Suprema Corte, escreveu o economista do JPMorgan, Michael Hanson, em nota na quinta-feira.
Independentemente do resultado, ele prevê que a administração encontrará outras formas de “manter o atual nível elevado da taxa tarifária efetiva. Dessa forma, continuamos a prever um fortalecimento adicional nas leituras da inflação ao consumidor nos próximos meses.”






