A composição do crédito para empresas e consumidores mostrou sinais de deterioração, com avanço de linhas mais caras e aumento da inadimplência. Para Roberto Luis Troster, coordenador do Centro de Estudos Fipe do Endividamento das Empresas Brasileiras (Cefeb/Fipe), o cenário indica que a redução da Selic, por si só, ainda não melhorou a qualidade do crédito no país.
Entre as pessoas jurídicas, o total de recursos livres recuou 0,7%. Além disso, o saldo de capital de giro caiu 1,4%, enquanto o desconto de duplicatas registrou retração de 2,5%.
Por outro lado, modalidades que costumam apresentar custos mais elevados ganharam espaço. O volume de conta garantida avançou 0,7%, enquanto o cartão de crédito, considerando operações no rotativo e parceladas, cresceu 1,7%. Ao mesmo tempo, a inadimplência das empresas aumentou 0,1%.
Na avaliação de Troster, os números revelam uma piora na composição do crédito empresarial.
“Aumentou o volume das linhas com taxas mais altas. A inadimplência aumentou 0,1%. Ou seja, uma deterioração da qualidade, mesmo com a queda da Selic”, afirmou.
Crédito mais caro também avança entre pessoas físicas
Entre as pessoas físicas, o saldo total de crédito aumentou 0,8%. O crédito pessoal consignado avançou 0,7%, enquanto o não consignado cresceu 0,4%.
No entanto, modalidades mais caras apresentaram altas mais expressivas. O volume do cartão de crédito rotativo subiu 4,8%, enquanto o cheque especial avançou 1,6%. Além disso, a inadimplência aumentou 0,2%.
Segundo Troster, portanto, o comportamento do crédito às famílias segue uma tendência semelhante à observada entre as empresas.
Para o economista, a taxa básica de juros representa apenas parte do problema. Ele avalia que o modelo de crédito brasileiro também precisa passar por mudanças estruturais.
“A Selic é um problema, mas o maior problema é a política de crédito, que é obsoleta”, afirmou.
Troster destaca que o número de pessoas físicas e jurídicas negativadas cresce todos os anos desde 2021. Segundo ele, esse movimento ocorreu tanto em períodos de Selic mais baixa quanto em momentos de juros elevados. Além disso, a inadimplência avançou mesmo diante do crescimento da economia e de níveis historicamente baixos de desemprego.
Troster critica estrutura do crédito no Brasil
Na avaliação do coordenador do Cefeb/Fipe, parte das dificuldades está relacionada às regras que estruturam o mercado de crédito brasileiro.
Segundo Troster, o país mantém práticas herdadas de períodos de inflação elevada, como a tributação sobre operações de crédito. Ele também afirma que a incidência tributária pesa mais sobre algumas linhas com juros elevados, enquanto determinadas aplicações financeiras contam com isenção.
Além disso, o economista aponta falta de transparência e questiona os mecanismos usados para definir os preços das operações de crédito.
Para Troster, esse conjunto de fatores ajuda a explicar o avanço da inadimplência ao longo dos últimos anos. Por isso, ele defende mudanças na política de crédito para reduzir distorções e melhorar as condições de financiamento para empresas e consumidores.






