“Todos vão concorrer com o hidrogênio verde”
Em entrevista, a CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), Fernanda Delgado, confirma que o hidrogênio verde deve enfrentar competições de outros empreendimentos para se ligar ao SIN.
Essa disputa acontece não só com os data centers, mas com qualquer empreendimento que vá pedir acesso à rede hoje no Ceará ou em qualquer outro lugar. Não é específico concorrer pelo acesso à energia para a indústria do H₂V com a indústria de data center e qualquer outra. A forma de fazer negócios é diferente.
Fernanda Delgado
CEO da ABIHV
“Temos a eletrificação da frota, as indústrias cada vez se eletrificando mais para poder reduzir suas emissões, tem os próprios data centers. A forma de fazer negócios vai ser cada vez mais eletrointensiva, e esse é o caminho que a gente precisa olhar”, completa.
A concorrência atual com os data centers é em virtude do anúncio recente de projetos de grande porte na região do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp ), considerada o principal polo industrial mundial para a cadeia do H₂V, mas não está descartado que outras cadeias energéticas se desenvolvam e entrem na competição.
“Hoje a gente está falando de data centers, amanhã a gente pode colocar na mesa H₂V e mais um ou outro elemento industrial que também seja eletrointensivo e ainda não mapeamos”, considera a CEO da ABIHV.
Escassez de oferta de infraestrutura pode levar à concorrência de projetos
Laiz Hérida, diretora de Meio Ambiente do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE ) e CEO da HL Soluções Ambientais, corrobora a opinião de Fernanda Delgado, e condiciona a concorrência entre projetos de usinas de energia e de hidrogênio verde à infraestrutura.
“Em cenários de escassez de oferta, pode haver concorrência tanto entre projetos de energia, solar e eólica, por exemplo, como também entre setores fundamentais para a eletrificação e consequente descarbonização da economia, como H₂V. Os projetos devem apresentar planos de negócio e de implantação para, na presença de limites de capacidade, permitir a organização do mercado e a definição de prioridades”, expõe.
Ela, entretanto, argumenta que a revisão sobre o fim do curtailment no País devido ao excesso de geração de energias renováveis pode ser agilizado com o desenvolvimento das cadeias do hidrogênio verde e dos data centers, que consomem energia em altíssimas quantidades, o que também pode facilitar a melhoria da infraestrutura de transmissão e da conexão de energia dos projetos.
O H₂V e os data centers, mercados eletrointensivos, devidamente planejados, suprirão o consumo desta demanda em excesso. A tendência é que os centros migrem para regiões próximas aos polos de energia renovável, como o Nordeste, para reduzir perdas e aumentar a eficiência. Assim, as soluções técnicas e financeiras tendem a se viabilizar e acelerar a infraestrutura necessária.
Foco do H₂V é ‘armazenamento energético’, e deve ser priorizada
Nas intenções anunciadas por investidores para a produção de hidrogênio verde no Ceará, um dos principais produtos a serem gerados é a amônia verde (NH₃), que será exportada à Europa para, posteriormente, ser usada como fertilizantes e combustíveis, por exemplo.
Raphael Amaral, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC ), pondera que o “o correto seria uma infraestrutura suficiente para acomodar projetos tanto de data center quanto das plantas de H₂V”.
“Penso que a intenção é de transformar esse hidrogênio em amônia para facilitar o armazenamento e o transporte até o local onde será efetivamente utilizado. Essas situações complicam a questão somente da alimentação da energia para a produção do hidrogênio. Mas existe o problema da fonte para alimentar a planta do hidrogênio verde”, reforça.
Para ele, os entraves na infraestrutura de energia poderiam ser resolvidos a curto prazo com o armazenamento de energia por baterias, solução que poderia ser adotada enquanto o gargalo das linhas de transmissão para o escoamento da eletricidade gerada para acabar com o curtailment ainda é insuficiente.
Não tenho para onde encaminhar a energia gerada, que consiga armazenar principalmente pela forma de energia química. Resolvendo essas duas questões, o Ceará e o Brasil dão um salto de qualidade não só nacionalmente, mas no cenário internacional todo. Conseguiria trazer de volta os investimentos e se destacar no cenário da transição energética mundial”.
Projetos ‘certamente’ devem coexistir, mas infraestrutura é desafio imponente
Fernanda Delgado afirma que a expansão da malha de linhas de transmissão deve impulsionar o desenvolvimento da cadeia de hidrogênio verde: “A gente teve respostas muito positivas de todas as instâncias governamentais”, destaca.
“Como vai ser a atuação da ANP, a certificação, como vão ser os gasodutos que vão levar essa amônia que vamos levar no Pecém, a taxonomia, a distribuição dos recursos públicos, as ZPEs. Tudo isso precisa ser discutido do ponto de vista infralegal”, enumera ela sobre as pendências na regulamentação.
Um dos desafios que envolvem a produção de hidrogênio verde em solo brasileiro é o que a CEO da ABIHV define como “ansiedade”. Segundo ela, tanto os empresários quanto demais players do setor estão tentando acelerar processos para uma cadeia de energia, o que vai na contramão de experiências bem-sucedidas e essenciais atualmente, como o petróleo do pré-sal e o etanol.
“A gente precisa descarbonizar, e cada vez mais os efeitos da mudança do clima estão na nossa porta. Existe um tempo normal da maturação de projetos de H₂V, como aconteceu no óleo e gás, na energia solar, no etanol. É natural que tenha tempos e movimentos para ordenar essa indústria. Ainda existem questões a serem discutidas e sancionadas até 2026 para a tomada de decisão final de investimento, mas vamos chegar lá”, aponta.
“O hidrogênio verde e todos os derivados fazem parte de um portfólio de soluções que a indústria brasileira vai usar para se descarbonizar. O hidrogênio verde não é uma bala de prata, não pode ser usado em qualquer processo produtivo ou para qualquer solução”, observa Fernanda Delgado.