A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) pode marcar uma mudança importante na estratégia do Banco Central. Segundo Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, o avanço do conflito entre Estados Unidos e Irã elevou os riscos para a inflação global e pode obrigar a autoridade monetária brasileira a reconsiderar sua trajetória para os juros.
Para o especialista, a geopolítica passou a desempenhar um papel central na economia mundial. Ele destaca que a guerra no Oriente Médio deixou de ser um evento temporário e passou a influenciar diretamente a inflação, os investimentos e as decisões dos bancos centrais.
“O epicentro dessa mudança está na incerteza da matriz energética global e nas rotas de escoamento do comércio internacional”, afirma Simioni.
De acordo com ele, o petróleo Brent acumula alta superior a 42% desde o início do conflito. Além disso, as tensões no Estreito de Hormuz e os danos à infraestrutura energética no Oriente Médio aumentaram os custos globais de produção e transporte.
“O petróleo e o gás natural deixaram de afetar meramente os índices cheios de preços ao consumidor por meio do canal direto dos combustíveis. Atualmente, a alta se propaga por toda a matriz de insumos intermediários”, diz.
Bancos centrais podem rever estratégia
Segundo Simioni, diversos bancos centrais já começam a avaliar mudanças em suas políticas monetárias diante da persistência das pressões inflacionárias.
“Observa-se também que bancos centrais manifestam sinais de possíveis reversões de sua política monetária”, afirma o economista ao citar os casos do Banco da Coreia do Sul e do Banco do Japão.
Na avaliação dele, o Banco Central Europeu (BCE), o Banco da Inglaterra (BoE), o Federal Reserve (Fed) e o próprio Banco Central do Brasil enfrentarão um desafio semelhante nos próximos meses.
“Fica a expectativa de como tais bancos centrais agirão frente aos desafios inflacionários: se promoverão ajustes mais proativos em termos de magnitude ou se preferirão passos menores”, destaca.
Fed pode elevar juros no segundo semestre
No caso dos Estados Unidos, Simioni acredita que o Fed poderá ser obrigado a retomar o aperto monetário dependendo da duração do choque inflacionário.
“Caso o Federal Reserve opte por um controle considerando a duração do choque inflacionário de dois trimestres, deverá realizar pelo menos três aumentos de juros ao longo do segundo semestre”, afirma.
Por outro lado, se a autoridade monetária entender que a pressão inflacionária será mais duradoura, o economista avalia que o banco central americano poderá promover elevações mais agressivas.
“Pode vir a realizar pelo menos dois aumentos de juros mais robustos, entre 0,50% e 0,75%”, projeta.
Selic pode voltar a subir
Para o Brasil, Simioni vê dois cenários possíveis. O primeiro considera que os impactos da crise energética durarão apenas dois trimestres. Nesse caso, o Banco Central poderia manter a Selic no nível atual durante o restante do ano.
Já no segundo cenário, considerado mais preocupante, a inflação permaneceria pressionada por mais de três trimestres.
“Caso o BCB acredite que o impacto inflacionário se dará por um período superior a três trimestres, a duração do efeito inflacionário exigirá uma correção mais enérgica da taxa básica”, afirma.
Segundo ele, nesse contexto, o Banco Central poderia ser obrigado a elevar novamente os juros.
“O BCB seria obrigado a promover um novo ciclo de aperto, elevando os juros para o patamar de 15%, mantendo-o nessa condição restritiva por pelo menos três trimestres”, projeta.
Próxima reunião será decisiva
Na visão do economista, a decisão do Copom representa um dos momentos mais delicados para a política monetária brasileira em 2026.
“Caso opte pela posição de não agir, estará assumindo a possibilidade de construir uma inflação acima da meta para os próximos trimestres”, alerta.
Por outro lado, ele ressalta que um retorno ao ciclo de alta dos juros também teria custos para a atividade econômica.
“Estará aceitando a possibilidade de perda de produto e maior pressão social no segundo semestre de 2026”, afirma.
Para Simioni, o Banco Central terá de equilibrar os riscos de inflação e desaceleração econômica em um cenário marcado pela influência crescente da geopolítica.
“Errar para menos na taxa de juros pode custar, em termos reputacionais, muito mais do que errar para mais”, conclui.






