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Qual é a chance de reversão do carry trade do iene?

Carla Santiago por Carla Santiago
19 de outubro de 2026
em Exterior
Qual é a chance de reversão do carry trade do iene?

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A possibilidade de uma reversão expressiva do carry trade financiado pelo iene japonês permanece baixa, segundo avaliação do banco suíço UBS. Mesmo com a alta dos rendimentos dos títulos públicos do Japão, a instituição considera que a estratégia continua atraente para investidores, já que o diferencial entre as taxas de juros japonesas e as de outras economias ainda sustenta parte da rentabilidade dessas operações.

Em relatório divulgado em 14 de outubro de 2026, estrategistas de juros e câmbio do UBS afirmaram que as preocupações com o encerramento dessas posições aumentaram após uma forte desvalorização dos títulos públicos japoneses. Ainda assim, o banco atribuiu probabilidade muito baixa a uma reversão significativa do movimento.

A avaliação ocorre em um momento de mudanças na política monetária japonesa, depois de anos de juros extremamente baixos. A normalização das taxas pode reduzir gradualmente a vantagem de tomar empréstimos em ienes para investir em ativos de outros países, mas não significa, por si só, que os investidores abandonarão a estratégia de forma simultânea.

Como funciona o carry trade do iene

O carry trade consiste em captar recursos em uma moeda com juros baixos e aplicar o dinheiro em ativos ou moedas que ofereçam rendimentos maiores. Durante anos, o iene foi uma das principais moedas de financiamento dessa estratégia, devido à política monetária expansionista mantida pelo Banco do Japão (BoJ).

Na prática, um investidor pode tomar empréstimos em ienes, converter os recursos para dólares ou outra moeda e comprar títulos, moedas de países emergentes ou outros ativos com retorno potencialmente superior ao custo da dívida. O lucro depende do diferencial de juros, dos custos da operação e da variação cambial durante o período.

A estratégia, porém, envolve um risco importante: a valorização do iene. Se a moeda japonesa subir de forma acentuada, o investidor precisará de mais recursos na moeda estrangeira para recomprar os ienes necessários ao pagamento da dívida. A perda cambial pode consumir os ganhos com juros e obrigar o investidor a encerrar a posição.

Quando muitos participantes estão alavancados e tentam sair ao mesmo tempo, as vendas de ativos podem intensificar as quedas nos mercados. Por isso, uma mudança rápida na trajetória do iene pode provocar efeitos que vão além do mercado cambial japonês.

Por que o UBS considera baixa a chance de uma reversão ampla

Um dos fatores destacados pelo UBS é que a alta dos rendimentos japoneses não ocorreu de maneira isolada. Embora os juros dos títulos públicos do Japão tenham subido aproximadamente 1,4 ponto percentual nos dois meses anteriores ao relatório, os rendimentos também avançaram em outros mercados internacionais.

Isso significa que o diferencial de juros que sustenta o carry trade não desapareceu na mesma proporção. Enquanto os investimentos no exterior continuarem oferecendo retornos superiores ao custo de financiamento no Japão, parte dos investidores poderá manter suas posições.

O UBS também projeta que a taxa de juros do Banco do Japão poderá atingir um pico próximo de 2% nos 12 meses seguintes à análise. A estimativa indica uma trajetória de normalização monetária, mas não necessariamente uma mudança tão rápida a ponto de tornar inviáveis todas as operações financiadas em ienes.

A avaliação, contudo, não elimina o risco de movimentos abruptos. A probabilidade de uma reversão generalizada é diferente da possibilidade de ajustes pontuais, perdas em determinadas posições ou episódios temporários de volatilidade.

O que poderia provocar uma reversão

O principal risco está em uma combinação de valorização acelerada do iene, aumento inesperado dos juros japoneses e redução do diferencial de taxas com outras economias.

Uma elevação dos juros pelo Banco do Japão acima do esperado poderia encarecer o financiamento em ienes e levar investidores a rever suas estratégias. Ao mesmo tempo, cortes de juros nos Estados Unidos ou em outros mercados poderiam diminuir a remuneração dos ativos utilizados para financiar essas operações.

A intervenção das autoridades japonesas no mercado cambial também pode alterar rapidamente as expectativas. Caso medidas para sustentar a moeda provoquem uma valorização expressiva, investidores com posições vendidas em ienes podem ser pressionados a recomprá-los, acelerando o movimento.

Outro elemento é o uso de alavancagem. Alguns fundos tomam empréstimos ou utilizam instrumentos financeiros para ampliar a exposição aos ativos. Embora isso possa aumentar os ganhos em períodos favoráveis, também amplia as perdas quando os preços se movimentam contra a posição. Chamadas de margem e limites internos de risco podem obrigar esses investidores a vender ativos rapidamente.

O comportamento do Banco do Japão e as decisões do Federal Reserve, o banco central americano, serão importantes para determinar a evolução do diferencial de juros. A reação dos mercados a essas decisões pode ser tão relevante quanto o tamanho dos ajustes nas taxas.

O precedente de agosto de 2024

O episódio de agosto de 2024 demonstrou como a reversão de posições financiadas em ienes pode repercutir internacionalmente. Naquele período, uma elevação dos juros japoneses e a valorização da moeda provocaram o encerramento de operações alavancadas e uma onda de vendas de ativos de risco.

O índice Nikkei, principal referência da Bolsa de Tóquio, sofreu uma queda de 12,4% em uma única sessão, em 5 de agosto daquele ano. A turbulência também atingiu outros mercados, à medida que investidores reduziram suas posições para controlar perdas e atender às exigências de margem.

Em 2026, o contexto apresenta diferenças. As expectativas de mudanças na política monetária japonesa já estão sendo incorporadas pelos participantes do mercado, o que pode permitir ajustes mais graduais. Ainda assim, uma surpresa relevante nas decisões dos bancos centrais ou uma valorização repentina do iene poderia provocar novas liquidações.

Além disso, não existe uma medida única e definitiva do tamanho total do carry trade. Um indicador acompanhado pelo mercado é o volume de empréstimos transfronteiriços em ienes. Uma análise da Jefferies baseada em dados do Banco de Compensações Internacionais apontou que esse financiamento chegou a 360 trilhões de ienes em março de 2026, aproximadamente US$ 2,34 trilhões na conversão utilizada na estimativa. Esse número é uma referência para a dimensão do financiamento internacional, mas não representa exclusivamente posições de carry trade.

Brasil pode sentir os efeitos de uma mudança nos fluxos globais

Uma reversão expressiva também poderia afetar mercados emergentes, inclusive o brasileiro. Quando investidores reduzem a exposição a ativos considerados mais arriscados, bolsas e moedas de países emergentes podem sofrer pressão, mesmo quando os fatores domésticos permanecem relativamente estáveis.

Segundo a análise divulgada pelo UBS, ações brasileiras e sul-coreanas apresentaram sensibilidade histórica a períodos de alta dos rendimentos dos títulos públicos japoneses. A intensidade do impacto, porém, depende das condições de cada mercado, do posicionamento dos investidores e dos fundamentos econômicos locais.

No Brasil, uma redução de posições internacionais poderia pressionar ações, afetar o fluxo de capital estrangeiro e aumentar a volatilidade do real. O efeito não seria necessariamente uniforme: empresas, setores e ativos com características distintas poderiam reagir de maneiras diferentes.

O banco suíço mantém uma perspectiva construtiva para ações de mercados emergentes, citando perspectivas de crescimento dos lucros corporativos e avaliações consideradas mais razoáveis após as quedas registradas entre junho e julho. A instituição apontou Coreia do Sul, Brasil e China entre seus mercados preferidos, indicando que os riscos relacionados ao Japão não anulam, em sua avaliação, todos os fatores positivos dessas economias.

Risco existe, mas não significa colapso iminente

A avaliação do UBS sugere que o cenário-base não é uma desmontagem generalizada e imediata do carry trade do iene. A manutenção de diferenciais de juros favoráveis ainda sustenta parte das operações, mesmo com a mudança da política monetária japonesa.

O principal ponto de atenção é a velocidade com que essas condições podem mudar. Uma alta inesperada do iene, decisões monetárias mais restritivas do que o mercado prevê ou uma redução abrupta do apetite por risco poderiam provocar encerramentos de posições e ampliar a volatilidade.

Assim, a baixa probabilidade atribuída pelo UBS a uma reversão ampla não deve ser interpretada como ausência de risco. Para os mercados, a combinação entre juros japoneses, trajetória do câmbio, alavancagem e decisões dos principais bancos centrais continuará sendo determinante para avaliar se o ajuste ocorrerá de maneira gradual ou por meio de movimentos mais bruscos.

Tags: Análise de Mercadoexterior

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