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Strategy e Strive encaram o desafio de balancear a aquisição de bitcoins e os dividendos de ações preferenciais

Carla Santiago por Carla Santiago
26 de outubro de 2026
em Cripto
Strategy e Strive encaram o desafio de balancear a aquisição de bitcoins e os dividendos de ações preferenciais

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As empresas Strategy e Strive, conhecidas por acumular Bitcoin em seus balanços, enfrentam um desafio crescente para conciliar a compra da criptomoeda com o pagamento de dividendos aos investidores de suas ações preferenciais. O modelo de financiamento adotado pelas companhias ajudou a sustentar a aquisição de grandes quantidades de Bitcoin, mas o aumento das obrigações financeiras pode limitar a continuidade dessa estratégia.

De acordo com dados da Fidelity Digital Assets citados pelo CoinDesk, ações preferenciais emitidas por empresas com foco em Bitcoin financiaram a compra de aproximadamente 135.979 unidades da criptomoeda entre o lançamento desses instrumentos e 5 de outubro de 2026. O mercado de ações preferenciais ligadas ao Bitcoin alcançou cerca de US$ 12 bilhões, criando uma fonte adicional de recursos para companhias que buscam ampliar suas reservas digitais.

O mecanismo, porém, envolve uma contrapartida: quanto maior o volume de ações preferenciais em circulação, maiores podem ser os pagamentos de dividendos. As empresas precisam, portanto, decidir quanto do capital disponível será destinado à aquisição de Bitcoin, ao cumprimento dessas obrigações e à recompra dos próprios títulos.

Ações preferenciais ampliam as fontes de financiamento

A Strategy, anteriormente conhecida como MicroStrategy, tornou-se uma das principais referências entre as empresas de capital aberto que utilizam o Bitcoin como ativo de tesouraria. A companhia recorreu à emissão de diferentes classes de ações preferenciais para captar recursos e financiar sua estratégia de acumulação.

Esses papéis ficam em uma posição intermediária entre as ações ordinárias e a dívida tradicional na estrutura de capital. Em geral, oferecem pagamentos periódicos aos investidores, mas não têm uma data fixa de vencimento. Essa característica reduz a necessidade de refinanciamento em uma data específica e pode atrair investidores interessados em renda, mas que não desejam comprar Bitcoin diretamente.

A Strive também utiliza esse modelo. A empresa desenvolveu instrumentos próprios de ações preferenciais e anunciou, em outubro, uma oferta pública inicial de ações da classe SATS, com dividendo anual de 15%, sujeito aos termos da emissão e às condições aplicáveis. A companhia informou que os recursos poderiam ser destinados à compra de Bitcoin, a ativos geradores de renda, ao capital de giro e a outras finalidades corporativas.

Apesar de oferecerem uma alternativa à emissão de dívida convencional, esses instrumentos não eliminam os riscos financeiros. Os pagamentos de dividendos exigem recursos, enquanto a capacidade de levantar novos financiamentos depende do interesse dos investidores e das condições do mercado.

Dividendos podem reduzir o dinheiro disponível para comprar Bitcoin

O principal desafio é que as mesmas reservas de capital utilizadas para ampliar a exposição ao Bitcoin também podem ser necessárias para honrar os pagamentos aos acionistas preferenciais.

No caso da Strategy, uma das principais emissões é a STRC, ação preferencial com taxa de dividendos variável. O instrumento captou aproximadamente US$ 7,5 bilhões ao longo de 2026 até o fim de julho, segundo dados citados pelo CoinShares. A taxa de dividendos estava em torno de 12% ao ano no período analisado, embora possa variar conforme as condições e os termos do produto.

O analista James Butterfill, da CoinShares, destacou que a companhia também precisa considerar a recompra desses papéis. Embora recomprar ações preferenciais possa reduzir as despesas futuras com dividendos, a operação consome recursos que poderiam ser utilizados para adquirir mais Bitcoin.

Em uma atualização semanal recente, a Strategy informou ter desembolsado US$ 193 milhões na recompra de STRC e adquirido apenas 267 bitcoins no período citado por Butterfill. A empresa também ampliou para US$ 3 bilhões a autorização para recompra de ações preferenciais.

O movimento ilustra a disputa pela destinação do capital. Em determinados momentos, recomprar títulos pode ser financeiramente mais interessante do que emitir novas ações para financiar compras de Bitcoin, especialmente quando os papéis são negociados abaixo do valor de referência.

A Strategy também já vendeu parte de suas reservas de Bitcoin para financiar pagamentos de dividendos, segundo Butterfill. A possibilidade de recorrer à venda do próprio ativo que a empresa busca acumular evidencia uma das principais fragilidades do modelo: as obrigações financeiras continuam existindo mesmo quando o mercado de criptomoedas atravessa períodos de queda.

Preço das ações preferenciais influencia novas captações

A sustentabilidade desse modelo depende também da capacidade de manter o interesse dos investidores. Quando as ações preferenciais são negociadas próximas ou acima de seu valor de referência, a empresa encontra condições mais favoráveis para emitir novos papéis e levantar recursos.

Se os preços caem abaixo desse patamar, porém, novas emissões podem se tornar menos atrativas. Nesse cenário, as companhias podem optar por recomprar ações no mercado, em vez de emitir títulos adicionais para financiar a compra de Bitcoin.

O analista Mark Palmer, da StoneX, avalia que o desempenho desses instrumentos depende da confiança dos investidores na gestão e na capacidade das empresas de cumprir seus compromissos. Os preços também podem reagir às oscilações do Bitcoin e às mudanças nas condições dos mercados de capitais.

A questão é especialmente importante porque as ações preferenciais não oferecem apenas exposição indireta à criptomoeda. Seu desempenho também está ligado à saúde financeira do emissor, à política de dividendos e à disposição dos investidores de continuar financiando a estratégia.

ETFs de Bitcoin continuam como principal canal de investimento

Apesar do crescimento desse mercado, os fundos negociados em bolsa (ETFs) de Bitcoin à vista nos Estados Unidos continuam sendo uma fonte mais ampla de demanda pela criptomoeda.

Segundo dados citados pelo CoinShares, os ETFs americanos de Bitcoin à vista acumulavam aproximadamente US$ 57 bilhões em entradas líquidas e cerca de US$ 106 bilhões em ativos. Esses fundos permitem que investidores obtenham exposição ao preço do Bitcoin por meio de produtos negociados no mercado tradicional.

O chefe de pesquisa da Bitwise, Ryan Rasmussen, avalia que os ETFs devem continuar representando uma fonte maior de demanda no longo prazo. As ações preferenciais de empresas de tesouraria em Bitcoin, por sua vez, podem complementar esse mercado ao atrair investidores interessados em rendimentos periódicos.

Há uma diferença importante entre os modelos: os ETFs acompanham a demanda dos investidores sem criar, por si só, uma obrigação contínua de pagamento de dividendos. Já as empresas que emitem ações preferenciais precisam administrar os pagamentos previstos nos termos de seus instrumentos, independentemente de o preço do Bitcoin estar em alta ou em queda.

O que está em jogo para o mercado de criptomoedas

A expansão das ações preferenciais abriu uma nova via para financiar a compra institucional de Bitcoin. Entretanto, o crescimento das emissões aumenta a importância da gestão de caixa e da capacidade de manter a confiança dos investidores.

Se as condições do mercado permanecerem favoráveis, essas companhias poderão continuar captando recursos e ampliando suas reservas. Caso o interesse pelos títulos diminua ou o preço do Bitcoin recue significativamente, a emissão de novas ações poderá ficar mais difícil, enquanto as despesas com dividendos continuarão pressionando o caixa.

O desafio da Strategy e da Strive será manter o equilíbrio entre a expansão das reservas de Bitcoin, o cumprimento das obrigações financeiras e a preservação do valor para os acionistas ordinários. A evolução desse modelo também poderá indicar até que ponto as ações preferenciais se consolidarão como uma fonte relevante de financiamento para o mercado de criptomoedas.

Tags: Análise de Mercadocriptomoedas

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