A Natura informou ao mercado que assinou acordo com a Aurelius Investment Advisory, empresa de private equity com sede em Londres, para a venda da The Body Shop. O valor do negócio deve ficar em 207 milhões de libras (R$ 1,25 bilhão) e deverá ser concluído até 31 de dezembro deste ano. A transação está sujeita às aprovações regulatórias.
“A transação de venda apoiará os esforços da Natura & Co para otimizar suas operações e simplificar seus negócios, além de posicioná-la para focar em prioridades estratégicas, especialmente a integração da Natura e Avon na América Latina, o modelo de venda direta e a otimização adicional da presença internacional da Avon”, disse a Natura em comunicado.
Em outubro, a empresa já havia anunciado conversas com o fundo europeu para a venda.
O acordo incluiu um potencial valor contingente (earn-out) de 90 milhões de libras. O preço de venda e o earn-out serão pagos em até cinco anos. O earn-out é um mecanismo utilizado em contratos de compra e venda de empresas, que corresponde à parte do pagamento que é concluída ao longo do tempo, mediante o cumprimento das metas de desempenho previstas nas cláusulas.
Essa estratégia é importante para o fechamento do negócio, já que o desempenho da nova companhia pode gerar incertezas para o comprador. Por volta de 13h30, as ações ordinárias da Natura (NTCO3, com direito a voto) subiam 3,67%, negociadas a R$ 14,41.
A Natura quer reduzir seu endividamento e vem vendendo parte de seus ativos. No primeiro semestre, a dívida líquida ficou em R$ 10 bilhões. A Natura vendeu sua linha de produtos de luxo Aesop para a L’Oreal por US$ 2,52 bilhões este ano. Em agosto passado, o Conselho de Administração aprovou a venda da The Body Shop.
Reduzir estrutura e endividamento
A Natura já tinha tentado vender a The Body Shop, comprada por US$ 900 milhões há seis anos, em 2022. Mas as propostas ficaram abaixo do que o esperado e a companhia preferiu vender primeiro a Aesop, considerada a joia da coroa da empresa.
Em outubro, quando as negociações se tornaram públicas, o Itaú BBA calculou que a operação da The Body Shop poderia ser avaliada em cerca de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão). No entanto, em julho, o banco chegou a avaliar o ativo em R$ 3,4 bilhões.
Apesar de ter sido feita por um valor abaixo do gasto pela Natura no momento da aquisição, a venda tende a ser bem recebida pelo mercado, na avaliação de especialistas.
“O valor foi muito menor, mas a The Body Shop tem sido uma unidade detratora de resultado e o recurso vai ajudar a Natura a reduzir endividamento. A transação se mostrou como cara, em uma tentativa de crescimento inorgânico que não foi acertada”, destaca o chefe de análise de ações da Órama, Phil Soares.
Nos últimos anos, a empresa fez ma série de aquisições, com o objetivo de realizar uma expansão internacional. Nesse sentido, ocorreram as compras da Aesop, The Body Shop e Avon.
Essa última aquisição fez com que a empresa adquirisse o atual formato de Natura&Co. A intenção era com que a empresa se tornasse uma plataforma global de marcas do setor de beleza, como no modelo adotado pela L’Oréal.
“Com exceção da compra da Aesop, essa estratégia de expansão internacional via aquisição não foi bem-sucedida. Não acredito que foi uma questão de competência, mas de dificuldade de gerir uma companhia tão grande em diversos países e com um custo da dívida que ficou muito alta com o aumento dos juros não só no Brasil, mas no exterior”, disse a analista da Empiricus Research, Larissa Quaresma.
Soares ressalta que o impacto positivo no balanço da Natura deve levar um tempo maior para ocorrer, se comparado com o da venda da Aesop, pela própria forma de pagamento acordada.
A Natura reportou lucro líquido atribuído aos controladores de R$ 7,02 bilhões no terceiro trimestre de 2023, revertendo o prejuízo líquido de R$ 559,8 milhões do mesmo período de 2022. No balanço, a empresa afirma que o resultado foi beneficiado pelo ganho de capital com a venda da marca Aesop.
Por outro lado, a The Body Shop não vinha entregando bons resultados, o que também deve beneficiar os números da Natura. A unidade registrou receita líquida de R$ 829,4 milhões no terceiro trimestre, queda de 15% na comparação anual.
“A venda destrava valor tanto no lado dos resultados, porque era um ativo que tinha uma estrutura de aluguel pesada, contribuía negativamente para lucro, tinha prejuízo e queimava caixa, quanto do ponto de vista estratégico, porque ele libera a companhia para focar no core business, que é a Natura, a Avon e toda a transformação que eles estão fazendo”, destaca a head de varejo da XP, Danniela Eiger.
Foco na América Latina
Soares, da Órama, avalia que a Natura deve caminhar em busca de uma estrutura mais enxuta, com foco nos ativos localizados na América Latina, especialmente no Brasil.
— Eles tiveram que lidar com muitas unidades internacionais, com muitas geografias diferentes. Se mostrou uma expansão feita de forma muito acelerada e que não se traduziu em lucratividade. A Natura vai atuar em rever a geografia e o portfólio de produtos da Avon, que está muito inchada. E focar em afinar o operacional e financeiro na América do Sul, onde ela tem mais chances de rodar um operacional de forma mais lucrativa.
Para a analista da Empiricus, o foco da companhia também deve se voltar em melhorar as operações da Avon.
— O próximo foco seria executar a integração da operação da Avon, que envolve aspectos tanto de economia de custos tanto de ganhos de receita. Existe um trabalho bem complexo e desafiador na Avon, que é parar a queda de receitas das operações que estão fora da América Latina e, ao mesmo tempo, gerar ganhos na integração entre Avon e Natura nesta região
Em 2023, os papéis da Natura sobem mais de 20% depois de fortes perdas nos anos anteriores em meio ao cenário macroeconômico desafiador para empresas do setor de varejo, com juros altos e acesso ao crédito mais escasso e seletivo.
Larissa acredita que a situação financeira da companhia já apresenta sinais de melhora, especialmente após a redução de alavancagem com a venda da Aesop.
— Mas ainda restam dúvidas sobre como se dará a integração com a Avon e se ela vai acontecer da forma como o mercado espera.
Fonte: O Globo




