As bolsas norte-americanas vêm apresentando oscilações, mas ainda não demonstram sinais claros de pânico, apesar da forte alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e de outros mercados globais de dívida. O movimento ocorre em um ambiente de maior preocupação com inflação, petróleo elevado e possíveis mudanças na trajetória dos juros, mas a resiliência dos lucros corporativos tem ajudado a limitar uma deterioração mais acentuada dos ativos de risco.
O índice S&P 500 permanece menos de 3% abaixo do recorde registrado em agosto, mesmo após a alta dos rendimentos dos Treasuries. A resistência das ações é atribuída, em parte, à expectativa de crescimento dos lucros impulsionado pela inteligência artificial e à percepção de que a economia norte-americana continua apresentando sinais de força.
O rendimento da Treasury de dez anos voltou a se aproximar ou superar a marca de 5%, nível observado pela última vez em 2023 e que costuma aumentar a pressão sobre ativos de maior risco. A alta dos juros reduz a atratividade relativa das ações e eleva a taxa usada para descontar lucros futuros, especialmente no caso de empresas de tecnologia e companhias com avaliações elevadas.
Apesar disso, grandes empresas de tecnologia, como Apple e Microsoft, continuam próximas de suas máximas históricas. O desempenho é sustentado pela perspectiva de crescimento das receitas relacionadas à inteligência artificial e por resultados corporativos considerados robustos. As ações de fabricantes de chips, por outro lado, passaram por uma correção recente após ganhos expressivos acumulados ao longo do ano.
Os resultados das empresas também ajudam a explicar a ausência de uma reação mais intensa nos mercados. As estimativas indicam crescimento anual de aproximadamente 53% nos lucros das companhias do S&P 500 no segundo trimestre, ou 49,5% quando o setor de energia é excluído. Para 2026, a expectativa é de expansão de cerca de 35% nos lucros, acima do crescimento registrado no ano anterior.
Outro fator de sustentação é a economia dos Estados Unidos. O mercado de trabalho apresentou recuperação em agosto, enquanto o consumo das famílias continua relativamente firme, mesmo com consumidores buscando alternativas de menor custo diante da pressão sobre os preços. A resistência da atividade econômica reduz, por enquanto, os temores de uma recessão imediata.
As empresas de menor capitalização também têm mostrado desempenho relevante no acumulado do ano, embora sejam mais sensíveis ao aumento do custo de crédito. O índice Russell 2000, formado por companhias menores dos Estados Unidos, vem sendo apoiado por expectativas de crescimento doméstico, fusões e aquisições e medidas de estímulo à produção interna, ainda que tenha recuado de suas máximas recentes.
A mudança no comportamento dos títulos também chama atenção. Tradicionalmente, ações e títulos de renda fixa tendem a se mover em direções opostas, permitindo que os Treasuries funcionem como proteção em períodos de estresse. No cenário atual, porém, os dois mercados vêm sofrendo simultaneamente, reduzindo o papel dos títulos públicos como instrumento de diversificação.
A combinação de petróleo acima de US$ 100 por barril, inflação persistente e expectativas de juros mais altos continua sendo o principal risco para a estabilidade dos mercados. Ainda assim, a força dos resultados corporativos e a confiança no crescimento relacionado à inteligência artificial têm impedido, até o momento, uma liquidação generalizada das ações. O comportamento dos investidores nas próximas semanas deverá depender especialmente das decisões do Federal Reserve, da evolução dos preços da energia e dos novos dados de inflação e atividade econômica.






