O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou nesta última terça-feira (27) que os ativos digitais podem se tornar uma ferramenta estratégica para preservar a liderança global do dólar. Durante participação na conferência Swell, organizada pela Ripple, o representante do governo de Donald Trump defendeu que a influência econômica americana dependerá cada vez mais da capacidade do país de liderar o desenvolvimento de tecnologias financeiras.
Na avaliação de Bessent, a disputa pela supremacia monetária mundial está passando por uma transformação. Historicamente, a posição internacional das principais moedas de reserva esteve associada ao poder militar e econômico de seus países emissores. Agora, segundo ele, a liderança tecnológica ganha importância crescente nessa competição.
O secretário comparou o avanço das criptomoedas à disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio de setores como inteligência artificial e semicondutores. Para Bessent, a escolha de sistemas tecnológicos e de infraestrutura financeira poderá influenciar quais moedas serão utilizadas em transações internacionais e como os países manterão suas reservas.
A estratégia americana, portanto, não se limita a incentivar investimentos em criptomoedas. O objetivo também é ampliar a presença de empresas, plataformas e sistemas de pagamentos digitais desenvolvidos nos Estados Unidos, criando condições para que o dólar continue sendo a principal referência financeira internacional.
A visão reforça a estratégia do governo Trump de transformar o país em um centro global de inovação em ativos digitais. Nesse contexto, as criptomoedas são tratadas não apenas como investimentos sujeitos à especulação, mas como parte de uma infraestrutura que pode ampliar o alcance da moeda americana.
Stablecoins podem ampliar a demanda por dólares e títulos americanos
Um dos principais pilares dessa estratégia são as stablecoins, criptomoedas projetadas para manter seu valor atrelado a uma moeda tradicional, geralmente o dólar. Diferentemente de ativos como o Bitcoin, cujos preços oscilam conforme a oferta e a demanda, essas moedas digitais buscam preservar uma paridade estável com o ativo de referência.
Bessent destacou que mais de 90% das stablecoins são lastreadas em dólares americanos. Seus emissores costumam manter reservas em ativos como títulos do Tesouro dos Estados Unidos para sustentar o valor das moedas digitais em circulação.
Na prática, o crescimento desse mercado pode criar uma nova fonte de demanda por dívida americana. Quando as empresas emissoras ampliam suas reservas para acompanhar a expansão das stablecoins, podem precisar adquirir mais títulos públicos dos Estados Unidos, contribuindo para financiar o governo.
O secretário afirmou que considera as stablecoins uma fonte importante de financiamento para o Tesouro. A expansão desse mercado poderia, assim, conectar o crescimento dos pagamentos digitais à demanda por ativos denominados em dólares.
Outro efeito potencial está relacionado à internacionalização da moeda americana. Em países que enfrentam inflação elevada, desvalorização cambial ou restrições ao acesso a serviços financeiros, as stablecoins vinculadas ao dólar podem funcionar como uma alternativa digital para armazenar valor e realizar transferências.
Para o governo americano, esse processo representa uma oportunidade de ampliar o uso internacional do dólar sem depender exclusivamente dos canais bancários tradicionais. A expansão dos ativos digitais poderia levar a moeda a novos usuários e mercados, reforçando sua presença no comércio e nas finanças globais.
Lei GENIUS e os planos de regulamentação
A estratégia de Bessent também está associada à Lei GENIUS, legislação aprovada em 2025 que estabeleceu um marco regulatório federal para stablecoins nos Estados Unidos.
A norma busca estabelecer regras para a emissão desses ativos, incluindo exigências relacionadas às reservas que sustentam seu valor. A expectativa do governo é que a definição de parâmetros legais aumente a confiança de investidores e empresas, estimule a entrada de instituições financeiras tradicionais e favoreça o crescimento do setor.
O governo Trump considera que uma regulamentação mais clara pode atrair empresas de ativos digitais para o território americano, fortalecendo a competitividade do país diante de outras jurisdições.
Entretanto, a construção de um marco regulatório mais abrangente para o mercado de criptomoedas sofreu um revés após o Congresso não conseguir aprovar o Clarity Act, projeto que buscava estabelecer regras federais para a estrutura do mercado de ativos digitais.
Bessent classificou o resultado como uma decepção, mas afirmou que o Departamento do Tesouro poderá trabalhar com a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) para avançar na supervisão do setor.
Segundo o secretário, as duas agências podem contribuir para estabelecer diretrizes que ofereçam maior previsibilidade às empresas. A atuação regulatória, porém, não substitui integralmente uma lei aprovada pelo Congresso, que tende a proporcionar uma estrutura jurídica mais duradoura.
Governo também quer evitar restrições bancárias ao setor
Outro tema abordado por Bessent foi o chamado debanking, prática em que instituições financeiras encerram ou restringem o acesso de empresas e clientes a serviços bancários.
Empresas de criptomoedas já relataram dificuldades para manter relacionamentos com bancos, alegando que decisões desse tipo podem limitar suas operações e dificultar o desenvolvimento de novos produtos.
Bessent afirmou que mecanismos regulatórios podem ajudar a estabelecer salvaguardas contra esse tipo de situação. Para o governo, permitir que empresas legítimas do setor tenham acesso a serviços financeiros é parte do esforço para manter a inovação dentro dos Estados Unidos.
A discussão tem implicações que vão além das criptomoedas. A disponibilidade de contas bancárias, sistemas de pagamentos e serviços de custódia é fundamental para a integração dos ativos digitais à economia tradicional.
Ao mesmo tempo, a ampliação do acesso precisa ser acompanhada de controles contra lavagem de dinheiro, financiamento de atividades ilícitas e outros riscos financeiros. O desafio regulatório é estabelecer regras que permitam o desenvolvimento do setor sem comprometer a segurança do sistema.
Disputa tecnológica pode redefinir a influência financeira americana
A estratégia defendida por Bessent reflete uma visão mais ampla da competição econômica entre Estados Unidos e China. Além da inteligência artificial e dos semicondutores, o governo americano considera que a infraestrutura de pagamentos digitais e os ativos tokenizados podem se tornar componentes importantes da influência internacional de um país.
Nesse cenário, o dólar poderia continuar dominante não apenas por ser a principal moeda de reserva mundial, mas também por ocupar uma posição central nas novas plataformas financeiras utilizadas por empresas, investidores e consumidores.
A expansão das stablecoins, contudo, não garante automaticamente o fortalecimento da moeda americana. O resultado dependerá da confiança nos ativos que sustentam esses tokens, da estabilidade das regras, da segurança das plataformas e da disposição dos usuários de adotar esses instrumentos.
Também existem riscos relacionados à concentração do mercado, à liquidez e à possibilidade de dificuldades enfrentadas por emissores de stablecoins afetarem os investidores. A evolução regulatória será importante para determinar como essas questões serão tratadas.
A proposta de Bessent é transformar a liderança americana em ativos digitais em uma vantagem econômica e geopolítica. Se a estratégia funcionar, o crescimento das moedas digitais atreladas ao dólar poderá ampliar a demanda por títulos do Tesouro e levar a moeda americana a novos mercados. O resultado final, porém, dependerá da capacidade dos Estados Unidos de combinar inovação tecnológica, segurança financeira e confiança institucional.






