A BlackRock está ampliando sua aposta na tokenização de ativos financeiros e começa a desenhar um cenário em que não apenas ações, fundos e títulos individuais, mas carteiras inteiras de investimentos possam ser representadas e negociadas por meio de tokens em blockchain. A estratégia pode mudar a forma como investidores acessam, transferem e administram seus portfólios nos próximos anos.
A movimentação ganhou um exemplo concreto em setembro, quando a gestora desenvolveu três estratégias de investimento que passaram a ser oferecidas em formato tokenizado pela Ondo Finance. Os produtos foram estruturados para investidores elegíveis fora dos Estados Unidos e reúnem diferentes classes de ativos em uma única representação digital.
As três carteiras — voltadas para geração de renda, crescimento diversificado e crescimento elevado — combinam, de acordo com a estratégia, exposição a ações, títulos de renda fixa e ETFs de bitcoin. Em vez de o investidor comprar separadamente cada ativo, um único token representa a estratégia de investimento.
Carteiras inteiras podem chegar ao blockchain
A proposta representa uma evolução em relação à primeira fase da tokenização, que esteve concentrada principalmente em transformar ativos individuais em representações digitais. A visão apresentada pela BlackRock é mais ampla: levar a própria construção e administração das carteiras para ambientes baseados em blockchain.
Nesse modelo, um token pode representar um portfólio completo, permitindo que diferentes ativos sejam combinados em uma única estrutura. A tecnologia também pode permitir que determinadas operações, como rebalanceamentos, sejam executadas automaticamente por contratos inteligentes.
Na prática, isso significa que uma carteira poderia ser programada para alterar sua composição conforme regras previamente definidas. O processo reduziria a necessidade de várias etapas intermediárias para executar determinadas operações e poderia tornar a gestão de investimentos mais automatizada.
A BlackRock afirma que a tokenização funciona como uma espécie de representação digital de um ativo ou de uma exposição a ele. A tecnologia altera a maneira como propriedade, negociação e liquidação são registradas, sem necessariamente modificar o ativo financeiro que está por trás do token.
Negociação 24 horas é uma das possibilidades
Um dos principais atrativos do modelo está na possibilidade de ampliar os horários e a flexibilidade das negociações. Os portfólios tokenizados lançados pela Ondo podem ser transferidos e negociados continuamente, além de permanecerem armazenados em carteiras digitais.
Outra possibilidade é utilizar os tokens como garantia para operações de crédito, ampliando as formas pelas quais os ativos podem ser empregados dentro do ecossistema financeiro digital.
A tecnologia também pode facilitar a transferência de determinados investimentos entre participantes e sistemas diferentes. Em um cenário mais desenvolvido, a combinação entre blockchain, contratos inteligentes e carteiras digitais poderia permitir que ativos fossem movimentados com menos intermediários e etapas operacionais.
Para a BlackRock, a tokenização pode representar uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o mercado de ativos digitais. A gestora considera que a tendência não significa necessariamente substituir a infraestrutura financeira existente, mas criar novas formas de emissão, negociação, liquidação e distribuição de investimentos.
BlackRock amplia atuação no mercado digital
A tokenização já faz parte da estratégia da BlackRock. A empresa lançou em 2024 seu primeiro fundo de mercado monetário tokenizado e também investiu na Securitize, empresa especializada na emissão e administração de ativos digitais.
A gestora também vem aumentando sua presença no mercado de criptomoedas por meio de produtos tradicionais. O iShares Bitcoin Trust, conhecido pelo código IBIT, tornou-se um dos principais veículos para investidores que desejam exposição ao bitcoin por meio do mercado regulado de ETFs.
Agora, a tokenização abre uma frente diferente: em vez de apenas oferecer ativos digitais dentro da estrutura financeira tradicional, a companhia passa a explorar a possibilidade de colocar estratégias tradicionais de investimento diretamente em uma infraestrutura baseada em blockchain.
Essa aproximação entre finanças tradicionais e ativos digitais também ocorre em outras instituições. Bolsas como NYSE e Nasdaq trabalham em iniciativas de tokenização, enquanto bancos e gestoras desenvolvem fundos e outros instrumentos baseados em blockchain.
Adoção ainda enfrenta obstáculos
Apesar do potencial, a tokenização ainda está em uma fase inicial e enfrenta desafios regulatórios, tecnológicos e de infraestrutura. A própria BlackRock aponta questões como liquidez, segurança, custódia, fragmentação dos mercados e diferenças regulatórias entre países como obstáculos para uma adoção mais ampla.
Outro desafio é convencer investidores que já conseguem acessar ações, títulos e fundos por meio de plataformas tradicionais a migrar para uma estrutura baseada em tokens. Para esses participantes, a nova tecnologia precisa oferecer vantagens claras em termos de custo, velocidade, acesso ou flexibilidade.
A liquidez também é um ponto importante. Se determinados ativos forem negociados em diferentes redes e plataformas, pode haver fragmentação e dificuldade para concentrar compradores e vendedores. Isso poderia aumentar spreads e gerar diferenças de preço em relação aos instrumentos tradicionais.
Além disso, o armazenamento de ativos em carteiras digitais cria novas responsabilidades relacionadas à segurança das chaves de acesso e à custódia. A expansão dos contratos inteligentes também exige cuidados com riscos operacionais e tecnológicos.
Tokenização pode mudar a construção de portfólios
A visão da BlackRock é que, à medida que a infraestrutura amadurecer, a tokenização poderá deixar de ser apenas uma nova forma de representar investimentos e passar a fazer parte da própria estrutura dos mercados financeiros.
Nesse cenário, investidores poderiam ter acesso a carteiras diversificadas por meio de um único token, com regras automatizadas de rebalanceamento e possibilidade de transferência contínua. A integração entre ações, renda fixa, ativos privados, criptomoedas e outros instrumentos também poderia ampliar as possibilidades de construção de portfólios.
A própria BlackRock reconhece que essa transformação ainda está no início. O interesse crescente de grandes instituições, porém, indica que a tokenização está deixando de ser apenas uma aplicação experimental da tecnologia blockchain e começa a ser tratada como uma possível evolução da infraestrutura dos mercados.
Se esse modelo ganhar escala, a principal mudança para o investidor pode não estar apenas no que ele compra, mas na forma como seus investimentos são registrados, movimentados e administrados.






