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Bons ventos na economia justificam otimismo, mas há riscos no horizonte

Redação por Redação
18 de janeiro de 2024
em Economia
Bons ventos na economia justificam otimismo, mas há riscos no horizonte
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Em 2024, o PIB brasileiro talvez cresça menos do que em 2023, os juros permanecerão boa parte do tempo na casa dos dois dígitos, as contas do governo possivelmente fecharão no vermelho e a dívida pública tende a aumentar. Ainda assim, observa-se um considerável otimismo entre economistas, analistas e investidores a respeito dos rumos da economia do país. Como isso é possível? Há uma explicação por trás do aparente paradoxo: a largada deste ano se dá em cenário menos nebuloso do que aquele observado no início de 2023. Em janeiro do ano passado, as intenções do governo recém-eleito traziam mais dúvidas do que certezas, a inflação preocupava e o risco nada desprezível de recessão pairava sobre os países ricos. Tanto é assim que as projeções apontavam para um cenário de paralisia econômica, o que, afinal, não se concretizou. Agora, o ambiente é bem diferente — as nuvens carregadas se desfizeram, embora não estejam descartadas trovoadas eventuais no caminho. “Mesmo com o crescimento mais fraco, o otimismo vem das quedas de juros, depois de muito tempo com taxas elevadas, em um contexto internacional menos turbulento”, diz Carlos Kawall, sócio-fundador da gestora Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional.

Se no Brasil a expectativa é de que a Selic, a taxa básica da economia, encerre 2024 em torno de 9% ao ano, depois de permanecer em 13,75% durante boa parte de 2022 e 2023, nos Estados Unidos o ciclo de quedas está prestes a começar. No fim de dezembro, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), sinalizou a possibilidade de pelo menos três cortes de juros em 2024, mais que a expectativa dos economistas. Taxas menores, ressalte-se, estimulam o crédito e o consumo — elas ajudam, portanto, a mover a economia. A redução dos juros só é recomendável em cenários de desinflação, algo observado agora nos Estados Unidos, em parte da Europa e com certa intensidade no Brasil. Por aqui, os preços anuais aumentaram acima de 10% durante a pandemia, e começaram a declinar após o Banco Central elevar prudentemente a Selic. Em 2023, o IPCA, a inflação oficial do Brasil, fechou em 4,5%. Pelas projeções, ela será menor em 2024, podendo encerrar o ano abaixo dos 4%.

Termômetro relevante da economia, a bolsa de valores deverá surfar a onda de juros mais baixos. Em 2023, o Ibovespa, principal índice acionário brasileiro, quebrou recordes, passando dos 130 000 pontos. Novos avanços estão previstos para 2024. A maioria dos bancos e corretoras estima que o índice chegará aos 140 000 pontos neste ano. Mais otimista, o banco Santander defende ser possível alcançar os 160 000, o que seria um salto de 25%. “Apesar do recente rali, o Brasil continua sendo um dos mercados de ações mais atraentes da região”, afirmou o banco em relatório.

arte perspectivas

Com tanto entusiasmo, por que a economia brasileira provavelmente crescerá menos em 2024? Para responder à pergunta, é preciso olhar os resultados anteriores com atenção. No ano passado, o produto interno bruto subiu perto de 3% — o resultado fechado será divulgado em 1º de março pelo IBGE. Para 2024, a maioria das estimativas fica entre 1,5% e 2%. “Não são projeções otimistas, mas consideram um crescimento significativo”, diz Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e presidente do conselho da Jive Investments, gestora que enxerga uma expansão do PIB de 2,5% em 2024. “Otimista seria um crescimento maior que 4%.”

arte perspectivas

Em boa medida, o desempenho mais modesto neste ano deve ser atribuído ao agronegócio, que encerrou a última safra com novos recordes de produção e exportação — não à toa, a balança comercial brasileira obteve em 2023 o melhor saldo da história, beirando 100 bilhões de dólares. “Foi um fenômeno inédito, mas o efeito tende a se dissipar”, diz o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria. Em 2024, com impactos climáticos adversos, o setor projeta safra menor. Se no ano passado o PIB do agro cresceu em torno de 15%, ainda que os dados finais não tenham saído, em 2024 a projeção é que avance apenas 1%.

Mesmo se o agro não quebrar novos recordes, o Brasil poderá aproveitar o cenário global menos adverso. Desde 2021, quando os bancos centrais começaram a elevar os juros, analistas apostavam em uma conjuntura marcada por recessões, inclusive em economias centrais como a dos Estados Unidos e as maiores da Europa. A depressão, entretanto, nunca chegou. “Esperamos uma desaceleração global em 2024, mas ela deve ser mais fraca do que o imaginado”, diz Manuel Orozco, diretor da agência de classificação de riscos S&P e analista da América Latina. Foi Orozco quem assinou o relatório da S&P que, no fim de dezembro, elevou a nota de crédito do Brasil para BB-. Com isso, o país ficou a dois passos de voltar para o grau de investimento. “Reconhecemos o esforço feito nos últimos sete anos em reformas estruturais, que dão mais força institucional, e é um fato que, desde o começo da pandemia, o Brasil vem com desempenho melhor do que as nossas expectativas e as da maioria do mercado”, diz ele.

Apesar do cenário menos nebuloso, há riscos inegáveis pairando no horizonte. No contexto global, perigos geopolíticos persistem, como a situação na Ucrânia, as tensões entre Israel e países muçulmanos, e o temor nunca anulado de uma invasão chinesa em Taiwan. São conflitos que poderão atrapalhar o fornecimento de petróleo e fazer seus preços dispararem novamente. Há também dúvidas em torno de quando o Fed vai começar a baixar os juros americanos, já que o mercado de trabalho por lá, com sua resistência, pode prolongar a inflação e atrasar essa agenda.

No campo doméstico, o receio está no âmbito fiscal. A despeito das boas intenções do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, até agora o governo Lula tem demonstrado pouca disposição para cortar gastos. Isso ameaça as contas públicas e põe em xeque o próprio crescimento econômico. À exceção de uma breve passagem pelo azul em 2022, sob o comando de Paulo Guedes, as contas do governo apresentam déficit desde 2014 — ou seja, há uma década as despesas terminam o ano acima das receitas. Sempre que isso ocorre, o governo precisa pegar dinheiro emprestado no mercado para honrar seus compromissos, ampliando o seu nível de endividamento. Na lógica econômica, quanto mais a dívida cresce, menor é a credibilidade do país. “Este é o ponto crítico que a economia brasileira enfrenta”, diz Maílson da Nóbrega, mencionando a pouca margem de manobra que sobra no orçamento público em meio a níveis generosos de gastos. “Os governos dependem dessa margem para implementar políticas para o crescimento, a redução da desigualdade e a erradicação da pobreza”, diz o ex-ministro.

Na complexa dança entre desafios e oportunidades de 2024, enquanto a queda gradual dos juros sinaliza um caminho promissor, a situação fiscal emerge como o fiel da balança, determinando não apenas a estabilidade das contas públicas, mas também a confiança dos investidores no Brasil. É bom também lembrar que o ano é de eleições municipais, portanto, de mais gastos públicos. E que há um processo de mudança relevante a caminho: o final da gestão atual do Banco Central. De fato, bons ventos estão soprando de início, mas não se deve descartar a possibilidade de novas intempéries.

Fonte: VEJA Mercado

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