Na sexta-feira (26) foram divulgados dois índices de inflação extremamente relevantes para as expectativas dos investidores no Brasil e nos Estados Unidos. Ambos vieram abaixo do consenso. À primeira vista isso permite uma redução nos juros nos dois países. Será mesmo?
Começando pelo Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o primeiro índice de inflação do ano, o IPCA-15. Ele é idêntico ao IPCA, da meta de inflação. A diferença é o período de apuração. O IPCA analisa a variação dos preços do mês anterior e o IPCA-15 considera a segunda quinzena do mês anterior e a primeira do mês corrente.
O IPCA-15 de janeiro indicou uma inflação de 0,31 por cento, bem abaixo dos 0,47 por cento esperados pelos investidores. Em 12 meses, a variação foi de 4,47 por cento, abaixo dos 4,72 por cento até dezembro. A inflação não só desacelerou. Ela desacelerou mais que o esperado. O IPCA-15 é a melhor antecipação do IPCA. Essa desaceleração é uma notícia boa? Mais sobre isso à frente.
Agora os Estados Unidos. Também na sexta-feira o Departamento de Comércio divulgou o Personal Consumption Expenditure (PCE) de dezembro. Conhecido como “a inflação do FED”, o PCE é o predileto do Federal Reserve, o BC americano, para medir a inflação nos EUA.
O PCE nos 12 meses até dezembro variou 2,6 por cento, igual à variação de novembro e confirmando plenamente as expectativas dos investidores. O “núcleo” do PCE, que exclui os preços mais voláteis dos alimentos e da energia, variou 2,9 por cento. Foi abaixo dos 3,2 por cento de novembro. E também foi levemente inferior às expectativas de 3,0 por cento.
Esses são os números. Sozinhos, eles não dizem muita coisa. É preciso analisar o que eles significam.
A inflação parece ter caído tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o que justificaria um corte nos juros. Vamos recordar a história recente. Em julho de 2022 a inflação americana estava descontrolada. O PCE rodava a elevados 8,5 por cento ao ano, mais do quádruplo da meta de 2,0 por cento.
Para fazer o dragão retornar à caverna, o FED mandou as taxas referenciais de zero para o patamar atual de 5,25 a 5,50 por cento ao ano, nível mais elevado desde 2007. Foi o maior aperto na política monetária em quatro décadas. Mesmo assim, só um ano e meio depois a inflação parece estar cedendo.
Muito antes disso, em março de 2021, o Banco Central do Brasil (BC) começou a fazer a mesma coisa. Devido à pandemia, a Selic estava em 2,00 por cento ao ano, a menor taxa nominal da história. Como a inflação começou a sair do controle, o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou um processo drástico de aperto monetário.
Em 2021 a Selic subiu de 2,00 por cento para 9,25 por cento. E continuou subindo até setembro de 2022, chegando nos 13,75 por cento que valeram por 12 meses. Em setembro de 2023 a Selic começou a baixar. Atualmente está em 11,75 por cento e deve cair 0,5 ponto percentual na reunião agendada para os dias 30 e 31 de janeiro.
A pergunta difícil é: e depois? A edição mais recente do Relatório Focus, divulgada na segunda-feira (22), mostra que a projeção para a Selic em dezembro deste ano é de 9,00 por cento. Assim, considerando-se a redução esperada para 11,25 por cento ao ano, ainda há 2,25 pontos a serem cortados. Na hipótese mais agressiva, mais quatro reduções de meio ponto percentual e uma baixa de 0,25 ponto percentual.
Dá para esperar um corte tão abrupto na Selic? Vamos analisar o IPCA com cuidado. Segundo o IBGE, o principal responsável pela baixa foram as passagens aéreas, cujos preços recuaram 15,24 por cento em janeiro. Ou seja, boa parte da desaceleração foi provocada por uma queda pontual em um único item da cesta.
Os números trouxeram más notícias. Os preço de serviços subjacentes, como tarifas bancárias e aluguel de veículos, subiram 0,68 por cento, acima da mediana das expectativas que era de 0,52 por cento.
Outra notícia ruim foi o índice de difusão, que mede a proporção de itens da cesta cujos preços aumentaram. Esse índice subiu de 56 por cento em dezembro para 67 por cento em janeiro. Ou, em português corrente: em dezembro, pouco mais da metade dos produtos e serviços que fazem parte da cesta do IPCA ficaram mais caros. Em janeiro, essa proporção subiu para quase dois terços.
Tudo isso indica que a inflação segue resiliente. Apesar da baixa do IPCA-15, não há muitos sinais de que os preços estejam caindo de maneira generalizada. É fácil constatar isso, basta ir ao supermercado. Ou seja, ainda é cedo para contar com cortes agressivos na Selic, apesar de a inflação ainda estar abaixo do teto da meta.
O caso do Federal Open Market Committee (Fomc), o Copom americano, é semelhante. O resultado da reunião, que vai ocorrer simultaneamente à do Copom, também está dado. Os juros permanecerão no patamar atual.
Nos Estados Unidos é certo que as taxas não vão mudar na reunião de janeiro. Os investidores esperavam que a redução começasse em março, apesar de os diretores do FED terem advertido muitas e muitas vezes que a inflação ainda não tinha dado sinais de queda sustentável. O PCE de dezembro desacelerou levemente. Porém, a economia americana segue acelerada.
Na quinta-feira (25) foi divulgada a primeira prévia da variação do Produto Interno Bruto (PIB) americano no 4T33. A variação foi de 3,3 por cento a/a, quase o dobro dos 2,0 por cento esperados. Economia crescendo é uma notícia boa para as pessoas. Há mais emprego, mais renda e mais consumo. Só que isso tende a pressionar a inflação, o que obrigará o FED a manter apertada a política monetária.
Qual a conclusão? A probabilidade de um alívio nos juros a curto prazo diminuiu, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. E isso terá um impacto profundo nos preços dos ativos financeiros.
Fonte: Enrico Cozzolino






