A Kalshi entrou na disputa para oferecer futuros perpétuos vinculados a ações americanas, apresentando aos reguladores dos Estados Unidos uma proposta própria no mesmo dia em que a Coinbase protocolou um pedido semelhante. O movimento amplia a corrida para levar às bolsas reguladas um tipo de derivativo que ganhou popularidade no mercado de criptomoedas.
A Kalshi apresentou, em 18 de setembro, uma proposta à Securities and Exchange Commission (SEC) e à Commodity Futures Trading Commission (CFTC) para listar contratos perpétuos ligados a ações individuais e ETFs dos Estados Unidos. Entre os ativos previstos estão papéis de empresas como Apple, Nvidia, Microsoft, Amazon e Tesla, além de fundos como SPY e QQQ. A aprovação da CFTC ainda está pendente.
Os contratos não teriam uma data de vencimento predeterminada. Em vez disso, posições compradas e vendidas fariam pagamentos periódicos de financiamento, mecanismo utilizado para manter o preço do contrato próximo ao valor do ativo de referência. A proposta prevê que os produtos sejam classificados como security futures, categoria sujeita à supervisão conjunta de órgãos do mercado de valores mobiliários e de derivativos.
A estrutura permitiria que investidores assumissem posições de alta ou de baixa sobre determinadas ações sem possuir diretamente os papéis. Isso diferencia os futuros perpétuos das ações tradicionais e também dos chamados ativos tokenizados, que representam a propriedade de ações reais e podem conceder direitos como dividendos e voto.
A proposta da Kalshi prevê negociação durante praticamente toda a semana, com uma janela diária de manutenção. De acordo com os documentos apresentados, as operações poderiam ocorrer das 18h de domingo às 17h de sexta-feira, no horário de Nova York, com uma pausa diária entre 17h e 18h. A empresa também propôs margem mínima de 15,50% para clientes.
A Coinbase apresentou uma proposta semelhante no mesmo dia, abrangendo inicialmente mais de 50 ações e ETFs. A companhia pretende oferecer exposição praticamente contínua a empresas como Apple, Microsoft, Tesla e Nvidia, sem que o investidor precise adquirir as ações correspondentes. O pedido também depende de aprovação regulatória.
A disputa ganhou ainda um terceiro participante. A Payward, controladora da Kraken, informou que pretende utilizar a Bitnomial, uma bolsa e câmara de compensação regulada nos Estados Unidos, para lançar futuros perpétuos de ações. A proposta inicial inclui dez empresas, entre elas Apple, Nvidia, Tesla, Microsoft e Amazon, com planos de negociação 24 horas por cinco dias da semana.
O interesse das empresas está relacionado ao crescimento dos contratos perpétuos no mercado de criptomoedas. Esses produtos permitem manter posições abertas sem a necessidade de renovar contratos com vencimento definido e podem incorporar alavancagem, aumentando tanto a exposição potencial quanto os riscos de perdas. A Kalshi já oferece futuros perpétuos de criptomoedas nos Estados Unidos após obter autorização para seu primeiro produto em maio.
Para o mercado acionário, a eventual aprovação pode criar uma nova forma de negociação fora do horário tradicional das bolsas. Notícias corporativas, indicadores econômicos e acontecimentos geopolíticos frequentemente ocorrem quando o mercado à vista está fechado. Um contrato perpétuo líquido poderia, nesse cenário, oferecer uma referência de preços antes da reabertura das bolsas.
Ao mesmo tempo, a estrutura traz desafios regulatórios. Como os contratos têm ações individuais como referência, as autoridades precisam considerar questões relacionadas à supervisão, manipulação de mercado, negociações com informação privilegiada e interrupções de negociação. A classificação como security futures coloca os produtos em uma área que envolve tanto a regulamentação de valores mobiliários quanto a de derivativos.
A movimentação ocorre poucos dias depois de o Senado americano não avançar com o CLARITY Act, projeto que buscava estabelecer um marco regulatório mais amplo para o mercado de ativos digitais. O cenário aumenta a relevância das decisões tomadas pela SEC e pela CFTC dentro das regras que já estão em vigor.
Caso os pedidos sejam aprovados, Kalshi, Coinbase e a estrutura ligada à Kraken passarão a disputar um mercado que combina características das bolsas tradicionais com mecanismos populares no setor cripto. A competição deverá envolver liquidez, custos, exigências de margem, disponibilidade de ativos e capacidade de atrair investidores para uma nova modalidade de exposição às ações americanas.






