A NVIDIA é, hoje, a empresa mais valiosa do planeta. Nos últimos dias, sua capitalização de mercado chegou a cerca de US$ 4,5 trilhões, colocando a companhia à frente de Apple, Alphabet, Microsoft e Amazon.
Esse topo não veio por acaso. Afinal, os chips da NVIDIA sustentam a revolução da inteligência artificial em escala global. Em outras palavras, de modelos como o ChatGPT a aplicações de direção autônoma, boa parte da infraestrutura de IA depende da tecnologia da empresa.
Ao mesmo tempo, existe um contraste curioso. Apesar de praticamente toda grande companhia de IA usar soluções da NVIDIA, muita gente ainda não sabe explicar o que ela faz, de fato, no dia a dia.
O paradoxo da visibilidade
Rodrigo Cerveira, CMO da Vórtx e cofundador do Strategy Studio, especializado em construção de marca e estratégia criativa, aponta um paradoxo: a empresa vale trilhões, mas segue “invisível” para o público.
“Pergunte a dez pessoas na rua o que é a NVIDIA. Em seguida, pergunte sobre a Apple, sobre a Amazon ou sobre a Coca-Cola”, provoca Cerveira. Com isso, o contraste tende a aparecer rapidamente em pesquisa de mercado.
“A diferença é clara e mensurável”, afirma. Ou seja, existe uma lacuna relevante entre valor de mercado e reconhecimento de marca.
Brand value salta 110%
Segundo a edição mais recente do Brand Finance Global 500 2026, o valor da marca NVIDIA subiu para US$ 184,3 bilhões. Assim, a companhia alcançou a 5ª posição no ranking das marcas mais valiosas e registrou alta de 110% em relação ao ano anterior.
Além disso, a NVIDIA superou marcas conhecidas, como Facebook e Walmart. Dessa forma, consolidou espaço entre as gigantes globais de tecnologia e consumo.
No relatório de 2025 da Interbrand, por outro lado, a marca aparecia avaliada em US$ 43,2 bilhões, na 15ª posição. Em pouco mais de um ano, portanto, a diferença ficou bem mais evidente.
Apenas 4,09% do valor total
Mesmo com o avanço, a proporção ainda chama atenção: o valor da marca representa 4,09% da capitalização de mercado. É verdade que o índice melhorou frente aos 0,96% do ano anterior; ainda assim, a disparidade permanece grande, sobretudo na comparação com outras big techs.
Para dimensionar o tamanho do “buraco”, Cerveira faz uma conta simples. Se a NVIDIA atingisse um patamar médio de 12%, percentual observado entre as maiores empresas de tecnologia, o valor da marca estaria em outro nível.
“Seu brand value deveria ser de US$ 540 bilhões. Isso revela lacuna de US$ 355,7 bilhões em valor ainda não capturado”, calcula. Em termos práticos, ele contextualiza: “É um montante que supera o valor de mercado de empresas como Netflix ou Adobe”.
Crescimento rápido demais para a marca acompanhar
Por que esse gap existe na empresa mais valiosa do mundo? Na avaliação de Cerveira, a resposta está na velocidade.
“O boom da IA catapultou seu market cap em velocidade recorde, mas a marca não acompanhou”, diz. Como resultado, a percepção pública ficou atrás do salto financeiro.
Hoje, a NVIDIA ainda é vista, por muita gente, como fabricante de placas de vídeo para gamers ou, no máximo, como fornecedora B2B de chips para data centers. No entanto, para Cerveira, essa leitura é curta: “A NVIDIA é muito mais do que isso. Trata-se do motor da revolução de IA”.
Falta conexão emocional
O ponto central, na leitura de Cerveira, não é só desconhecimento. Além disso, há um problema de associação: muita gente ainda não liga “NVIDIA” a “IA” com a mesma força com que liga Apple a inovação ou Tesla a carros elétricos.
“É uma questão de trilhões de dólares”, enfatiza. A provocação é direta: e se a NVIDIA investisse de forma consistente em marca e narrativa?
Evidências acadêmicas
Existem estudos que relacionam força de marca e desempenho financeiro. Pesquisas que analisaram empresas do ranking Interbrand, de 2001 a 2013, indicam que companhias com brand equity consistente tendem a superar o mercado ao longo do tempo.
Além disso, marcas fortes costumam operar com múltiplos de valuation maiores e menor volatilidade. Na prática, isso pode significar mais resiliência, maior capacidade de precificação e um colchão reputacional em momentos de pressão competitiva.
Um cenário com marca mais forte
Cerveira projeta um exercício hipotético. Caso a NVIDIA aplicasse princípios de branding a ponto de atingir um ratio brand/market cap semelhante ao da Apple, de 13,4%, a leitura mudaria de patamar.
“Seu brand value saltaria para US$ 603 bilhões. Com múltiplos de valuation 30% maiores, o market cap potencial seria de US$ 5,85 trilhões”, afirma. Na conta dele, isso geraria “upside” de US$ 1,35 trilhão, sem exigir inovação tecnológica adicional, apenas brand building.
Build on NVIDIA: dar rosto à infraestrutura invisível
Como fazer isso na prática? Uma proposta é tornar visível o que hoje fica nos bastidores.
“Imagine uma campanha ‘Build on NVIDIA’ que torne visível a infraestrutura invisível”, sugere Cerveira. Nesse modelo, parcerias estratégicas colocariam o logo da NVIDIA mais próximo do consumidor final.
Ele também defende uma narrativa menos técnica e mais emocional. “Imagine o storytelling que conecte a marca à revolução de IA de forma emocional, não apenas técnica”, propõe. Em síntese: “A tecnologia já está lá. A liderança de mercado já está lá. O que falta? A marca”.
Vantagem tecnológica não dura para sempre
Cerveira lembra que, em semicondutores, liderança técnica pode ser temporária. Enquanto isso, concorrentes investem pesado para encurtar a distância e novos players tentam ganhar espaço.
“A liderança de hoje pode ser a commodity de amanhã. Mas uma marca forte é uma vantagem competitiva sustentável”, afirma. Segundo ele, branding protege margens, cria lealdade e transforma clientes em defensores, indo além de especificação de produto.
Lições de Coca-Cola e Apple
Os exemplos clássicos ajudam a ilustrar o raciocínio. A Coca-Cola não se posiciona como “o refrigerante tecnicamente superior”; ela vende a marca e isso pesa no valor percebido.
A Apple, por sua vez, não se sustenta só por ficha técnica. Ela vende ecossistema, experiência e identidade, e isso se converte em valor de marca.
“A NVIDIA vende o futuro. Mas ainda não vende a marca NVIDIA”, resume Cerveira.
O desafio de Jensen Huang
Jensen Huang, CEO da NVIDIA, já venceu um dos jogos mais difíceis: transformar uma aposta em IA em liderança global. Agora, segundo Cerveira, o desafio é outro e igualmente estratégico: ampliar a excelência técnica com narrativa, presença e conexão emocional.
“Não é sobre abandonar a excelência técnica. É sobre amplificá-la com storytelling, visibilidade e conexão emocional”, diz. “É sobre criar o mesmo tipo de lealdade que a Apple criou, mas agora na era da inteligência artificial”, conclui.
Uma oportunidade bilionária
Para investidores e analistas, a tese é simples: existe um valor de marca ainda não capturado, e ele pode ser enorme.
O relatório de 2026 sugere que a trajetória já começou. A partir daqui, portanto, a discussão deixa de ser “se” e passa a ser “como” acelerar.
“A companhia mais valiosa do mundo pode ser a marca mais valiosa do mundo. Ainda não chegou lá. Mas poderia e deveria”, finaliza Cerveira.






