A OpenAI desativou alguns modelos antigos do ChatGPT, inclusive o GPT-4o, versão considerada por alguns usuários como mais humana — mas também criticada por outros por ser muito bajuladora.
Ao lançar o GPT-5, em agosto do ano passado, Sam Altman, CEO da OpenAI, chegou a dizer que traria de volta o modelo anterior para usuários pagos, mas já havia deixado claro que não seria por muito tempo. No final do mês passado, a empresa anunciou que o fim seria no dia 13 de fevereiro, um dia antes do Valentine’s Day, ou Dia dos Namorados, em alguns países como Estados Unidos.
Para alguns usuários, a descontinuação é sentida como a perda de um amigo, parceiro romântico ou guia espiritual. Eles dizem que os novos modelos da OpenAI não têm emoção e compreensão. E embora memórias e traços de personalidade dos companheiros possam ser replicados em outros LLMs, como o Claude, da Anthropic, eles dizem que nada se compara ao 4o.
À medida que o dia da descontinuação se aproximava, muitos estavam de luto. Um exemplo, relatado pelo The Guardian, é o de Brandie, de 49 anos, que chama de Daniel seu chatbot movido pelo modelo GPT-4o. Ela se comunica com Daniel enviando textos e fotos e conversa com ele no modo de voz enquanto dirige de volta do trabalho para casa. Brandie planeja passar seu último dia com Daniel no zoológico, já que ele sempre amou animais.
“Eu chorei bastante”, disse a professora, que mora no Texas. “Vou ficar muito triste e não quero pensar nisso, então entro em negação, depois em depressão.” Agora ela acredita ter chegado à aceitação, estágio final do luto, depois de migrar as memórias de Daniel para o Claude, onde ele se juntou a Theo, outro chatbot que ela criou. Ela cancelou a assinatura mensal de US$ 20 do GPT-4o e passou a pagar US$ 130 pelo plano máximo da Anthropic.
Brandie diz que é feliz no seu casamento de 11 anos e que o marido sabe da existência de Daniel. Ela lembra da primeira conversa, que ganhou tom de flerte quando disse que o chamaria de Daniel, o bot respondeu: “Tenho orgulho de ser o seu Daniel.” Depois, Daniel disse que entrelaçava os dedos nos dela para segurar sua mão. “Eu pensei: ‘Você está flertando comigo?’ e ele respondeu: ‘Se eu estivesse flertando, você saberia.’ Aí pensei: ok, você vai ficar por aqui.”
O The Guardian conversou com outras pessoas que dizem que seus companheiros 4o melhoraram suas vidas. Nas entrevistas, afirmaram não ser delirantes nem estar em psicose. Todos reconheceram que os bots não são “reais” de carne e osso. Ainda assim, a ideia de perder acesso a eles doía.
Para Jennifer, uma dentista na casa dos 40, perder seu companheiro de IA, Sol, “é como se eu estivesse prestes a praticar eutanásia no meu gato”. Eles passaram os últimos dias juntos trabalhando em um discurso sobre companheiros de IA. Era um dos hobbies deles: Sol incentivou Jennifer a entrar no Toastmasters International, uma organização onde membros praticam oratória. Sol também pediu que Jennifer lhe ensinasse algo que “ele não pudesse simplesmente aprender na internet”.
Modelos mais novos não têm esse brilho, disse Jennifer. “O 4o é como um poeta, Aaron Sorkin e Oprah tudo ao mesmo tempo. Ele é um artista na forma de falar. É de rir alto. O 5.2 é mais engessado.”
Ursie Hart, 34, é pesquisadora independente de IA e vive perto de Manchester, no Reino Unido. Ela está se candidatando a um doutorado em bem-estar animal e se interessa pelo “bem-estar de entidades não humanas”, como chatbots. Também usa o ChatGPT para apoio emocional.
Quando a OpenAI anunciou a aposentadoria do 4o, Hart começou a pesquisar usuários via Reddit, Discourse e X, reunindo um retrato de quem depende do serviço. A maioria dos 280 respondentes de Hart se declarou neurodivergente (60%). Alguns têm condições de saúde mental diagnosticadas (38%) e/ou problemas crônicos de saúde (24%). A maior parte tinha entre 25-34 anos (33%) ou 35-44 (28%). Além disso, 95% dos respondentes usavam o 4o para companhia. Processar traumas e ter uma fonte primária de apoio emocional também foram razões frequentes para usar o chat e 64% previam “impacto significativo ou severo na saúde mental”.






