No final do ano passado, muitos bancos estrangeiros arriscaram colocar um preço-alvo para o principal índice de ações americano, o S&P 500, ao final deste ano. Ainda que as previsões fossem bem diferentes entre si, o índice, impulsionado por uma economia forte e o tema da inteligência artificial, bateu, no primeiro trimestre, todas as expectativas que eram para o fim do ano : acumula em 2024 uma alta de 5,74%, sendo que já tinha começado o ano em um patamar elevado, e hoje está em 5.000 pontos.
Dentre cinco relatórios compilados pelo Valor Investe, era esperado, em média, que o índice S&P 500 encerrasse 2024 em 4.540 pontos, pouco abaixo do nível do fim do ano passado, de 4.700 pontos. Em dezembro de 2023, 5.100 pontos era a expectativa mais otimista para terminar este ano. Mas na máxima de 2024 já chegou a ultrapassar os 5.200 pontos.
Desde dezembro, o banco suíço UBS aumentou a sua previsão para o índice no final do ano de 4.700 pontos para 5.400 pontos, o americano Wells Fargo elevou a sua expectativa de 4.625 pontos para 5.535 pontos, enquanto o Bank of America elevou seu alvo para o índice de 5.000 pontos para 5.400 pontos. Do lado pessimista, a casa de análises americana BCA elevou a sua previsão de 3.700 para 4.000 pontos. Já o Citi mantém sua projeção em 5.100 pontos. O JP Morgan não divulgou se revisou ou não a sua expectativa de que o S&P 500 encerre o ano a 4.200 pontos.
Enquanto cinco instituições financeiras esperavam, no fim de 2024, que o S&P 500 encerrasse o ano em uma média de 4.540 pontos, agora cinco instituições esperam que o índice encerre em 5.087 pontos. Ou seja, praticamente ande de lado considerando o seu patamar atual.
A incerteza que anda paira sobre os juros deixa alguns analistas preocupados. Desde o início do ano, as taxas pararam de subir: em suas últimas reuniões, o BC dos EUA, o Federal Reserve (Fed), optou por manter a taxa no intervalo entre 5,25% e 5,5% ao ano. Contudo, a previsão de parte do mercado no final de 2023 era de que seria possível que os juros pudessem ser cortados já no primeiro trimestre.
Contudo, os primeiros três meses do ano se foram, e não há sinal de queda dos juros americanos. Hoje, após uma série de dados fortes da economia e inflação americana, não é mais provável que o ciclo de baixa se inicie nem mesmo no segundo trimestre. Agora, a maior parte do mercado acredita que o primeiro corte aconteça só em setembro, enquanto os analistas se dividem de que haverá um ou dois cortes até o final do ano. No início do ano, investidores chegaram a esperar seis cortes. Ou seja, houve uma baita reversão das expectativas.
Veja abaixo a visão das instituições financeiras para o índice de S&P 500 até o final do ano e suas recomendações sobre como investir nas empresas do índice:
UBS
Em dezembro, o banco suíço apontou que o S&P 500 poderia chegar a 4.700 pontos até o final de 2024. Já no dia 16 de janeiro revisou seu alvo para 5.150 à medida em que o cenário da economia melhorava ainda mais. “Apesar de nossa perspectiva otimista, parece que não fomos otimistas o bastante”, disseram, em relatório. Por isso, colocaram, em fevereiro, um novo alvo para o índice: o nível de 5.400 pontos.
Os analistas apontam que uma inflação mais alta tende a ser positiva para os preços das ações. Impulsionados pela demanda, os papéis mostram um potencial de crescimento no futuro. Para reforçar essa visão, listam uma série de dados econômicos que têm sido fortes desde o início do ano, como o PIB do 1º trimestre, que veio acima das previsões.
Embora o setor de saúde continue sendo o grupo preferido do banco dentro do grupo de ações defensivas (que costumam ter bom desempenho mesmo nas crises), o UBS vê maior oportunidade em setores cíclicos, por conta da contínua força da economia americana. Entre os setores que se beneficiam de um cenário de aumento das taxas de juros, provável ressurgimento de fusões e aquisições e flexibilização das normas de empréstimo está o financeiro.
Citi
No relatório de perspectiva de 2024, publicado em dezembro, o cenário-base do Citi para o S&P 500 ao fim do ano era 5.100 pontos. No mesmo relatório, o banco também incluiu um alvo otimista de 5.700 pontos. Apesar de apontar que o seu alvo otimista vem sendo muito discutido recentemente, o banco aponta que ainda não fez dele o seu cenário-base, e manteve sua projeção inicial.
Para os analistas do banco, os mercados estão colocando no preço dos papéis as expectativas de crescimento do prêmio para o tema da Inteligência artificial de forma razoável. Contudo, bolsões de preocupação indicam a necessidade de ampliar a exposição globalmente e em toda a cadeia de valor.
Bank of America
O Bank of America (BofA) revisou a sua meta de final do ano para o S&P 500 de 5.000 pontos para 5.400 pontos principalmente por conta de ajustes no valor justo das ações.
A mudança na composição do S&P 500 desde os anos 80 é uma razão para o otimismo: desde então o endividamento das empresas que fazem parte do índice caiu pela metade, há uma menor volatilidade de lucro por ação e antes 70% do índice era de empresas intensivas em capital e agora 50% do indicador são de empresas leves.
Para o banco, existem áreas de euforia no mercado ao redor de temas como a de inteligência artificial e remédios para obesidade, mas elas são limitadas. Os analistas do banco esperam que o mercado se amplie além desses temas, mas alertam que fluxos passivos podem impulsionar um bom momento para ações de crescimento e de mega capitalização nos EUA.
BCA
Os estrategistas de ações dos EUA da BCA acreditam que as previsões dos analistas são excessivamente otimistas, dadas as condições macroeconômicas. Para eles, no pior cenário, o índice de ações pode cair para 4.000 pontos. No melhor dos cenários, acreditam que o indicador ficará onde está agora, no nível de 5.000 pontos. Em dezembro, a instituição financeira acreditava que o índice poderia desabar para 3.700 pontos.
Para Irene Tunkel, estrategista chefe da BCA, a economia está “um pouco quente demais”. “O mercado está frágil. Há muita excitação e o medo de ficar de fora em torno da IA. Depois da queda do mercado em 2022, as pessoas estão confiantes de novo, achando que ganharam um bilhete de loteria”. Para a especialista, o mercado de ações americano está no início de uma bolha. Contudo, “ela não vai estourar amanhã”.
Tunkel acredita que seja tarde demais para investir em semicondutores, e recomenda aplicar dinheiro no setor financeiro. Para ela, ações industriais não estão “nem caras e nem baratas”, enquanto o setor de energia está mais barato. “Recomendo selecionar ações baratas agora e preferir segmentos defensivos, como cuidados com a saúde, seguros e serviços de utilidade pública. Também recomendo ter alguma exposição ao setor imobiliário”.
“Embora o consumo continue impulsionando o crescimento econômico nos EUA, as perspectivas estão se deteriorando. A demanda por mão de obra e o crescimento dos salários irão desacelerar, as reservas de caixa em excesso serão esgotadas e os padrões de empréstimo dos bancos aos consumidores estão rígidos”.
Além disso, eles acreditam que as empresas têm uma capacidade limitada de aumentar os preços. Mesmo que o crescimento dos salários tenha desacelerado, eles permanecem rígidos e o atual ambiente desinflacionário está fazendo com que os preços caiam mais rápido do que os custos da mão de obra, exercendo assim pressão sobre as margens dos negócios, especialmente de pequenas e médias empresas.
Enquanto isso, inovações relacionadas à inteligência artificial podem aumentar o crescimento da produtividade e fornecer um impulso às margens, mas isso somente acontecerá no longo prazo. “É, portanto, improvável que as margens se elevem significativamente ao longo do restante do ano. Os investidores devem adotar uma postura defensiva em suas carteiras de ações”, recomendam.
Fonte: Valor Investe






