O Hub de Hidrogênio Verde é uma das maiores promessas para o Ceará. O equipamento já contempla mais de 35 empresas nacionais dispostas a investir na produção de H2V. No entanto, para tirar a ideia do papel, é preciso ir além. De acordo com estudos do Governo do Estado, são necessários investimentos superiores a R$ 3,4 bilhões em infraestrutura nos próximos cinco anos. Montante a ser injetado em infraestrutura portuária, hídrica, água de reuso, linhas de transmissão, dutos e tancagem de amônia, dentre outros.
O relatório “Construindo o Hub de Hidrogênio Verde do Ceará”, conhecido como masterplan da matriz energética no Estado, aponta os principais desafios. Para conseguir manter uma base sólida, o masterplan aborda a questão dos subsídios. “Os incentivos (incluindo subsídios) criam uma capacidade de competição do setor de hidrogênio verde artificial e temporária. Uma vez que a indústria se estabelece, estes diminuem até, eventualmente, desaparecerem”, reforça.
A lógica econômica é justificável pelo fato de a indústria ser nascente, um período específico para o H2V superar as barreiras tecnológicas, além da eliminação das discrepâncias temporárias. Em resumo, os subsídios auxiliariam na pesquisa, desenvolvimento, infraestrutura e produção em escala.
Outro ponto específico diz respeito à venda e distribuição do H2V. Os hubs dependem de uma abundância de acordos para a sustentabilidade de longo prazo, dos quais muitos têm uma dimensão internacional. O relatório fala em acordos de compensações vinculativas. “Para superar essas barreiras, o Ceará precisará adotar uma abordagem estratégica e multifacetada para emergir com sucesso como líder global em hidrogênio verde”, explica.
O desenvolvimento, inclusive, passa pelos investimentos em P&D e o trabalho junto à academia. “No caso do Ceará, vemos a necessidade de o Estado estabelecer um cronograma claro de formação, educação, envolvimento universitário e pesquisa e desenvolvimento”, complementa o masterplan. É importante pensar em colaboração com universidades para introduzir cursos especializados em tecnologias de hidrogênio e criar grupos de pesquisa e laboratórios dedicados ao H2V. Esta é apenas a “fundação”. Para o desenvolvimento, implementar programas de pós-graduação e bolsas de pesquisas na nova matriz energética, bem como estabelecer programas de intercâmbio com instituições internacionais – em um horizonte entre 2026 e 2027.
Impasse
Na avaliação de Adão Linhares, ex-secretário executivo de Energia e Telecomunicações do Ceará e fundador da Energo Energia, o hidrogênio verde enfrenta dois grandes impasses naturais. O primeiro está relacionado à pós-produção. “Para onde vai esse hidrogênio? Ele será destinado ao mercado externo, através da exportação para a Europa, ou será usado internamente para a descarbonização da indústria nacional? Este é um ponto importante que o governo, tanto estadual quanto federal, precisa considerar ao estabelecer diretrizes políticas para a produção de H2V”, aborda.
O segundo ponto é sobre como essa produção acontecerá a partir de fontes de energia renovável, como a eólica e solar, que têm grande potencial no Ceará e no Nordeste. “Essas energias precisam ser transformadas em hidrogênio, criando uma cadeia de valor que pode atender tanto ao mercado interno quanto à exportação”, pontua.
O relatório também comenta a questão da infraestrutura elétrica (leia-se linhas de transmissão). “A energia deve ser fornecida de forma contínua e constante para garantir a produção de hidrogênio. Essa infraestrutura é uma responsabilidade do governo federal, que deve planejar e garantir a energia necessária. Atualmente, a infraestrutura é deficiente, o que causa sérios problemas, como a dificuldade de levar energia ao Pecém e o escoamento da energia eólica e solar produzida. Isso leva a situações como o ‘curtailment’, onde os parques eólicos e solares contratados são forçados a desligar”, alerta. “Se o governo federal não resolver, o governo estadual pode intervir. O Estado pode agir para melhorar a infraestrutura elétrica de alta tensão”, finaliza.






