As empresas que atuam no Ceará estão entendendo que crescer de forma sustentável também passa por assumir responsabilidades com o meio ambiente. Prova disso é o movimento realizado em direção ao mercado de carbono, adotando práticas e metas de redução de emissões para além do discurso. A M. Dias Branco, referência nacional no setor de alimentos, é um desses exemplos.
Com sede em Eusébio, a companhia anunciou sua inclusão no Índice Carbono Eficiente da B3 (ICO2 B3), reforçando seu compromisso com a gestão de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). “A adesão ao ICO2 B3 reflete o compromisso da M. Dias Branco com a redução de emissões de GEE e a transição para um futuro de baixo carbono”, afirma Daniella Pessoa, gerente de Estratégia Climática e Ambiental da companhia.
Segundo ela, os avanços se devem à dedicação diária da empresa em promover eficiência nos processos, envolver fornecedores e acompanhar com rigor as emissões ao longo de toda a cadeia de valor. Boa parte desses resultados está ligada ao Programa Descarbonize, lançado em 2023, que reúne 10 pilares com foco na transição energética e no desenvolvimento sustentável. A meta da companhia é clara: reduzir em 20% suas emissões absolutas dos escopos 1 e 2 até 2030, em relação ao ano base de 2020. Desde 2020, essa caminhada tem sido marcada por ações concretas — da ampliação da matriz elétrica renovável ao investimento em fornecedores de embalagens e ingredientes mais sustentáveis.
Outras práticas
No setor industrial, a Cimento Apodi também vem dando passos firmes rumo à descarbonização. A indústria de cimento é uma das que mais emitem CO₂ no mundo, mas a Apodi vem mostrando que é possível crescer reduzindo o impacto ambiental. “A indústria de cimento como um todo está comprometida em ajudar a solucionar os desafios climáticos, com metas ambiciosas visando a neutralidade de carbono”, destaca o CEO da empresa, Sérgio Maurício.
“Na Apodi, estamos dando passos significativos para a construção de um futuro mais sustentável, sem comprometer a qualidade e durabilidade do cimento. Entre as iniciativas estão o uso de materiais alternativos, o uso de tecnologias para reduzir a nossa pegada de carbono, melhoria na eficiência energética, desenvolvimento de novos tipos de cimento (com baixo carbono) e o uso de energia renovável, entre outras iniciativas”, explica.
O setor de turismo também tem mostrado que pode ser aliado do meio ambiente. No Beach Park, um dos principais destinos turísticos do Brasil, a sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial e passou a ser prioridade. Desde 2021, o grupo realiza o inventário de suas emissões de gases de efeito estufa. Em 2022, começou a compensar essas emissões com a compra de créditos de carbono do Projeto Envira Amazônia, que protege uma área de 39 mil hectares de floresta no Acre. O reconhecimento veio com o selo “Empresa Carbono Neutro”, concedido pela organização internacional Verra.
O compromisso seguiu firme nos anos seguintes. Em 2023 e 2024, o Beach Park passou a adotar 20 hectares da Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús, município cearense, ação que garantiu o selo “Protetor da Serra das Almas – categoria Onça Parda”, da Associação Caatinga. Já em 2025, o grupo celebrou a recertificação da ISO 14001, que garante padrões elevados de gestão ambiental. Para Raissa Bisol, gerente de Sustentabilidade do Beach Park, o turismo pode ser um agente de transformação.
“Entendemos que o turismo é uma ferramenta viva e transformadora para promover a mudança de comportamento através da experiência do visitante. Entretenimento e turismo só fazem sentido quando caminham em harmonia com a conservação ambiental. Compensar nossas emissões de carbono e investir em projetos de conservação reforçam nosso compromisso com um futuro mais sustentável, especialmente no território onde estamos inseridos e com o qual temos uma profunda conexão”, afirma.
Mercado de carbono abre caminho para novos negócios

No combate às mudanças climáticas, o mercado de carbono tem se firmado como uma das principais ferramentas de transição energética e incentivo às práticas sustentáveis. Com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), sancionado em dezembro de 2024, o Brasil entrou oficialmente no grupo de países que monetizam a redução de gases de efeito estufa (GEE), transformando carbono evitado em ativo financeiro.
Pelo novo sistema, empresas que emitem mais de 25 mil toneladas de CO₂ por ano deverão cumprir metas obrigatórias de redução. As que emitem entre 10 mil e 25 mil toneladas precisarão apenas reportar suas emissões. Os parâmetros poderão ser cumpridos por meio da aquisição de créditos de carbono – gerados por iniciativas que evitem ou removam emissões, como reflorestamento e uso de energias renováveis.
Um dos setores que mais desponta nesse contexto é o da energia solar, que já representa uma fonte limpa e sem emissões diretas. Segundo Cândido Henrique, estrategista em sustentabilidade e descarbonização industrial (Fiec/Senai-CE), o papel da fonte solar no SBCE é ajudar grandes emissores a reduzirem sua pegada de carbono, fornecendo energia limpa para suas operações.
“Dentro do sistema brasileiro de comércio de carbono, a energia solar vai contribuir para ajudar as demais empresas, que são grandes emissoras, a diminuírem a sua pegada através do fornecimento de energia renovável. Essa é a maior contribuição”, comenta.
No entanto, Candido ressalta que gerar créditos de carbono a partir de projetos solares envolve um desafio: a comprovação de “adicionalidade”, ou seja, demonstrar que determinada usina ou planta só foi viabilizada graças à receita obtida com a venda desses créditos. Mesmo que o projeto seja economicamente viável por seu porte ou volume de geração, isso não garante sua elegibilidade no mercado de carbono.
Com o avanço da indústria solar nos últimos anos, a redução de custos e a superação de barreiras tornaram os projetos solares tradicionais uma prática comum, o que dificulta sua qualificação como adicional. No mercado, entende-se que quanto menos barreiras à implementação, menor a chance de um projeto ser considerado adicional.
Isso significa que, mesmo que um projeto seja rentável, ele pode não ser aprovado após os testes técnicos realizados por auditores, validadores e verificadores especializados. A tendência no Brasil, segundo especialistas, é que novas tecnologias tenham maior chance de qualificação, enquanto os projetos solares convencionais enfrentam mais obstáculos para gerar créditos de carbono.
Outro critério decisivo é o licenciamento ambiental e a regularização fundiária.
“A legalização do terreno e o atendimento de todas as condicionantes ambientais são pontos-chave para desenvolver projetos aptos a gerar créditos de carbono”, complementa Cândido Henrique. A criação de um padrão brasileiro de certificação também deve reduzir custos e ampliar o acesso ao mercado. Atualmente, no mercado voluntário, grande parte das certificações são feitas por instituições internacionais, com auditorias em dólar e exigência de equipes altamente especializadas, o que inviabiliza pequenos e médios projetos.
“O SBCE prevê a criação de um padrão próprio de certificação. Tudo isso tende a reduzir o custo. Ao tropicalizar esse padrão, a tendência é viabilizar pequenas e médias empresas nesse mercado”, afirma Fabiano Machado, diretor da Apsis Carbon.
Mercado
A regulamentação também abre espaço para que o Brasil assuma um papel de destaque no mercado internacional de carbono. Na última COP29, em Baku, foram definidos pontos-chave do Artigo 6º do Acordo de Paris, que trata dos mecanismos globais de comércio de emissões. Os chamados acordos bilaterais entre países devem ganhar força, e o setor solar brasileiro pode sair na frente. “Essa é uma grande oportunidade para as empresas do setor solar, porque é esse setor um dos principais que vai viabilizar a redução das emissões dos outros setores. O Brasil tende a ser um fornecedor de créditos de carbono internacionalmente também”, avalia Marina Mattar, CEO da consultoria Perspectivas.






