Uma startup brasileira está tentando transformar um produto tradicional do extrativismo em um novo ingrediente da indústria global de alimentos. A proposta é levar o babaçu — fruto abundante em regiões do Norte e Nordeste — para além dos mercados locais, criando uma cadeia produtiva capaz de competir internacionalmente com insumos já consolidados, como amidos de milho, trigo e mandioca.
A iniciativa é liderada pela AmidoMato, que desenvolveu um processo para aproveitar o mesocarpo do babaçu — camada intermediária do fruto historicamente pouco utilizada comercialmente. A empresa quer transformar essa matéria-prima em farinha com aplicação industrial, destinada a segmentos como alimentos processados, panificação e formulações alimentícias.
Segundo a empresa, o diferencial está na combinação de atributos técnicos e ambientais: a farinha apresenta teor elevado de fibras, amido resistente, ausência de glúten e potencial para substituir ingredientes industriais em determinadas aplicações. Um dos desafios, porém, é justamente estruturar uma cadeia que ainda opera majoritariamente de forma artesanal e com baixa padronização.
A estratégia chamou atenção do mercado. A startup afirma já ter captado R$ 2 milhões em investimentos e conquistado como cliente inicial a multinacional Griffith foods, que realizou testes industriais utilizando a farinha de babaçu em formulações alimentícias. Nos testes, além do desempenho funcional, houve redução na necessidade de outros ingredientes da composição.
O plano agora é ampliar a produção e organizar etapas como coleta, rastreabilidade e padronização da matéria-prima para alcançar escala industrial. A meta divulgada pela empresa é atingir 500 toneladas anuais de farinha nos próximos dois anos, criando um modelo que conecte biodiversidade, indústria e geração de renda nas regiões produtoras.
Especialistas em bioeconomia apontam que projetos desse tipo ganham relevância em um momento em que cresce a demanda internacional por ingredientes sustentáveis e cadeias produtivas com menor impacto ambiental, colocando ativos da sociobiodiversidade brasileira no radar global.






