A ByteDance instalou a cobertura do primeiro dos 20 salões de dados do seu complexo no Ceará, marcando uma nova fase de investimentos chineses em infraestrutura digital no Brasil.
O projeto, apresentado à empresa no ano passado pela Omnia, transformou uma área de vegetação em estrutura de aço e concreto em menos de seis meses na zona de livre comércio cearense.
‘Aqui era tudo mato e vegetação rasteira’, afirmou Wellysson Costa, da Omnia, sobre a área antes da construção. As colunas de aço do complexo atingem 5,5 metros de altura.
O primeiro salão deve entrar em operação no fim de 2027, com capacidade computacional inicial de 200 megawatts. A ByteDance planeja expandir o complexo para 1 gigawatt.
Energia renovável atrai gigantes chinesas
O Brasil reúne atributos que atraem investimentos em centros de dados: quase 90% da eletricidade do país vem de energia renovável. ‘O Brasil reúne todos os atributos para se tornar um polo de centros de dados’, disse Rodrigo Borges, da Aurora Energy Research.
A projeção da Aurora indica que a capacidade instalada de centros de dados no Brasil pode quadruplicar até o início da década de 2030, chegando a quatro gigawatts.
O país tem atualmente mais de 100 centros de dados, enquanto os Estados Unidos operam quase 1.700 instalações.
A Alibaba planeja alugar espaço em complexo de centros de dados em São Paulo.
A Ascenty, que já tem 40 centros de dados em operação ou construção na América Latina, investe US$ 1,2 bilhão em novas instalações.
Plano chinês de US$ 295 bilhões
O governo chinês elaborou um plano de 2 trilhões de yuans (equivalente a US$ 295 bilhões) para criar uma rede de polos de computação no país.
A China importou quase US$ 100 bilhões em produtos brasileiros no ano passado.
O Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no exterior em 2025. ‘Os chineses estão dispostos a assumir certos riscos’, afirmou Eduardo Menossi, do Grupo EBM. ‘O americano é mais conservador’, completou.
Soberania digital em jogo
Cerca de dois terços dos dados do Brasil são processados no exterior, segundo Luis Fernandes, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. ‘Essa é nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital’, disse.
O país tem mais de 140 milhões de usuários de redes sociais e cerca de 90% do tráfego internacional de internet passa por 16 cabos submarinos que chegam à Praia do Futuro, em Fortaleza.
A infraestrutura atraiu centenas de startups para a capital cearense.
Durante a guerra no Irã, ataques de drones danificaram centros de dados da Amazon no Oriente Médio, evidenciando riscos geopolíticos da concentração de infraestrutura digital.
Tensões com comunidade local
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o investimento da ByteDance em dezembro passado, no Ceará. No mesmo mês, integrantes do povo Anacé bloquearam estradas na região.
Famílias Anacé foram removidas de terras ancestrais no início dos anos 1990 para a construção de um porto de águas profundas e parque industrial.
Na década de 2010, a estatal brasileira de petróleo planejou construir uma refinaria na zona de livre comércio do porto, deslocando outras famílias Anacé. O projeto foi abandonado.
Desde o anúncio do investimento, manifestações esporádicas dos Anacé ocorrem em frente ao canteiro de obras. A Omnia capacitou centenas de moradores da comunidade local.
Conversas com outras gigantes
A secretaria do Ceará mantém conversas com cerca de seis hiper escaladoras interessadas na região. Caetano Lima, da Ninna Hub, e Andrea Coelho acompanham as negociações.
O governo brasileiro adiou para dezembro um leilão para contratação de sistemas de armazenamento por baterias, medida que pode ampliar a capacidade de energia renovável disponível para novos centros de dados.
Fábio Feijó destacou que o Complexo Industrial e Portuário do Pecém oferece infraestrutura estratégica para atrair investimentos em tecnologia, posicionando o Ceará como hub digital do Hemisfério Sul.






