Os bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil chegam às reuniões da próxima semana diante de cenários diferentes para a inflação. Enquanto os dados americanos aumentaram a pressão por juros mais altos, a deflação registrada no Brasil reforçou a expectativa de um novo corte da Selic.
Nos Estados Unidos, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) subiu 0,4% em agosto, depois de avançar 0,1% em julho. Em 12 meses, a inflação permaneceu em 3,4%, acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve (Fed).
Além disso, o núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, avançou 0,3% no mês. Na comparação anual, porém, a taxa recuou para 2,4%. Segundo Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, os números mostram que a inflação americana ainda encontra resistência para convergir à meta.
Ao mesmo tempo, a inflação ao produtor aumentou a preocupação. O PPI avançou 0,4% em agosto e acumulou alta de 5,4% em 12 meses, maior ritmo de 2026. Já o núcleo do indicador subiu 0,2% no mês e 4,6% no ano.
Entre os principais destaques, o diesel disparou 24,1% no mês. Tarifas aéreas e serviços hospitalares também ficaram mais caros. Dessa forma, o aumento dos custos pode chegar aos preços pagos pelo consumidor nos próximos meses.
Atividade dos EUA aumenta pressão sobre o Fed
Além da inflação, os indicadores de atividade mostram que a economia americana continua aquecida. O ISM de serviços avançou de 54,1 pontos em julho para 55,4 em agosto. Ao mesmo tempo, o índice de preços pagos pelo setor chegou a 72,6 pontos, maior nível desde agosto de 2022.
Para Simioni, a combinação entre demanda resiliente e custos elevados aumenta o desafio do Fed. Isso porque uma atividade forte facilita o repasse de preços, principalmente no setor de serviços, que apresenta maior resistência à desaceleração.
Nesse cenário, o mercado passou a atribuir entre 70% e 73% de probabilidade a uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros americanos na reunião de 15 e 16 de setembro. Antes dos dados mais recentes de inflação, essa chance estava próxima de 60%.
Ainda assim, Simioni considera mais de um cenário para o encontro. O Fed pode manter os juros e adotar um discurso mais duro ou elevar a taxa em 0,25 ponto percentual. Além disso, novos choques de energia, fretes ou salários podem exigir uma política monetária restritiva por mais tempo.
IPCA abre espaço para novo corte da Selic
No Brasil, por outro lado, o IPCA caiu 0,32% em agosto e registrou a primeira deflação mensal em 12 meses. Com isso, a inflação acumulada em um ano desacelerou de 4,44% para 4,22%.
O resultado recebeu influência principalmente de Habitação, Transportes e Alimentação. Habitação recuou 1,87%, enquanto Transportes caiu 0,86% e Alimentação e bebidas registrou queda de 0,34%.
A energia elétrica residencial caiu 7,63%, principalmente por causa do Bônus de Itaipu. Além disso, os combustíveis recuaram 0,91%, com queda de 3,95% do etanol e de 0,59% da gasolina.
Apesar do resultado favorável, parte da queda da inflação veio de fatores temporários. Por isso, o Banco Central ainda deve acompanhar com atenção a inflação de serviços e o comportamento do mercado de trabalho.
A atividade econômica também mostra sinais de desaceleração. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, mas o consumo das famílias caiu 0,4%. Ao mesmo tempo, o PMI da indústria recuou para 46,3 pontos em agosto, indicando contração do setor.
Mercado vê corte de 0,25 ponto na Selic
Com a inflação em desaceleração e a atividade mais fraca, o mercado atribui cerca de 95% de probabilidade a um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião do Copom de 15 e 16 de setembro. Nesse cenário, a taxa básica cairia para 13,75% ao ano.
Ainda assim, Simioni avalia que o Banco Central deve manter cautela. Isso porque o efeito do Bônus de Itaipu é temporário, enquanto petróleo, alimentos e câmbio ainda podem pressionar os preços novamente.
Além disso, o mercado de trabalho continua aquecido. A taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, menor nível da série histórica, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas. Esse cenário pode sustentar o consumo e limitar a velocidade dos cortes de juros.
Na avaliação do economista, os dados atuais permitem um novo corte moderado da Selic, mas o Copom deve reforçar que os próximos passos dependerão da evolução da inflação e da atividade. A análise também considera a possibilidade de mais um corte de 0,25 ponto percentual posteriormente, o que levaria a taxa a 13,50% e poderia encerrar o atual ciclo de flexibilização monetária.






