A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode provocar uma nova onda de perdas na bolsa brasileira. Em relatório divulgado nesta segunda-feira (26), o BTG Pactual estima que o Ibovespa pode recuar 17%, chegando à região dos 170 mil pontos, diante das incertezas sobre a política fiscal do próximo mandato. O banco também projeta uma desvalorização de 10% a 15% do real, cenário que pode ampliar as perdas dos ativos brasileiros para investidores estrangeiros.
A avaliação ocorre após uma forte mudança no humor dos mercados. Nas semanas que antecederam o segundo turno, parte dos investidores apostava na vitória de Flávio Bolsonaro, do PL, expectativa que impulsionou as ações brasileiras e levou o Ibovespa a superar os 200 mil pontos. Com a reeleição de Lula, no domingo (25), o mercado passou a rever essas posições, pressionando a bolsa, o câmbio e os contratos de juros futuros.
Na sexta-feira (23), último pregão antes da votação, o Ibovespa encerrou o dia aos 205.082 pontos, enquanto o dólar fechou abaixo de R$ 5. Na segunda-feira, o índice chegou a registrar uma queda superior a 17% durante as negociações, enquanto a moeda norte-americana ultrapassou R$ 5,50 nos contratos futuros. A volatilidade levou a B3 a acionar mecanismos de interrupção das negociações.
Para o BTG Pactual, o movimento pode ir além de uma reação imediata ao resultado eleitoral. A principal preocupação está na trajetória das contas públicas, na condução da política econômica e na capacidade do governo de apresentar medidas que convençam os investidores sobre a sustentabilidade da dívida brasileira.
Juros altos podem ampliar a pressão sobre a bolsa
Um dos principais riscos apontados pelo banco é a possibilidade de os juros de longo prazo voltarem a subir de forma expressiva. Essas taxas influenciam o custo de financiamento das empresas e o valor que os investidores estão dispostos a pagar por suas ações.
O BTG estima que os juros reais de longo prazo, atualmente em torno de 6,7%, podem superar rapidamente 8% e permanecer elevados enquanto houver dúvidas sobre a política fiscal do próximo mandato. Juros reais representam o retorno dos investimentos descontada a inflação.
Caso esse cenário se confirme, empresas que dependem de crédito, possuem dívidas elevadas ou têm resultados mais sensíveis à atividade econômica podem enfrentar dificuldades adicionais. Isso ocorre porque taxas maiores encarecem financiamentos, reduzem o espaço para investimentos e diminuem o valor presente dos lucros esperados no futuro.
A perspectiva também pode limitar a redução da taxa básica de juros, a Selic, pelo Banco Central. O mercado projeta que a taxa termine 2027 em 12% ao ano, mas o BTG avalia que essa expectativa pode ser otimista caso as contas públicas se deteriorem e as expectativas de inflação se afastem das metas.
Embora a bolsa brasileira pareça relativamente barata em alguns indicadores, o banco ressalta que isso não impede novas quedas. Excluindo Petrobras e Vale, o Ibovespa negocia a aproximadamente 10,9 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses, um desconto de 8,4% em relação à média histórica. Para o BTG, porém, a elevação dos juros e a piora da percepção de risco podem pressionar as avaliações das empresas mesmo quando os preços já parecem descontados.
Quais ações podem resistir melhor à turbulência?
Diante da perspectiva de maior aversão ao risco, o BTG recomenda atenção a empresas com receitas em moeda estrangeira, balanços sólidos e negócios menos vulneráveis às oscilações da economia doméstica. A estratégia não significa que esses papéis estejam imunes a perdas, mas que algumas características podem oferecer proteção relativa em um cenário adverso.
Exportadoras podem se beneficiar do dólar mais caro. Empresas que recebem parte relevante de suas receitas em moeda estrangeira podem ter uma vantagem quando o real perde valor. Nesse grupo, o banco destaca ações de companhias ligadas a commodities, como Gerdau (GOAU4), Suzano (SUZB3), Vale (VALE3) e Prio (PRIO3).
No agronegócio, aparecem SLC Agrícola (SLCE3), 3Tentos (TTEN3) e São Martinho (SMTO3). Entre as empresas industriais com exposição ao mercado internacional, o BTG cita WEG (WEGE3) e Embraer (EMBJ3).
A lógica é que a conversão das receitas em dólares para reais pode favorecer os resultados dessas companhias. Entretanto, o efeito depende de fatores como custos de produção, despesas em moeda estrangeira, preços internacionais e condições específicas de cada negócio. Por isso, a valorização do dólar não garante que todas as exportadoras subam em um pregão de forte aversão ao risco.
Empresas defensivas e com balanços sólidos formam outro grupo apontado pelo banco. Entre as recomendações estão as seguradoras Caixa Seguridade (CXSE3) e Porto (PSSA3), além da fabricante de bebidas Ambev (ABEV3).
Companhias com baixa alavancagem e disponibilidade de caixa tendem a ter maior flexibilidade para atravessar períodos de crédito caro e desaceleração econômica. A estrutura financeira mais robusta pode reduzir a necessidade de recorrer ao mercado para refinanciar dívidas ou financiar operações.
Entre as grandes empresas da bolsa, o BTG também destaca Petrobras (PETR4) e Itaú Unibanco (ITUB4). A petroleira tem exposição ao dólar e ao preço internacional do petróleo, além de uma política de dividendos que pode atrair investidores. Ainda assim, o desempenho das ações depende também das cotações do petróleo, das decisões de investimento e da política de preços e distribuição de recursos da estatal.
O Itaú, por sua vez, é apontado pelo banco como uma alternativa entre os grandes bancos para enfrentar um ambiente de maior instabilidade. A avaliação considera a posição competitiva da instituição e sua capacidade de atravessar períodos econômicos mais difíceis, embora o setor financeiro também esteja sujeito aos efeitos da inadimplência, do crédito e da desaceleração da atividade.
O que observar antes de investir
Além dos setores favorecidos pelo câmbio, o BTG chama atenção para empresas com caixa líquido positivo, ou seja, que possuem mais recursos disponíveis do que dívidas. Entre os nomes citados em sua análise estão VTEX, XP Inc., Bradesco Saúde, Locaweb, Bemobi, Intelbras, Vivara, Totvs, Méliuz e Lojas Renner.
A situação financeira de cada companhia, porém, deve ser analisada em conjunto com suas perspectivas de crescimento, geração de caixa e avaliação de mercado. Uma empresa pouco endividada ainda pode sofrer quedas expressivas se os investidores reduzirem sua exposição à bolsa brasileira.
O cenário político também será determinante. A definição da equipe econômica e os primeiros sinais sobre a condução das contas públicas devem ajudar a indicar se a alta dos juros de longo prazo será temporária ou persistente. O Congresso eleito, por sua vez, terá papel importante nas negociações de medidas econômicas e fiscais.
A projeção de queda de 17% do Ibovespa representa um cenário estimado pelo BTG, e não uma certeza sobre o comportamento do mercado. As cotações podem mudar rapidamente conforme novas informações sejam divulgadas e os investidores reavaliem os riscos.
Para quem investe, a recomendação implícita nesse contexto é evitar decisões precipitadas motivadas apenas pela volatilidade do dia. Diversificação, análise dos fundamentos das empresas e atenção ao horizonte de investimento continuam sendo fatores importantes, especialmente em momentos nos quais as incertezas políticas e fiscais dominam as negociações.






