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A queda do mercado e o aumento das taxas de juros testam o crescimento dos negócios relacionados a centros de dados de IA

Carla Santiago por Carla Santiago
16 de outubro de 2026
em Investimentos
A queda do mercado e o aumento das taxas de juros testam o crescimento dos negócios relacionados a centros de dados de IA

SeongJoon Cho/Bloomberg

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A queda das ações de tecnologia e o aumento das taxas de juros estão colocando à prova a expansão dos negócios de centros de dados voltados à inteligência artificial (IA). O cenário tem levado investidores a reavaliar os riscos de empresas que dependem de grandes volumes de financiamento para construir instalações, adquirir chips avançados e ampliar a capacidade de processamento. Com o crédito mais caro e a pressão sobre os mercados financeiros, companhias do setor enfrentam cobranças crescentes para demonstrar que os investimentos bilionários poderão gerar retornos sustentáveis.

A preocupação ganhou força nesta semana, após uma onda de vendas atingir empresas ligadas à infraestrutura de inteligência artificial em Wall Street. Em 14 de outubro, as ações da CoreWeave recuaram cerca de 9,5%, enquanto as da Nebius caíram 15,1%. A Oracle, que também investe pesadamente em computação em nuvem e centros de dados, perdeu aproximadamente 7,2% na sessão. Operadoras como Applied Digital e IREN também registraram quedas expressivas.

O movimento foi impulsionado, entre outros fatores, pela divulgação de dados de inflação nos Estados Unidos acima das expectativas, que aumentaram as preocupações com a possibilidade de juros mais elevados. Taxas maiores encarecem empréstimos, elevam o custo de emissão de títulos e podem reduzir a rentabilidade de projetos que exigem investimentos antecipados de grande porte.

A pressão ocorre em um momento no qual empresas de tecnologia aceleram a construção de centros de dados para atender à crescente demanda por processamento de modelos de inteligência artificial. Essas instalações concentram milhares de chips especializados e exigem infraestrutura robusta de energia, refrigeração, armazenamento e conectividade. O custo elevado de implantação faz com que parte dos operadores dependa de financiamento externo para viabilizar seus planos de expansão.

Endividamento da CoreWeave acende alerta no mercado

Um dos principais exemplos da preocupação dos investidores é a CoreWeave, empresa especializada em alugar capacidade computacional baseada em processadores da Nvidia para companhias que desenvolvem e operam sistemas de inteligência artificial. Entre seus clientes estão grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e OpenAI.

A companhia ampliou rapidamente suas operações para aproveitar a procura por infraestrutura especializada, mas seu crescimento foi acompanhado por um aumento significativo do endividamento. Segundo informações compiladas pela LSEG e divulgadas pela Reuters em 15 de outubro, a CoreWeave acumulava aproximadamente US$ 50 bilhões em dívidas.

A empresa também elevou sua previsão de investimentos de capital para 2026, estimando despesas entre US$ 35 bilhões e US$ 39 bilhões. Ao mesmo tempo, analistas projetavam receita próxima de US$ 13 bilhões no ano e prejuízo anual de aproximadamente US$ 2,13 bilhões.

Esses números aumentaram a atenção sobre a capacidade da companhia de transformar contratos futuros em geração de caixa suficiente para cobrir despesas operacionais, juros e compromissos financeiros. Os rendimentos de alguns títulos de dívida da CoreWeave chegaram a aproximadamente 16%, refletindo a exigência de retornos maiores por parte dos investidores diante da percepção de risco.

A empresa, por sua vez, defende a sustentabilidade de seu modelo de negócios. O presidente-executivo, Mike Intrator, afirmou em uma comunicação interna que a carteira de contratos é suficiente para cobrir as obrigações financeiras. Ao final do segundo trimestre, a CoreWeave informava uma carteira de receitas contratadas de aproximadamente US$ 104,2 bilhões, além de novos compromissos anunciados posteriormente.

A Nvidia também mantém uma relação estratégica com a companhia e concordou em adquirir capacidade computacional não vendida da CoreWeave até abril de 2032. O acordo oferece uma proteção adicional à utilização da infraestrutura, mas não elimina os riscos associados ao endividamento, aos custos operacionais e à necessidade de investimentos contínuos.

Juros elevados ameaçam rentabilidade dos projetos

O aumento das taxas de juros representa um desafio particular para empresas que precisam investir grandes quantias antes de começar a receber receitas suficientes para recuperar o capital aplicado. A construção de um centro de dados pode envolver gastos com terrenos, edifícios, sistemas elétricos, refrigeração e equipamentos de alto desempenho, além de custos permanentes de manutenção.

Quando o financiamento fica mais caro, a empresa precisa gerar receitas maiores para alcançar o mesmo retorno financeiro. Em projetos com prazos longos de execução, a elevação dos juros também pode modificar a viabilidade econômica de contratos assinados anteriormente, principalmente quando os custos aumentam mais rapidamente do que os preços cobrados dos clientes.

Outro fator de risco é a rápida evolução dos semicondutores. Os chips utilizados para treinar e executar modelos de IA podem perder competitividade à medida que novas gerações chegam ao mercado. Isso cria a necessidade de atualizar equipamentos com frequência, ampliando as despesas de capital e aumentando a importância de uma gestão eficiente dos recursos.

O cenário também afeta as empresas que fornecem equipamentos para centros de dados. Fabricantes de servidores, sistemas de refrigeração e componentes de rede podem sentir os efeitos caso os operadores reduzam investimentos ou adiem projetos para preservar o caixa.

Empresas adiam captações e investidores ficam mais seletivos

A instabilidade dos mercados começou a afetar operações de captação de recursos e planos de abertura de capital relacionados à infraestrutura de inteligência artificial. Segundo reportagem da Reuters publicada em 15 de outubro, projetos ligados à AirTrunk, à Firmus e à SB Energy tiveram operações de listagem suspensas, adiadas ou retiradas diante das condições menos favoráveis do mercado.

O movimento indica que os investidores estão exigindo mais informações sobre a rentabilidade dos projetos antes de comprometer novos recursos. Empresas que anteriormente conseguiam captar dinheiro com base principalmente nas expectativas de crescimento da inteligência artificial agora precisam demonstrar contratos sólidos, capacidade de execução e perspectivas mais claras de geração de caixa.

Apesar das dificuldades no mercado de ações, as operações de fusões e aquisições envolvendo centros de dados na Ásia continuaram relevantes. Dados citados pela Reuters indicaram que essas transações movimentaram US$ 21,3 bilhões em 2026 até o período analisado, mais do que o dobro do registrado em 2025. O financiamento por dívida também permaneceu expressivo, mostrando que o capital não desapareceu, mas passou a exigir condições mais rigorosas.

Essa diferença sugere que os investidores continuam interessados no setor, embora estejam mais seletivos em relação aos riscos financeiros e operacionais. Empresas estabelecidas, com contratos de longo prazo e clientes de grande porte, podem ter vantagens sobre operadores menores que dependem de empréstimos mais caros e precisam ampliar rapidamente sua capacidade.

O boom da inteligência artificial continua, mas sob maior pressão

A correção nas ações não significa, necessariamente, uma redução imediata da demanda por inteligência artificial. Grandes empresas de tecnologia continuam investindo em modelos avançados, serviços de computação em nuvem e aplicações corporativas, enquanto a expansão dessas ferramentas mantém a necessidade de infraestrutura computacional.

O principal questionamento do mercado é se o ritmo dos investimentos poderá ser sustentado pelos resultados financeiros gerados. A construção de novos centros de dados exige compromissos de longo prazo, enquanto a demanda, os custos de energia e as condições de financiamento podem variar ao longo do tempo.

Para os próximos meses, investidores deverão acompanhar o endividamento das companhias, os custos de captação, a evolução das receitas contratadas e a capacidade de transformar investimentos em fluxo de caixa. Também será importante observar se as empresas conseguirão manter os cronogramas de expansão sem comprometer sua situação financeira.

A pressão sobre o setor representa, assim, uma fase de maior escrutínio para os negócios ligados à inteligência artificial. Em vez de avaliar apenas o potencial de crescimento da tecnologia, o mercado passa a exigir evidências mais concretas de rentabilidade. O resultado poderá ser uma expansão mais seletiva, com maior preferência por empresas financeiramente sólidas e projetos capazes de demonstrar retorno econômico em um ambiente de crédito mais caro.

Tags: Análise de Mercadoinvestimentosjuros

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