Brasília — O avanço acelerado das energias limpa e renovável no Brasil, especialmente solar e eólica, traz um paradoxo: o país quebrou recordes de geração verde, mas agora enfrenta perdas e desperdício porque não tem como armazenar toda essa energia produzida.
O fenômeno, que parecia improvável há poucos anos, tornou-se uma realidade estrutural em 2025. Levantamentos técnicos indicam que o Brasil chegou a desperdiçar cerca de 20% da energia renovável gerada, situação que resultou em prejuízos da ordem de R$ 6,5 bilhões por causa das chamadas “cortes forçados de geração”, conhecidos no setor como curtailment.
Por que isso está acontecendo?
Especialistas apontam que o modelo atual do Sistema Interligado Nacional (SIN) ainda foi desenhado para um passado de escassez, com uma arquitetura e sinalização econômica que não acompanham a expansão rápida de fontes como solar e eólica.
Nesse cenário, quando há excesso de geração — geralmente em horários de baixa demanda, como o meio-dia, quando o sol está no auge — a rede simplesmente não consegue absorver toda a energia. Como resultado, usinas solares e eólicas são obrigadas a reduzir a produção de forma forçada, levando a desperdício de eletricidade limpa.
A tecnologia que pode mudar esse jogo
A solução que vem ganhando destaque no Brasil e no mundo é o sistema de armazenamento de energia em larga escala, especialmente as chamadas BESS — Battery Energy Storage Systems (Sistemas de Armazenamento de Energia por Bateria). Essas tecnologias permitem que o excesso de energia seja estocado quando é produzido em abundância e liberado quando a demanda cresce.
Nos últimos meses, baterias de grande capacidade têm atraído atenção do mercado, reguladores e investidores — não só por evitar o desperdício, mas também por oferecer estabilidade ao sistema elétrico e reduzir a necessidade de fontes fósseis ou termoelétricas de última hora.
Além disso, projetos-piloto de microgrids híbridos que combinam geração solar com armazenamento em baterias têm mostrado como essa tecnologia pode ser viável fora de ambientes industriais. Um exemplo é o caso da maior micro-rede universitária da América Latina, lançada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que integra energia solar com um sistema de bateria de alta capacidade.
Desafios e perspectivas
Embora o potencial seja grande, a implementação ainda enfrenta obstáculos:
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regulação e precificação do uso de baterias que incentivem investidores;
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custos de instalação e operação que ainda são relevantes, apesar da queda de preços nos últimos anos;
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integração técnica com a rede existente e ajustes nos marcos setoriais para permitir que soluções de armazenamento possam ser remuneradas adequadamente.
Especialistas alertam que, sem um avanço rápido nessas tecnologias e nas políticas que as regulamentem, o Brasil pode continuar a perder parte de sua produção limpa — ironicamente, em um momento em que a transição energética global exige exatamente o contrário: aproveitamento e otimização da energia renovável






