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Brasil e Índia estão analisando a possibilidade de integrar o Pix ao UPI, com o objetivo de estabelecer uma rede de pagamentos instantâneos entre os dois países sem a necessidade de converter para dólar

Carla Santiago por Carla Santiago
17 de agosto de 2025
em Meu Dinheiro
Brasil e Índia estão analisando a possibilidade de integrar o Pix ao UPI, com o objetivo de estabelecer uma rede de pagamentos instantâneos entre os dois países sem a necessidade de converter para dólar

Fonte: Reprodução

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O avanço das moedas locais como alternativa ao dólar no comércio internacional acaba de ganhar mais um capítulo estratégico. Brasil e Índia, duas das maiores economias emergentes e membros do BRICS, discutem a possibilidade de interligar seus sistemas nacionais de pagamento instantâneo — o Pix, no caso brasileiro, e o Unified Payments Interface (UPI), no caso indiano — para permitir transações diretas entre os dois países sem conversão cambial para a moeda americana.

Criado em 2020 pelo Banco Central, o Pix revolucionou a forma como brasileiros transferem dinheiro, com mais de 160 milhões de usuários e bilhões de transações por mês.

Já o UPI, lançado na Índia em 2016, é considerado um dos sistemas de pagamento instantâneo mais avançados do mundo, movimentando volumes diários que superam o PIB de muitos países. Ambos são gratuitos para usuários finais e permitem transferências em segundos, 24 horas por dia.

A ideia em estudo é permitir que um usuário no Brasil envie valores em reais para a Índia e o recebedor receba automaticamente em rúpias indianas, e vice-versa, utilizando taxas de câmbio pré-definidas ou negociadas em plataformas conjuntas. Esse processo dispensaria a conversão para dólar, que hoje é intermediária na maioria das operações internacionais, encurtando o caminho e reduzindo tarifas bancárias.

Conversas em nível oficial sobre a integração entre PIX e UPI

O tema foi discutido durante encontros recentes entre autoridades financeiras dos dois países e ganhou destaque em reuniões multilaterais do BRICS, que já tratam de formas de aumentar o uso das moedas nacionais nos fluxos comerciais.

Embora ainda não haja um cronograma fechado para a implementação, fontes diplomáticas confirmam que o projeto tem apoio político e técnico para avançar.

A integração Pix–UPI poderia ser lançada inicialmente em caráter piloto, voltada para transações de pequeno e médio porte, como remessas de familiares, pagamentos de serviços e compras online.

Em um segundo momento, poderia atender empresas exportadoras e importadoras, permitindo liquidações mais rápidas e baratas.

Impacto para o comércio Brasil–Índia

O comércio bilateral entre os dois países cresceu nos últimos anos, movimentando cerca de US$ 15 bilhões anuais, segundo dados oficiais. A Índia compra do Brasil produtos como petróleo bruto, óleo de soja e açúcar, enquanto exporta para cá medicamentos, fertilizantes e bens industriais.

Com um sistema de pagamento integrado, esses fluxos poderiam ganhar mais agilidade e previsibilidade, atraindo novas empresas para a rota Brasil–Índia.

Especialistas em finanças internacionais avaliam que a adoção de pagamentos instantâneos transfronteiriços em moedas locais não apenas reduz custos, mas também diminui a exposição cambial e aumenta a autonomia financeira dos países envolvidos.

No entanto, destacam que é necessário criar mecanismos robustos de segurança, compliance e prevenção à lavagem de dinheiro para garantir a confiabilidade do sistema.

O papel do BRICS e a disputa com o dólar

A proposta se insere em um contexto mais amplo de esforços do BRICS para diversificar os meios de pagamento e reduzir a dependência do dólar. Desde 2023, o bloco tem discutido alternativas como moedas digitais de bancos centrais, plataformas de liquidação próprias e acordos de swap cambial. A integração Pix–UPI, embora bilateral, serviria como prova de conceito para iniciativas semelhantes entre outros membros.

Para os Estados Unidos, que veem o dólar como pilar de sua influência econômica, movimentos como esse representam um desafio estratégico. Embora não ameacem a moeda americana no curto prazo, podem sinalizar a formação de redes paralelas de liquidação comercial.

A compatibilidade tecnológica entre o Pix e o UPI não é um problema insuperável — ambos são sistemas modernos, escaláveis e com APIs abertas para integração.

O maior desafio será harmonizar regulamentações e definir um modelo de câmbio transparente e estável, que evite distorções ou arbitragem. Outro ponto sensível é a governança: decidir quem será responsável pela operação, segurança e auditoria do sistema conjunto.

Ainda que o impacto inicial seja modesto, a integração Pix–UPI teria um peso simbólico significativo. Mostraria que é possível implementar soluções práticas para a desdolarização sem esperar por um consenso global ou por mudanças estruturais no sistema financeiro internacional. Seria também uma demonstração de como tecnologia e diplomacia econômica podem andar juntas para fortalecer a autonomia dos países emergentes.

 

Tags: dinheiro

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