Em um cenário marcado por juros elevados, incertezas fiscais e transformações na economia global, o empresário não consegue controlar todas as variáveis que afetam o próprio negócio. Mas, segundo Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, é possível preparar a empresa para enfrentar um ambiente mais desafiador por meio de uma gestão mais disciplinada, controle de riscos e atenção à estrutura financeira.
A recomendação foi apresentada pelo executivo durante o Tax Revolution, evento promovido pelo Mercado & Opinião. Para Sallouti, a principal preocupação dos empreendedores não deve ser tentar prever ou modificar fatores que estão fora de seu alcance, como a taxa de juros, conflitos geopolíticos ou o ritmo de crescimento da economia.
A estratégia, segundo ele, é concentrar os esforços naquilo que a empresa efetivamente consegue controlar. Isso envolve decisões de investimento, gestão do risco de crédito, exposição aos riscos de mercado e uma compreensão mais clara dos efeitos que o cenário econômico pode provocar sobre o negócio.
“Tem coisa que a gente controla e coisa que a gente não controla”, afirmou o CEO do BTG. A lógica, segundo Sallouti, é que as empresas precisam conhecer o ambiente em que estão inseridas, mas sem deixar que a imprevisibilidade externa paralise as decisões de gestão.
A orientação ganha relevância em um momento em que os juros continuam sendo um dos principais desafios para empresas brasileiras. Taxas elevadas aumentam o custo do crédito, pressionam o capital de giro e podem reduzir o consumo e os investimentos. Para o empreendedor, porém, esperar que o cenário macroeconômico melhore antes de organizar o negócio pode representar um risco.
Sallouti recomenda que as empresas trabalhem considerando a possibilidade de manutenção de juros elevados e de uma economia com menor ritmo de crescimento. A ideia é preparar o planejamento financeiro para um cenário mais difícil do que o esperado. Se as condições econômicas melhorarem, a companhia estará em uma posição mais favorável. Se o cenário adverso se confirmar, a empresa terá maior capacidade de atravessar o período.
Na prática, isso significa dar atenção à estrutura de capital e evitar níveis excessivos de endividamento. Empresas com dívidas elevadas ficam mais vulneráveis quando o custo do dinheiro aumenta, especialmente quando dependem de crédito de curto prazo ou precisam refinanciar obrigações em condições menos favoráveis.
A disciplina financeira, portanto, aparece como um dos principais instrumentos de proteção. O acompanhamento do fluxo de caixa, o controle das despesas e uma avaliação cuidadosa dos investimentos podem ajudar a reduzir a exposição a choques econômicos.
A recomendação do executivo também está relacionada à gestão de riscos. Para Sallouti, as empresas precisam entender os diferentes cenários que podem afetar suas operações e evitar a construção de estratégias baseadas exclusivamente em previsões otimistas.
Outro ponto destacado pelo CEO do BTG é a transformação do ambiente global. Na avaliação do executivo, a economia mundial passa por mudanças estruturais que devem ser consideradas no planejamento empresarial. Entre elas estão a reorganização geopolítica, a fragmentação das cadeias globais de produção e o aumento das disputas comerciais.
O período de maior integração econômica e de juros próximos de zero nas principais economias desenvolvidas ficou para trás, segundo Sallouti. O novo ambiente tende a apresentar maior volatilidade e custos financeiros mais elevados, exigindo das empresas maior capacidade de adaptação.
As mudanças climáticas também foram apontadas como um fator estrutural para os negócios. Eventos como secas, enchentes e alterações nos padrões climáticos podem afetar cadeias de produção, logística, seguros e custos operacionais. Para o executivo, essas mudanças precisam ser incorporadas aos modelos de gestão de risco.
A transformação da China em uma potência tecnológica e industrial é outro elemento que, na visão de Sallouti, está modificando a competição global. O país deixou de atuar apenas como fornecedor de mão de obra e produtos de menor valor agregado e passou a disputar mercados em setores estratégicos, como tecnologia, energia, aço e petroquímica.
A inteligência artificial completa o grupo de grandes transformações citadas pelo executivo. Sallouti avalia que a tecnologia pode provocar mudanças profundas na produtividade e na eficiência das empresas. No BTG, segundo ele, a discussão sobre inteligência artificial passou a envolver não apenas as áreas que utilizam a tecnologia, mas também aquelas que ainda não incorporaram essas ferramentas às suas atividades.
Para os empreendedores, a adoção da tecnologia pode representar uma oportunidade para melhorar processos, reduzir custos e ampliar a capacidade de análise. O desafio é acompanhar as transformações sem comprometer a disciplina financeira e a gestão dos riscos.
No cenário brasileiro, Sallouti apontou três desafios estruturais para o crescimento econômico: juros, segurança e produtividade. A redução sustentável do custo do dinheiro, na avaliação do executivo, depende de maior disciplina fiscal e de uma trajetória mais equilibrada para as contas públicas.
Já a segurança envolve diferentes dimensões, incluindo a segurança pública, jurídica e tributária. Para as empresas, a previsibilidade das regras, o cumprimento de contratos e a estabilidade do ambiente regulatório são fatores importantes para a tomada de decisões e para a realização de investimentos de longo prazo.
A produtividade, por sua vez, depende de mudanças mais amplas, como investimentos em infraestrutura, simplificação burocrática e avanços na educação. São desafios que não podem ser resolvidos individualmente por uma empresa, mas que fazem parte do ambiente em que os negócios precisam operar.
Diante desse cenário, a principal mensagem de Sallouti aos empreendedores é concentrar a atenção no que está ao alcance da gestão. Fortalecer o balanço, controlar o endividamento, preservar o fluxo de caixa, administrar riscos e se preparar para cenários adversos são medidas que podem aumentar a capacidade de sobrevivência e adaptação da empresa.
A estratégia não elimina os efeitos dos juros altos ou das incertezas econômicas, mas pode reduzir a vulnerabilidade do negócio. Para o CEO do BTG, empresas que conseguirem atravessar períodos de maior dificuldade com estruturas financeiras mais sólidas estarão em melhores condições para aproveitar as oportunidades quando o ambiente econômico voltar a melhorar.






