A expansão da inteligência artificial começa a pressionar um componente pouco conhecido, mas essencial para o funcionamento de servidores e data centers. Os capacitores cerâmicos multicamadas, chamados de MLCCs, podem se tornar um novo gargalo para a infraestrutura de IA nos próximos anos.
Segundo relatório da Global X divulgado em setembro, a demanda por esses componentes pode crescer 4,3 vezes entre 2025 e 2030, com base em estimativa do Goldman Sachs Research. No entanto, a capacidade global de produção deve avançar entre 10% e 15% ao ano no mesmo período.
Os MLCCs armazenam e liberam carga elétrica em frações de segundo. Além disso, ajudam a estabilizar a tensão e a filtrar ruídos nos circuitos. Embora tenham baixo custo individual, aparecem em grande quantidade nos equipamentos eletrônicos.
“Para quem investe em empresas ligadas à inteligência artificial, acompanhar esses componentes ajuda a entender riscos que podem não estar refletidos imediatamente nos resultados ou nas expectativas para o setor”, afirma Flávio Vegas, especialista de Produtos da Global X ETFs Brasil.
Segundo ele, uma restrição em uma etapa menos conhecida da cadeia pode afetar o ritmo de expansão de empresas ligadas a chips, computação em nuvem e data centers.
Servidores de IA ampliam consumo de capacitores
O avanço dos servidores de inteligência artificial aumentou de forma significativa o consumo de energia e, consequentemente, a necessidade de componentes capazes de estabilizar o sistema.
Um rack Nvidia GB300 NVL72, por exemplo, consome cerca de 142 quilowatts, aproximadamente 16 vezes mais do que um rack de servidor convencional, segundo dados do Uptime Institute reunidos no relatório.
Além disso, as placas de computação para IA enfrentam variações de carga milhares de vezes por segundo. Como a fonte de alimentação principal não consegue responder na mesma velocidade, os fabricantes instalam grandes conjuntos de MLCCs próximos aos chips.
Com isso, a quantidade de capacitores por equipamento cresce rapidamente. Uma placa de computação tradicional utiliza cerca de 2.500 unidades. Na arquitetura Nvidia GB200, esse número sobe para aproximadamente 6.500. Já na arquitetura Vera Rubin, pode chegar a 12 mil, segundo estimativas da consultoria Aetrix.
Quando se considera todo o sistema, incluindo placas de rede, armazenamento, refrigeração e distribuição de energia, um rack GB200 NVL72 pode reunir entre 300 mil e 400 mil MLCCs. Nas próximas gerações, esse volume pode alcançar 600 mil unidades.
“O mercado passou os últimos anos concentrado na camada mais visível da inteligência artificial, representada pelos processadores. Agora, a discussão começa a avançar para os componentes que permitem que esses sistemas operem de forma estável”, afirma Vegas.
Mercado pode superar US$ 30 bilhões até 2030
O relatório estima que o mercado global de MLCCs pode sair de US$ 15 bilhões em 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2030. Ao fim desse período, inteligência artificial e data centers podem representar cerca de 30% das receitas do setor.
Embora o mercado tenha valor inferior ao de semicondutores, uma eventual falta de componentes pode afetar equipamentos de alto valor. Dessa forma, a ausência de peças qualificadas pode limitar a produção ou atrasar entregas destinadas aos data centers.
Além da inteligência artificial, a eletrificação também aumenta a demanda. Um veículo elétrico pode utilizar entre 20 mil e 30 mil MLCCs em sistemas como bateria, sensores, câmeras, powertrain e unidades de controle eletrônico.






