Nos últimos dias, a escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã não se limitou ao campo militar. Pelo contrário, a tensão geopolítica rapidamente se espalhou pelos mercados e já deixou impactos visíveis no universo das criptomoedas.
Logo após os ataques, a maior corretora de cripto do país, a Nobitex, registrou um aumento de 700% nos saques. Segundo a empresa de análise Blockchain Elliptic, isso significou quase US$ 3 milhões em retiradas em apenas um dia.
Esse movimento intenso reflete o pânico de muitos investidores iranianos diante da incerteza geopolítica e levanta a pergunta: como ficam as criptos em meio a tensões tão profundas?
Como o conflito impacta o mercado de criptos?
Para Márcio Souza, CTO da TCR Finance, a escalada do conflito transforma as criptomoedas em um “termômetro de pânico global”. Ele explica que, quando bolsas tradicionais estão fechadas nos fins de semana ou à noite, o Bitcoin e as altcoins absorvem primeiro os efeitos de qualquer choque externo.
Assim, muitos investidores entram em flight to liquidity, vendendo ativos de maior risco para preservar capital, o que gerou quedas acentuadas no preço do principal criptoativo.
“Investidores vendem ativos mais voláteis para zerar riscos, o que gera quedas agudas, como a retração que levou o Bitcoin para a casa dos US$ 63.000~64.000 neste final de semana assim que os ataques ocorreram”, explica.
Por outro lado, Flor Ayala, CEO da Ever Value, lembra que essa aversão ao risco no início pode esconder efeitos mais profundos. Segundo ela, se o conflito afetar fatores como custo de energia, crucial para a mineração de Bitcoin, alguns mineradores menos eficientes podem ser forçados a sair do mercado.
“Nesse contexto de crescente tensão geopolítica entre Estados Unidos e Irã, o mercado volta a direcionar o foco para ativos alternativos como o Bitcoin. Para além do componente político do conflito, esse tipo de episódio historicamente reabre o debate sobre proteção, liquidez global e resiliência financeira”, afirma.
Como os ataques podem influenciar o preço do Bitcoin?
Os ataques influenciam o preço do Bitcoin ao ativarem uma espécie de “limpeza” de alavancagem no mercado. Segundo Márcio Souza, a queda inicial não acontece apenas porque investidores deixam de acreditar no ativo.
“O mercado de derivativos em cripto é extremamente alavancado. Quando surge um evento geopolítico como esse, o varejo vende por medo. Esse movimento derruba o preço alguns pontos percentuais e, em seguida, dispara liquidações em cascata de posições compradas”, ressalta.
Ou seja, a pressão não vem só da venda direta, mas também das liquidações automáticas. No entanto, depois que essa alavancagem excessiva sai do sistema, o mercado tende a encontrar um piso.
Já Flor Ayala avalia que o impacto depende da dimensão do conflito e da resposta macroeconômica global. “Se os ataques gerarem apenas uma incerteza pontual, o Bitcoin reage com volatilidade no curto prazo. Mas, se houver pressão persistente sobre o petróleo, inflação ou mudanças nas políticas monetárias, o mercado pode reforçar a narrativa do Bitcoin como ativo escasso”, diz.
Além disso, ela destaca o papel da mineração nesse contexto. Quando aumentam os custos de energia ou há incerteza no setor, investidores passam a observar com mais atenção o chamado “piso econômico” do BTC, que está ligado ao custo de produção.
“Nós acompanhamos essas métricas de forma contínua e mantemos uma estratégia de longo prazo, independentemente das oscilações conjunturais”, conclui.
Qual é o próximo passo para o Bitcoin?
O próximo movimento do Bitcoin depende diretamente da intensidade do conflito. Para Márcio, o mercado observa se a tensão ficará restrita a ataques pontuais ou se evoluirá para um confronto mais amplo.
“Se a poeira baixar sem fechamento do Estreito de Ormuz ou sem um envolvimento militar maior, o foco volta rapidamente para a política monetária dos Estados Unidos e para os possíveis cortes de juros do Fed”, afirma.
Nesse cenário, a liquidez global retoma o protagonismo. Do ponto de vista técnico, ele destaca que o comportamento do preço nas próximas semanas será decisivo. “Se o Bitcoin sustentar a região de suporte entre US$ 60 mil e US$ 64 mil e concluir essa limpeza de alavancagem, pode construir base para tentar novamente os US$ 70 mil”, explica.
Flor avalia que o ativo segue sensível ao cenário macro, mas mantém fundamentos sólidos. “Hoje vemos o Bitcoin muito dependente do contexto global, porém a rede permanece resiliente e cada vez mais profissionalizada do ponto de vista da mineração”, ressalta.
Ela também destaca que a tese de reserva de valor ganha espaço de forma gradual. “Enquanto os fluxos estruturais permanecerem firmes, as correções provocadas por eventos geopolíticos tendem a se comportar mais como ruído do que como mudança de tendência”, conclui.
Bitcoin ganha força como reserva de valor?
O aumento da tensão no Oriente Médio reacende um debate antigo no mercado: o Bitcoin já atua como reserva de valor, como o ouro, ou ainda se comporta como ativo de risco?
Para Márcio Souza, o cenário mostra uma dualidade. “No minuto 1 do pânico, o Bitcoin age como um ativo de risco extremo. Ele cai junto com a bolsa, às vezes até mais, enquanto o ouro sobe como refúgio tradicional”, afirma.
Segundo ele, nesse primeiro momento, o mercado adota postura defensiva e liquida posições em cripto.
No entanto, o comportamento muda no médio e longo prazo. “Quando a guerra se prolonga, os governos aumentam gastos, elevam o endividamento e ampliam a emissão de moeda. É nesse contexto que a tese do Bitcoin como reserva de valor e ‘ouro digital’ ganha força”, explica. Para ele, o ativo funciona como proteção contra desvalorização cambial e inflação sistêmica.
Flor Ayala avalia que o mercado vive uma fase de transição. “Em episódios de pânico extremo, o capital institucional ainda corre primeiro para caixa e ouro. Essa continua sendo a dinâmica dominante”, diz.
Porém, segundo ela, o Bitcoin vem conquistando espaço gradualmente. “A cada ciclo, o ativo demonstra maior resiliência e ganha legitimidade dentro da alocação macro.”
Qual é a principal lição para o investidor em meio à tensão geopolítica?
Diante de um cenário de guerra e incerteza, a principal orientação é: controle o risco e evite excesso de alavancagem.
De acordo com Márcio, muitas perdas não acontecem porque a tese de longo prazo estava errada, mas porque o investidor assumiu risco excessivo em um momento de alta incerteza.
“Muitas carteiras são dizimadas não porque o plano estava errado, mas porque o investidor tentou alavancar no meio de um campo minado global”, afirma. Por isso, ele reforça que, em períodos de tensão, preservar capital é prioridade. “Nesses momentos, sobreviver é o melhor trade. Reduza a exposição e foque nos fundamentos de longo prazo da tecnologia”, aconselha.
Flor também chama atenção para um ponto estrutural que vai além do ruído de curto prazo. “Apesar da volatilidade causada por eventos geopolíticos, o mercado entra em uma fase em que a infraestrutura cripto, especialmente o Bitcoin, ganha relevância estrutural”, destaca.
Na visão dela, o debate já não gira apenas em torno da oscilação diária de preços. “Estamos em um processo de transição no qual o Bitcoin e todo o ecossistema ao redor passam a ocupar espaço maior na conversa financeira global”, conclui.






