A inteligência artificial (IA) começa a transformar o mercado internacional de combustíveis, tradicionalmente dominado por grandes empresas e operadores experientes. Segundo análise de Clyde Russell, colunista da Reuters especializada em commodities, a tecnologia poderá ampliar o acesso às informações e modificar a maneira como diesel, gasolina e outros derivados de petróleo são negociados.
O avanço ocorre em um momento de forte pressão sobre o setor energético. O conflito envolvendo o Irã provocou restrições no abastecimento internacional, elevou os preços dos combustíveis e ampliou a necessidade de decisões rápidas por parte das empresas que atuam nesse mercado.
Diferentemente do petróleo bruto, cujo comércio possui práticas consolidadas e uma ampla variedade de participantes, o mercado de combustíveis refinados permanece concentrado em um grupo relativamente pequeno de operadores. Na Ásia, maior região consumidora desses produtos, grandes companhias como Trafigura e Vitol desempenham um papel importante nas negociações internacionais.
Inteligência artificial pode transformar negociações de combustíveis
A utilização de ferramentas de inteligência artificial promete modificar essa estrutura ao permitir que empresas analisem grandes volumes de informações em poucos segundos.
Esses sistemas podem reunir dados sobre preços, estoques, transporte marítimo, oferta e demanda, além de notícias e acontecimentos geopolíticos. Combinadas ao conhecimento de analistas especializados, as informações podem ser utilizadas para identificar oportunidades comerciais e avaliar diferentes estratégias de negociação.
Uma das empresas que investem nessa transformação é a Sparta Commodities, sediada em Genebra, na Suíça. A companhia desenvolveu o Leonidas AI, uma ferramenta de apoio à tomada de decisões voltada ao mercado de commodities.
Lançado em setembro, o sistema utiliza informações próprias da Sparta e de outros fornecedores, além de notícias e análises especializadas, para elaborar recomendações adaptadas às necessidades dos operadores.
Nova ferramenta identifica oportunidades em segundos
Durante uma demonstração apresentada à Reuters, o Leonidas AI foi utilizado para analisar os possíveis efeitos de uma eventual proibição das exportações de diesel pelos Estados Unidos.
A ferramenta avaliou as consequências da medida sobre diferentes mercados, apresentou cenários para os preços e sugeriu cinco operações comerciais, organizadas de acordo com o nível de confiança atribuído pelo sistema.
As recomendações envolveram mercados de diferentes países e incluíram até mesmo uma operação relacionada ao transporte marítimo.
Todo o processo levou apenas alguns segundos. Segundo Russell, análises semelhantes normalmente exigiriam um período consideravelmente maior de profissionais experientes, especialmente diante da quantidade de informações necessárias para avaliar os efeitos de uma mudança no comércio internacional.
Apesar da velocidade, as recomendações produzidas pela inteligência artificial não garantem resultados financeiros. Sua eficácia depende da qualidade dos dados utilizados, da precisão dos modelos e da capacidade dos operadores de interpretar os cenários apresentados.
Empresas tradicionais terão de se adaptar
A adoção da inteligência artificial foi um dos principais assuntos discutidos durante a Conferência de Petróleo da Ásia-Pacífico (APPEC), realizada em setembro, em Singapura.
Embora o conflito no Oriente Médio e a recuperação do fornecimento de petróleo tenham dominado as discussões, executivos também debateram o potencial da IA para transformar a coleta de informações, as análises de mercado, a logística marítima e a administração de estoques.
Segundo Russell, o setor demonstra uma disposição crescente para incorporar essas ferramentas às operações. A expectativa é de que a tecnologia desempenhe um papel cada vez mais relevante nas decisões comerciais, reduzindo o tempo necessário para identificar mudanças na oferta e na demanda.
O movimento apresenta semelhanças com a expansão dos sistemas de rastreamento de navios e cargas, que começaram a ganhar espaço há aproximadamente 15 anos. Atualmente, serviços oferecidos por empresas como Vortexa e London Stock Exchange Group são amplamente utilizados pelos participantes do mercado de commodities.
Acesso à informação pode deixar de ser o principal diferencial
A inteligência artificial também poderá modificar a concorrência entre grandes empresas e operadores de menor porte.
Historicamente, as companhias com maior acesso a informações especializadas possuíam vantagens importantes nas negociações de combustíveis. Com o desenvolvimento de ferramentas capazes de reunir e interpretar esses dados, empresas menores poderão ter acesso a análises que antes dependiam de equipes numerosas e investimentos elevados.
Para Felipe Elink Schuurman, diretor-presidente da Sparta Commodities, a vantagem competitiva do setor tende a mudar. Se anteriormente as empresas mais bem posicionadas eram aquelas que possuíam a maior quantidade de informações, a capacidade de transformar dados em decisões comerciais rapidamente poderá se tornar o principal diferencial.
A transformação, entretanto, não elimina a importância dos profissionais experientes. O conhecimento sobre contratos, infraestrutura, riscos geopolíticos e características dos mercados regionais continuará sendo necessário para avaliar as recomendações produzidas pelos sistemas automatizados.
A análise de Russell indica que a inteligência artificial poderá tornar o comércio internacional de combustíveis mais acessível e competitivo. Ao mesmo tempo, grandes operadoras terão de adaptar suas estratégias para acompanhar um mercado no qual a velocidade de interpretação das informações poderá ser tão importante quanto o acesso aos dados.





