É guerra! Ninguém duvida mais que EUA e China estão em guerra tarifária ampla e franca. Os mercados globais, apreensivos, monitoram e reagem a cada passo dado no front comercial. Ontem, não foi diferente: o Ibovespa acabou perdendo 1,32%, aos 123.931,89 pontos, uma queda de 1.656,20 pontos – já são mais de 7 mil pontos perdidos nos últimos quatro pregões.
O dólar comercial também não se comportou bem diante do real: alta de 1,46%, a R$ 5,997, mas na máxima chegou a passar de R$ 6. Os DIs (juros futuros) subiram por toda a curva. Tempos sombrios.
Dia começou bem, mas novas tarifas vieram
Apesar do quadro final, tudo começou bem. O Ibovespa chegou a apresentar alta de mais de 1%. Os mercados asiáticos fecharam mistos, com Tailândia e Indonésia com fortes baixas, mas com Tóquio, China e Austrália com altas consistentes. Na Europa, altas de mais de 2%.
Mas todos esses mercados encerraram suas atividades antes do acontecimento do dia: os EUA colocaram em vigor a nova tarifa contra a China de 104%, para entrar em vigor nesta quarta-feira (9). “Trump acredita que a China deseja negociar, e precisa negociar com os EUA, e que eles erraram ao retaliar”, afirmou a secretária de imprensa Karoline Leavitt.
O recado do governo Trump parece ser um aceno ao mundo que ainda não entrou em negociação direta. Os americanos engatilharam as armas possíveis e dizem que não haverá isenções no curto prazo. A Coreia do Sul não vai retaliar. Vai negociar. A União Europeia só responderá semana que vem. Lula defende que Brasil mantenha o equilíbrio.
Os efeitos, para além dos mercados de ações, começam a ser sentidos. Nas trincheiras do varejo, os comerciantes de roupas dos EUA atrasam pedidos e congelam contratações por tarifaço. Consumidores dos EUA emulam apocalipse e estocam alimentos antes de tarifas. Com tudo isso, governo Trump considera ajustar plano de taxas portuárias para navios chineses após reação
Bolsas em NY caem
No final das contas, os principais índices em Nova York, que chegaram a subir mais de 3% antes da retaliação norte-americana à retaliação chinesa, tombaram como soldados vencidos na terra de ninguém. E o Ibovespa foi pelo mesmo caminho.
Nem mesmo os soldados do mercado financeiro apaziguando o momento adiantou: “é muito cedo para entender o que está acontecendo, tanto nos EUA quanto no mundo. Você tem movimentos de placas tectônicas”, afirmou André Lion, gestor de ações da Ibiuna Investimentos, em um fórum de investimentos realizados pelo Bradesco BBI.
“Por enquanto, o Brasil está relativamente melhor posicionado. Nós somos uma economia mais fechada, globalmente, caímos no ‘bracket’ mais baixo de tarifas, então, relativamente, a gente está melhor”, complementou.
Vale tomba 5%; Petrobras cai 3%
No campo de batalha dos negócios, não teve jeito. Foi uma carnificina. Mais uma desde que os EUA abriram guerra contra o mundo. A Vale (VALE3) foi um exemplo claro dessa batalha perdida: caiu hoje amplos 5,48%. A Petrobras (PETR4) derramou sangue em 3,56%, com petróleo internacional mais uma vez sendo abatido.
Os grandes bancos ficaram entrincheirados, sem ação: BB (BBAS3) viu cair 0,18% das suas ações, enquanto Bradesco (BBDC4) morreu com menos 2,75% e Santander (SANB11) sangrou 1,51%. Só Itaú Unibanco (ITUB4), ferido, subiu, com meros 0,03%.
No varejo, quase ninguém escapou ileso, mas o destaque mais gravoso foi de Magazine Luiza (MGLU3) com baixa de 13,41%, com corte de recomendação por parte de um grande banco, o que agravou os ferimentos. Os supermercadistas tombaram todos, especialmente Assaí (ASAI3), um dos mais negociados do dia, com menos 4,24%.
Quem escapou ileso, desviando das balas da incerteza e do mau humor, foi Embraer (EMBR3), que subiu 0,82%, com a empresa avisando que tarifaço de Trump não mexe com as estimativas da companhia para 2025. E ainda escaparam BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3), com respectivamente mais 0,95% e mais 2,58%, com novas análises dos nomes por um grande banco.
A guerra deve continuar nesta quarta-feira. Se haverá banho de sangue novamente, é difícil dizer, dada a volatilidade vista nos últimos dias. Mas os investidores têm outras frentes de batalha para encarar: no Brasil, saem dados do varejo em fevereiro; nos EUA, tem a Ata da última reunião do Federal Reserve. Quem viver, verá. (Fernando Augusto Lopes)






