Não importa o quanto de história uma empresa carrega, inovar sempre será preciso para garantir a perenidade e sustentabilidade de um negócio. E os empresários e gestores sabem disso, mas nem todos estão prontos para dar o primeiro passo. Segundo um estudo feito pelo Boston Consulting Group (BCG) com mais de 1 mil empresários em todo o mundo, obtido com exclusividade por Época NEGÓCIOS, 83% das empresas veem a inovação como uma prioridade, mas apenas 3% delas estão prontas para isso.
O resultado chama ainda mais atenção quando comparado ao de 2022. Na época, 20% das empresas se disseram prontas para inovação, o que representa uma queda de 17 pontos percentuais em apenas 2 anos.
Em entrevista a Época Negócios, Bruno Vasconcellos, diretor-executivo e sócio do BCG, aponta que a dificuldade de muitas empresas converterem a vontade de inovar em ação está na falta de alinhamento entre as estratégias de negócio e iniciativas, de fato, inovadoras.
Um dos maiores vilões para o fracasso de muitas companhias em seguir com projetos de inovação são a falta de clareza nos objetivos ou o desenvolvimento apenas de ideias isoladas, sem uma estrutura ampla de suporte – o que, segundo o executivo, pode levar a problemas significativos, como a perda de foco e a insistência em projetos inviáveis.
Para Vasconcellos, além dos desafios de dinâmicas internas, o cenário macroeconômico também tem um papel importante, principalmente com os desafios vistos no pós-pandemia – com juros em níveis históricos nos países mais ricos, levando a um custo de capital muito alto. Isso ajuda a explicar a queda no número de empresas que se mostram prontas para inovar ou que concentram capital humano e financeiro na medida.
“Num mundo cada vez mais dinâmico, com guerras, disrupções na cadeia de suprimentos, pandemias e crises climáticas, as empresas enfrentam muitos desafios de curto prazo, o que torna difícil para elas traçarem estratégias de inovação robustas”, aponta.
O estudo mostra, ainda, que menos da metade das companhias se esforçaram para alinhar o posicionamento estratégico com o desejo de inovação – apenas 48%. Das empresas que tentaram, apenas 12% delas conseguiram quantificar um impacto real em suas operações.
Inovação no Brasil
Segundo o estudo do BCG, o Brasil fica abaixo da média global quando o assunto é inovação – tanto com relação à prioridade das gestões como a efetivação de ações e a prontidão para testar novas ideias.
No país, apenas 50% dos executivos veem o tema como central para os negócios. Mais de dois terços dos participantes da pesquisa acreditam que o maior problema para deslanchar estratégias inovadoras é a cultura avessa ao risco (70%), estratégias mal desenhadas ou generalistas (45%), falta de governança robusta (40%) ou problemas de origem macro – como os juros elevados, que aumentam o custo de capital, e a falta de mão-de-obra especializada, que leva a uma grande disputa entre os principais players do mercado.
“Um ponto que mapeamos é que, no Brasil ou no mundo, quando não se tem uma estratégia clara, fica muito difícil inovar, e isso pode gerar uma série de problemas. Identificamos seis alavancas que ajudam a alinhar as duas coisas. Uma delas é o foco em executivos mais seniores responsáveis pela prática de inovação, já que assim você consegue passar essa cultura para a empresa, dando uma clareza da função daquilo”, explica Vasconcellos.
Além disso, o executivo aponta que é preciso ter em mente os objetivos, missão e balanceamento do portfólio estratégico, com uma boa quantificação das metas. “Onde você quer chegar e como a sua estratégia de inovação pode contribuir para cada uma das avenidas de crescimento? Assim você tem uma boa visão e mensuração de como a inovação pode te ajudar”.
A hora e a vez da IA generativa
Desde o lançamento do ChatGPT pela OpenAI, em novembro de 2022, a inteligência artificial generativa (GenAI) vem sendo destaque. As grandes empresas de tecnologia, como Apple, Microsoft e Meta, entraram na briga para desenvolver as suas próprias ferramentas. Enquanto isso, a Nvidia, fabricante de chips e processadores que permitem o funcionamento e treinamento dos modelos de IA, tornou-se uma das companhias mais valiosas do mundo.
Essas, no entanto, não são as únicas empresas que estão de olho no crescimento exponencial da GenAI. Segundo o estudo do BCG, 83% dos empresários que participaram da pesquisa estão experimentando as ferramentas de IA – principalmente para acelerar processos nas áreas de pesquisa e desenvolvimento de produtos ou soluções.
O uso da GenIA nas empresas é dos mais variados: vai desde a simplificação e melhora de eficiência no desenvolvimento de rotinas burocráticas – como a criação de apresentação, leitura de dados e relatórios –, até aplicativos de suporte a vendas ou outras automações.
“A gente vê que muitas empresas estão começando a experimentar com essas ideias, com 27% já implementando aplicações selecionadas e 8% começando a escalar essas aplicações. Embora ainda haja um caminho grande a ser seguido, já tem bastante gente andando, e isso é um caminho sem volta”, aponta o diretor do BCG.
Segundo o mapeamento da consultoria, os setores que mais apostam em IA generativa são os de tecnologia (98%), mídia e entretenimento (94%), bens duráveis (91%), química (91%) e turismo (87%).
No Brasil, o uso de IA generativa ainda é limitado, sem exemplos de aplicação em larga escala – contra um percentual de 8% na amostra global. Além disso, 35% ainda não utilizam IA generativa em nenhum momento de seus processos.
“As empresas brasileiras devem intensificar suas estratégias de inovação e utilizar a GenAI como um acelerador. Para isso, devem se concentrar em seis elementos-chave: propriedade executiva, claro senso de propósito, foco na vantagem competitiva, domínios específicos, estrutura de portfólio direcionada e objetivos quantificáveis. Companhias que implementam pelo menos quatro desses elementos têm mais de 50% das vendas provenientes de inovações em comparação com seus concorrentes”, afirma Vasconcellos.
Fonte: Época NEGÓCIOS






