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Início ESG

O término da moratória da soja em Mato Grosso gera dúvidas sobre as metas ambientais das tradings

Carla Santiago por Carla Santiago
14 de janeiro de 2026
em ESG
O término da moratória da soja em Mato Grosso gera dúvidas sobre as metas ambientais das tradings

Fonte: Adobe Stock

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Os ambientalistas estão céticos quanto à possibilidade de as tradings de grãos, que fornecem ração animal para os mercados globais de carne, cumpram as promessas de evitar a compra de grãos cultivados em terras recentemente desmatadas no Brasil.

O ceticismo vem na esteira do fim de um pacto corporativo de duas décadas para proteger a floresta amazônica, que foi desfeito este mês.

As tradings globais de grãos abandonaram a chamada Moratória da Soja depois que legisladores do Mato Grosso, maior Estado agrícola do Brasil, aprovaram uma lei que retira os incentivos fiscais das empresas aderentes ao pacto corporativo, o qual proibia a compra de soja de fazendeiros que derrubaram hectares de floresta tropical para cultivos comerciais.

A notícia veio justamente quando se esperava que entrassem em vigor novos compromissos das tradings para acabar com todo o desmatamento em suas cadeias de suprimentos. A aderência continuada teria ampliado as proteções a outros ecossistemas ameaçados, como os campos do Cerrado e as áreas úmidas do Pantanal, que sofreram uma imensa perda de árvores nas últimas décadas.

As tradings adotaram a Moratória da Soja em 2006, após anos de campanha de grupos ambientalistas. O pacto permitiu que as empresas compartilhassem dados sobre o desmatamento em sua cadeia de suprimentos e com grupos da sociedade civil, como ambientalistas que monitoram o impacto.

Há uma década, os defensores do meio ambiente vinham fazendo campanha por um compromisso corporativo mais amplo. O Brasil ainda perde centenas de milhares de hectares de vegetação nativa para a soja todos os anos.

Desde 2021, as norte-americanas ADM, Bunge e Cargill, a europeia Louis Dreyfus, a brasileira Amaggi e a chinesa Cofco haviam assumido o compromisso de acabar com todo o desmatamento em suas cadeias de suprimentos, a partir de 2025-2026.

A moratória, que foi desfeita este mês, impedia as empresas de comprar soja de agricultores que derrubaram florestas depois de 2008. E o pacto entrou em colapso quando os prazos para novas promessas se aproximavam. Os novos compromissos permitem compras de fazendas em terras desmatadas até 2020 e 2025, dependendo da trading. ADM, Bunge, Cargill, LDC e Amaggi não responderam às perguntas sobre seus compromissos de combate ao desmatamento.

A assunção de compromissos individuais, em detrimento a um pacto setorial, significa que os sistemas atuais das empresas para rastrear novos compromissos não têm a abertura e a colaboração que, segundo pesquisadores, permitiram que a moratória e outras medidas de conservação preservassem uma área da floresta amazônica do tamanho da Irlanda.

Grande parte da soja brasileira é usada como ração para engordar animais, dos quais vêm a carne vendida por supermercados e redes de fast-food, como o McDonald’s. Até agora, os grupos que representam os grandes consumidores da oleaginosa têm sido vagos quanto ao rigor com que monitorarão se a carne que compram é proveniente de animais alimentados com soja de florestas tropicais desmatadas.

“A questão está na transparência e nos meios de verificação. Ou seja, não basta uma declaração,” disse André Lima, que lidera os esforços de combate ao desmatamento no Ministério do Meio Ambiente. “Os compromissos que tenham transparência e mecanismos de reporte, verificação, mensuração, e avaliação certamente trazem resultado positivo,” acrescentou.

A Cofco disse que uma auditoria terceirizada verificou que 99% da soja que a empresa compra no Brasil está livre de desmatamento desde 2024. A Cofco disse que seus controles internos classificam os grãos comprados de áreas recentemente desmatadas como “de maior emissão”.

Glenn Hurowitz, presidente-executivo da ONG ambientalista Mighty Earth, disse ser satisfatório ver as empresas se comprometerem a proteger todos os ecossistemas, mas ele comentou estar preocupado com a conformidade.

“Parece estranho adotar proteções mais fortes à natureza ao mesmo tempo em que se abandona um mecanismo comprovado e eficaz para salvar a Amazônia”, disse ele. “Eles estão destruindo o próprio mecanismo que sustentou todas as suas alegações de responsabilidade ambiental.”

Reputação tóxica

A moratória foi adotada em 2006, quando o Greenpeace divulgou um relatório mostrando que a soja vendida por comerciantes de grãos havia impulsionado o desmatamento da floresta amazônica.

Dias depois que as grandes tradings se retiraram da moratória, as cadeias globais de restaurantes, varejistas de alimentos e a Fefac, um poderoso lobby de ração animal na Europa, para onde é exportada quase metade do farelo de soja brasileiro, evitaram fazer comentários públicos ou permaneceram vagos quanto à adoção de qualquer medida.

O British Retail Consortium, que representa o McDonald’s e o Burger King, expressou desapontamento com a saída das principais empresas da moratória, e disse que os varejistas continuavam comprometidos em colaborar com seus fornecedores para combater o desmatamento, mas não deu detalhes.

Em setembro, o Retail Soy Group, que representa cadeias de supermercados como a Tesco e a Sainsbury, publicou uma carta pública pedindo às tradings que mantivessem seus compromissos de acordo com a Moratória da Soja. O grupo afirmou que seus membros “avaliariam o desempenho de cada empresa individualmente em relação às nossas próprias políticas individuais de aquisição”.

Will Schreiber, representante do RSG, disse que a saída das tradings do que foi considerado “a medida de conservação mais bem-sucedida deste século na prevenção da perda de novas florestas” foi “muito decepcionante”.

Ainda assim, ele acrescentou que, quando se reuniu com representantes das tradings no ano passado, “a percepção era a de que a moratória da soja foi adequada para a sua época”.

Nos últimos anos, o Brasil intensificou as proteções legais para suas florestas. A Europa está programada para adotar uma legislação este ano que proíbe as importações ligadas ao desmatamento a partir de 2020.

A China é, de longe, o maior comprador da soja brasileira e de outros produtos agrícolas, mas as exportações para a Europa podem crescer com o acordo comercial recentemente firmado entre o bloco comercial sul-americano Mercosul e a União Europeia.

“Acho que será perfeitamente possível para essas grandes tradings manterem seus compromissos com os sistemas de monitoramento que eles têm em vigor”, disse Schreiber.

Hurowitz, da Mighty Earth, disse estar cético quanto ao impacto que os varejistas causariam sem de fato reduzir as compras dos comerciantes que abandonaram a moratória.

“A Cargill e a Bunge entendem de dólares e centavos”, disse ele. “Ainda não sei até que ponto os consumidores estão cientes do fato de que esses comerciantes obscuros de ração animal abandonaram a Amazônia. Mas nós certamente pretendemos nos certificar de que eles saibam.

Tags: esg

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