No último ciclo de aumento das taxas de juros à patamares similiares aos atuais acima dos 5%, em 2006-2007, foi o suficiente para causar o estouro da bolha imobiliária e uma das maiores crises financeiras da história americana. Agora, em 2022-2023, vimos um aumento muito mais rápido na taxa de juros até os atuais 5,25% e, apesar disso, a atividade econômica segue forte e o núcleo da inflação pouco respondeu a essa tentativa do Federal Reserve (Banco Central Americano). Na coluna de hoje, exploraremos um pouco dessas causas e o que mudou de 2007-2008 pra cá que torna o trabalho do FED ainda mais difícil.
O ciclo atual de aperto monetário, levou a taxa de juros de 0,25% no início de 2022 aos atuais 5,25% em pouco mais de 1 ano. Quando olhamos para o estouro da bolha imobiliária em 2007-2008, o ciclo de aumento foi muito mais lento e a redução dos juros se iniciou muito antes do crash na bolsa de 2008 com a quebra de bancos.
Nesse ciclo, o juros começou a aumentar em 2004, quando saiu de 1% para 1,25%, e alcançou seu pico após 2 anos de aumentos graduais de 0,25% cada em 2006, quando o FED elevou a taxa de juros chegou a 5,25% e depois passou a reduzir em um ritmo parecido. Durante esse ciclo de aumento e redução, as bolsas seguiram subindo. Do aumento em 2004 até o pico da bolsa em janeiro de 2008, o S&P500 subiu mais de 35%. Naquela época, o desemprego também teve queda e chegou às mínimas antes do crash econômico. Fato é que esse indicador econômico respondeu de forma muito parecida ao ciclo atual.
Em relação ao impacto do aumento de juros nos gastos diretos da população, não podemos falar o mesmo. Como os gastos pessoais são o grande motor da inflação, uma das expectativas com o aumento da taxa de juros é de que isso aumente boa parte dos custos da população para que se reduza o consumo geral. No consumidor final, o principal gasto do americano é com hipotecas. Nessa modalidade, o imóvel é usado como garantia para diversas linhas de crédito.
No caso das hipotecas, a taxa de juros aplicada pode ter basicamente duas modalidades: ajustável e não-ajustável. No ciclo passado de 2004, cerca de 35% das hipotecas eram ajustáveis. As hipotecas ajustáveis são correlacionadas à taxa de juros ano a ano, então podem subir em período de aperto monetário. No caso das não-ajustáveis, é praticado uma taxa fixa de juros aos devedores independente de decisões do FED.
O problema é que, comparado ao ciclo de 2004, no início de 2022 menos de 5% das hipotecas eram da modalidade ajustável. Claro, o mercado aprendeu a lição e as pessoas se protejeram evitando contratar esse tipo de hipoteca tão arriscada. Logo, o efeito em cadeia até que os aumentos da taxa de juros impactem na redução de gastos da população e ocorra o freio no consumo fica ainda mais lento.
Por essas e outras razões, será de extrema importância acompanharmos o resultado do núcleo do PCE que está hoje em 4,6% frente ao pico de 5,4% no início do ciclo de aperto monetário atual. Portanto, todo o esforço do FED elevando a taxa de juros trouxe até agora uma redução de menos de 1% no núcleo desse indicador que mede o preço de bens e serviços comprados com o propósito de consumo, excluindo comida e energia.
O próximo resultado será divulgado no dia 28 de julho, minha opinião é que enquanto esse indicador não demonstrar real redução seguiremos vendo aumentos de juros que poderão levar a uma nova crise pelo seu efeito em cadeia imprevisível. Será que vamos repetir o ciclo passado, em que o crash do mercado financeiro veio quase 2 anos depois de interromper os aumentos e iniciar a redução nas taxas de juros? Se isso acontecer, podemos ver a “nova bolha” estourar apenas em 2025.






