O Brasil encerrou o ano de 2024 com um número alarmante no campo da migração de alta renda: cerca de 800 milionários deixaram o país, tornando-o o sexto colocado no ranking global de nações que mais perderam cidadãos ricos, segundo levantamento da consultoria internacional Henley & Partners, no relatório Private Wealth Migration. Os dados revelam uma tendência preocupante de evasão de capital humano e financeiro que pode impactar diretamente a economia brasileira nos próximos anos.
O destino mais escolhido pelos milionários brasileiros foi Portugal, país que tem se consolidado como uma das principais portas de entrada para europeus e latino-americanos em busca de estabilidade, qualidade de vida e incentivos fiscais. Na sequência, os Estados Unidos aparecem como segunda opção preferida. A justificativa para essa movimentação, segundo especialistas, vai além da simples busca por um novo endereço: trata-se de uma reação a problemas estruturais do Brasil.
Entre os principais fatores que levaram à decisão de deixar o país estão a insegurança urbana, a instabilidade política e econômica e, sobretudo, o temor de medidas que ampliem a taxação sobre grandes fortunas. A discussão sobre uma reforma tributária mais progressiva, com foco na tributação de altos patrimônios e dividendos, reacendeu a preocupação de empresários, herdeiros e investidores de grande porte. Mesmo que essas medidas ainda estejam em debate ou não tenham sido efetivamente implementadas, a percepção de risco foi suficiente para acelerar os planos de mudança.
A migração de milionários, no entanto, não significa apenas a transferência de residências. Em muitos casos, ela representa também a saída de capital produtivo. Diversos desses indivíduos são empreendedores, investidores e fundadores de empresas que, ao se estabelecerem em novos países, acabam por iniciar negócios, gerar empregos e movimentar setores específicos, especialmente o mercado de luxo, serviços de alta renda e consultorias financeiras.
Portugal, por exemplo, tem colhido frutos diretos desse movimento. Cidades como Lisboa, Cascais e Porto registraram aumento na demanda por imóveis de alto padrão, escolas internacionais e serviços personalizados. O programa português de residência para investidores, conhecido como “Golden Visa”, foi um dos atrativos iniciais, mas mesmo com seu fim em 2023, o país manteve a atratividade pela segurança, estabilidade política e custo de vida relativamente acessível em relação a outros países da Europa Ocidental.
A evasão de milionários, embora seja um fenômeno global — com China, Índia e Reino Unido também liderando a lista de países que mais perderam indivíduos de alta renda —, tem um impacto mais severo em economias emergentes, como a brasileira. Isso porque o número de pessoas com patrimônio acima de US$ 1 milhão ainda é pequeno no país, e sua saída pode afetar o investimento privado, a arrecadação e até mesmo a filantropia.
Para especialistas em mobilidade internacional, a tendência deve se manter nos próximos anos, caso o Brasil não consiga promover reformas estruturais que garantam segurança jurídica, previsibilidade econômica e políticas públicas que aumentem a confiança do investidor nacional. “A saída de milionários é um termômetro. Quando pessoas com recursos e capacidade de gerar riqueza decidem ir embora, isso acende um alerta sobre o ambiente doméstico”, avalia um consultor de mobilidade fiscal.
Em um mundo cada vez mais globalizado e conectado, a mobilidade de grandes fortunas tornou-se um fator estratégico. O Brasil, portanto, terá que repensar sua política econômica e seu ambiente institucional se quiser não apenas atrair, mas reter seu capital mais qualificado e influente. A saída de 800 milionários em um único ano é mais do que um número — é um sinal de que a confiança está se esvaindo junto com os aviões rumo ao exterior.






