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Início ESG

As emissões são reduzidas pelo preço do carbono, não pelos mercados

Carla Santiago por Carla Santiago
11 de setembro de 2024
em ESG
As emissões são reduzidas pelo preço do carbono, não pelos mercados

Fonte: Agrosolutions

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Ao contrário do que possa parecer, os mercados de carbono não reduzem a concentração de gases de efeito estufa da atmosfera. As trocas têm resultado zero. O vendedor deixa de emitir ou remover uma determinada quantidade de gás da atmosfera para que o comprador possa emitir exatamente o mesmo tanto.

Mas então por que esses mercados fazem parte do Acordo de Paris e estão na pauta de governos, empresas e da mídia? Porque são um dos dois principais instrumentos econômicos para colocar um preço nas emissões e remoções de carbono da atmosfera (o outro é taxar as emissões).

Atribuir um valor financeiro às emissões é importante para que consumidores passem a preferir produtos com menos carbono embutido e, portanto, mais baratos. É importante para empresários tomarem decisões de investimento que resultem em menos emissões e, portanto, com impacto menor do preço de seus produtos.

Nos mercados regulados, quem induz a redução de emissões não é o mercado: é o seu órgão regulador. Com base em planos climáticos, ele estabelece um limite de emissões de gases de efeito estufa para os setores sujeitos à regulação e vai gradualmente reduzindo esse limite.

Ou seja, as alocações de permissões – “direitos de poluir” –  são reduzidas gradualmente e, portanto, o volume em circulação é cada vez menor. Em princípio, quanto menor o volume, maior o preço da permissão.

Com isso, mais agentes substituirão equipamentos emissores – principalmente os que queimam combustíveis fósseis. Além disso, a redução gradual desse teto (cap) de emissões por si só é a decisão que leva a uma redução total de emissões de carbono dos setores afetados. O mercado apenas permite que essas reduções sejam alocadas de uma forma mais custo-eficiente.

Nos mercados voluntários, embora não exista um regulador onipresente, há pressões de acionistas, investidores, consumidores e da sociedade para que empresas reduzam suas emissões. Num primeiro momento, comprar créditos de carbono no mercado voluntário permite adiar a transição necessária. À medida que mais empresas entram nessa rota, e supondo que exista um teto para a geração de créditos de carbono, novamente os preços desses créditos sobem, induzindo os investimentos necessários para a transição.

Soma zero

Ao permitir essas trocas de soma zero, os mercados buscam as transformações ao menor custo.

Em mercados regulados, atividades que substituem combustíveis fósseis a custo mais baixo geram sobras de permissões mais baratas e serão as primeiras a serem implementadas.

No voluntário, projetos que requerem menos investimento e/ou que tenham custo operacional mais baixo gerarão créditos de carbono mais baratos e, novamente, serão os primeiros a ser implantados.

Só para reforçar a mensagem inicial: por si só, mercados carbono não alteram a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Governos, reguladores e consumidores precisam tomar decisões que reduzam essa concentração. Os mercados são um mecanismo de minorar seus impactos econômicos.

Há um “detalhe” importante e danoso quando se deseja permitir que esses mercados sejam interligados, permitindo que créditos advindos de projetos de carbono sejam aceitos em mercados regulados.

Nestes, o regulador dispõe de dois instrumentos para induzir a transição: o volume de permissões em circulação e o preço da permissão. Ao estabelecer uma multa (por tonelada de carbono, por exemplo), o regulador define um preço teto. Os entes regulados têm a referência necessária para decidir, quando necessário, se compram permissões ou pagam a multa.

O regulador deve aumentar o valor da multa gradualmente, permitindo que o preço da permissão suba e levando mais agentes a optar por equipamentos e processos menos emissores. Esse controle do teto de preço é fundamental para induzir as mudanças.

Mercado voluntário x regulado

Permitir a entrada de créditos de carbono aleija o regulador de intervir no preço do carbono, uma vez que o preço do crédito de carbono vem de um mundo onde o regulador não tem mão. No limite, o mercado regulado perde o sentido, pois sempre será possível ao empresário comprar créditos de carbono ao invés de percorrer o caminho da transição.

É verdade que o uso dos créditos de carbono pode reduzir os custos de conformidade e expandir os incentivos de redução e os benefícios da mitigação para outros setores fora do mercado regulado, como a conservação e restauração florestal, conforme proposto pelo Banco Mundial para o mercado brasileiro no âmbito do projeto Partnership for Market Readiness.

Mas isso precisa ser feito com muita cautela e precisão. “Terceirizar” a redução de emissões é um caminho arriscado e que pode nos deixar ainda mais longe de alcançar o tão almejado net zero.

*Caroline Dihl Prolo é advogada especialista em mudanças climáticas, diretora executiva da LACLIMA e colunista no Reset.

*Shigueo Watanabe Jr. é especialista em mudanças climáticas e energia e pesquisador no Instituto Talanoa, onde desenvolve projetos sobre os aspectos climáticos de políticas públicas

Tags: investimentosnegócios

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