Nesta Copa do Mundo, o “bolão da firma” está mais complexo. Em algumas plataformas, apostar nas seleções “underdogs” (ou seja, as que são mais “desacreditadas”) pode render mais pontos do que as mais prováveis quando elas conseguem uma vitória inesperada.
De forma parecida, na bolsa de valores investir em uma ação fora do radar pode trazer lucros substanciais caso haja uma valorização inesperada. Por outro lado, aquelas que estão na mira podem trazer valorizações proporcionalmente menores, visto que da companhia já estão embutidas no preço.
O analista de ações da Empiricus Research, Ruy Hungria, traça esse paralelo com duas empresas de segmentos totalmente diferentes da bolsa: Magazine Luiza (MGLU3) e Equatorial (EQTL3).
EQTL3 ou MGLU3: em qual investir?
Desde o início da guerra e da consequente piora das perspectivas para a inflação, o ano de 2026 pressionou as ações da bolsa brasileira.
Tanto que os papéis de algumas empresas mais cíclicas despencaram em 2026, como Magazine Luiza (MGLU3), que viu seu preço derreter quase pela metade (-49%). Já a Equatorial (EQTL3), companhia do setor elétrico e de saneamento, permaneceu praticamente no zero a zero no mesmo período.
Depois dessa forte desvalorização, Hungria comenta que as ações MGLU3 ficaram “bem abaixo” do preço-alvo de R$ 9 que os analistas têm para o papel. “À primeira vista, trata-se de um potencial bastante atrativo, de cerca de 90%.”
Por outro lado, as ações EQTL3 permaneceram em um patamar menos distante de seu preço-alvo de aproximadamente R$ 50 — um potencial de alta de 35%.
Na visão de Hungria, essa diferença de taxas de valorização possíveis precisa ser levada em conta na hora de montar uma carteira de investimentos. No entanto, a probabilidade de o valor da ação chegar ao preço-alvo, dado todo o contexto, não pode ser ignorado.
“Esse exercício ajuda a entender como deveria ser o método de construção de uma carteira: nunca pensar apenas no potencial de retorno dos ativos, mas em uma combinação do potencial com a probabilidade de esses resultados acontecerem”, comenta o analista.
Algumas ações brasileiras passaram por quedas relevantes em 2026, na casa dos 30%, 40%, 50% no ano. Mas, nem por isso, tratam-se de uma boa escolha para a carteira, avalia o analista.
“Isso não é o suficiente para fazer delas boas escolhas. MGLU3 despencou, mas a vida dela também ficou muito mais difícil desde o início do ano, com a guinada nas perspectivas para a Selic, restrição de crédito e competição cada vez mais acirrada no e-commerce”, explica Hungria.
Enquanto isso, a piora macroeconômica não beneficia a EQTL3, mas atrapalha pouco, visto que o negócio de distribuição de água e energia não depende tanto desse cenário. Além disso, a companhia conseguiu arrematar a Copasa recentemente no leilão de privatização, adquirindo uma fatia relevante no setor.
Quando apostar e quando evitar as “zebras” da bolsa
Retomando o paralelo do bolão da Copa do Mundo, o analista aponta que olhar apenas para o potencial de alta ou a métrica de desconto dos papéis é um fator arriscado. “A aposta na vitória da Jordânia [sobre a Argentina, referente ao jogo entre os dois times na fase de grupos] é certamente mais ‘lucrativa’, mas tem muito menos chance de acontecer”, afirma.
Hungria enxerga que apostar em alguma “zebra” pode valer a pena em algumas situações, especialmente se você conhecer profundamente o potencial do azarão.
“Isso normalmente será exceção, e não a regra para a sua carteira de investimentos, que deve ser composta majoritariamente por empresas de qualidade e capazes de enfrentar até mesmo os adversários mais difíceis”, aponta o analista.