A Almacor.Art encontrou na união entre moda, arte e inclusão uma forma de dar visibilidade a artistas neurodivergentes e pessoas com deficiência. Ao transformar pinturas em estampas de roupas, acessórios e objetos, a empresa criou um negócio que gera receita, remunera os criadores e amplia o espaço desses profissionais no mercado.
A marca, comandada por Cynthia Jaber e Cecília Freyre, nasceu sem esse propósito definido. Inicialmente, Cynthia planejava lançar uma empresa tradicional de moda. No entanto, uma obra enviada pela mãe de um artista com síndrome de Down mudou o rumo do projeto.
Cynthia transformou o desenho em uma estampa e aplicou a criação em uma canga. O produto teve forte procura e alcançou resultados positivos de venda. A partir daquele momento, a empresária percebeu que poderia construir uma marca baseada na inclusão e na valorização de diferentes talentos.
“Quando eu estampei, falei: ‘Isso vai virar canga’. E virou. Foi um sucesso de vendas. Por causa disso, decidi que a marca teria o propósito da inclusão”, afirmou Cynthia.
O trabalho desenvolvido pela Almacor também já ganhou espaço na televisão. A apresentadora Ana Maria Braga apareceu no programa “Mais Você”, da TV Globo, com um vestido estampado por Matheus Andrade, artista baiano que integra o portfólio da marca.
Inclusão sem apelo à caridade
Desde o início, a Almacor buscou evitar que os clientes comprassem os produtos apenas por causa da história dos artistas. Por isso, a empresa passou a investir em matéria-prima, acabamento, modelagem e design.
Segundo Cynthia, a qualidade precisa ocupar o centro do negócio. Dessa forma, a inclusão se torna parte natural do produto, e não uma estratégia baseada em pena ou caridade.
“A gente não quer que uma pessoa chegue a um produto da Almacor e compre por pena. Os produtos são extremamente bem-feitos e bem-acabados”, disse.
A marca também trata os criadores como artistas profissionais. A empresa compra as obras, negocia os direitos autorais e transforma os trabalhos em estampas. Além disso, os próprios artistas e suas famílias definem os preços das peças originais, que podem alcançar até US$ 6 mil.
Experiência pessoal ajudou a construir o projeto
A entrada de Cecília Freyre na empresa acrescentou uma visão ligada à psicologia, ao cuidado e às dificuldades enfrentadas pelas famílias. Ela é mãe de dois filhos no espectro autista com nível elevado de suporte e conheceu a Almacor depois que a filha, Gil Freyre, começou a desenvolver trabalhos artísticos.
Durante a pandemia, Cecília buscou novas atividades para os filhos após a interrupção das aulas e terapias presenciais. Assim, começou a explorar a pintura como forma de expressão e desenvolvimento.
Uma professora de arte apresentou os trabalhos de Gil a Cynthia. Depois disso, a jovem passou a integrar o grupo de artistas da empresa. Cerca de seis meses mais tarde, Cecília recebeu o convite para se tornar sócia da marca.
“Quando a Cynthia convidou a Gil para ser artista da marca, aquilo me deu outra visão de futuro para ela”, afirmou Cecília.
Enquanto Cynthia contribui com sua experiência em grandes grupos têxteis, Cecília leva ao negócio sua formação em psicologia e sua vivência como mãe. Essa combinação ajudou a empresa a desenvolver um modelo que considera tanto a qualidade dos produtos quanto as necessidades dos artistas e de suas famílias.
Curadoria respeita o processo criativo
A Almacor trabalha com o apoio de uma arteterapeuta no processo de curadoria. No entanto, a marca não encomenda desenhos nem determina o que cada artista deve produzir.
Como os criadores já mantêm um acervo próprio, as fundadoras escolhem obras que dialogam com o tema de cada coleção ou projeto. A empresa pode reunir, por exemplo, trabalhos de diferentes artistas ligados a conceitos como coração, natureza ou liberdade.
“A gente escolhe as obras como se fosse um tema. Como eles são artistas e já têm várias obras prontas, eu não encomendo obras para eles”, explicou Cynthia.
Cada profissional desenvolve uma linguagem própria. Alguns trabalham com colagem, enquanto outros produzem pinturas abstratas ou exploram temas ligados aos seus interesses.
Gil, por exemplo, usa cores e formas abstratas como meio de comunicação. Cecília acompanha as escolhas de tintas e identifica emoções ou acontecimentos a partir das obras da filha. Já outros artistas desenvolvem desenhos mais figurativos e reconhecíveis.
Dessa maneira, a empresa preserva a autenticidade das criações e adapta as obras apenas quando precisa fazer variações de cores ou adequações técnicas para as peças.
Visibilidade também combate o capacitismo
Além de gerar renda, a Almacor busca enfrentar a desconfiança sobre a capacidade criativa de pessoas neurodivergentes ou com deficiência. Segundo Cynthia, alguns consumidores demonstram surpresa ao descobrir quem criou as estampas.
“Tem gente que não acredita que eles fazem. É capacitismo, mesmo que sem querer. Mas a obra é original”, disse.
Para Cecília, a empresa tenta apresentar os artistas primeiro pela beleza e pela qualidade de seus trabalhos. Assim, o público conhece a obra antes de se concentrar no diagnóstico ou na condição de cada criador.
“É chegar pela arte, pelo belo, pelo que eles têm de mais bonito”, afirmou.
A proposta também ajuda a ampliar perspectivas profissionais. Muitas pessoas com altas necessidades de suporte permanecem em casa, em clínicas ou em instituições por causa das dificuldades de socialização e da falta de uma rede de apoio.
Por isso, as fundadoras querem criar caminhos para que esses artistas tenham remuneração, reconhecimento, convivência social e participação no mercado de trabalho.
Fluxo de caixa ainda representa o maior desafio
Embora o propósito social ocupe uma posição central, a Almacor precisa manter uma operação financeiramente sustentável. Segundo Cynthia, o principal obstáculo não está na relação com os artistas, mas nas dificuldades de empreender no Brasil.
“O primeiro desafio é o fluxo de caixa. É muito difícil empreender no Brasil da forma correta”, afirmou.
A empresa cresce com recursos próprios e ainda não conta com grandes aportes externos. Por isso, precisa equilibrar o desenvolvimento de coleções, a compra de materiais, a produção das peças e os investimentos necessários para ampliar a marca.
Ao mesmo tempo, as fundadoras adotam critérios rigorosos para selecionar novos artistas. A empresa avalia não apenas a qualidade das obras, mas também a relação com as famílias, os tutores e os responsáveis.
A marca quer garantir que os recursos cheguem aos criadores e contribuam, de fato, para sua qualidade de vida. Esse cuidado se torna ainda mais importante porque alguns artistas não conseguem administrar sozinhos a renda ou expressar todas as suas necessidades.
Marca já sustenta a própria operação
Mesmo com pouco tempo de mercado, a Almacor afirma que já consegue manter sua operação com as próprias receitas. Além disso, a empresa fechou parcerias e colaborações com outras marcas e ampliou seu portfólio.
Atualmente, o grupo reúne sete artistas e prepara a entrada de outros três. A empresa também vende seus produtos em São Paulo e participa de eventos, exposições, desfiles e projetos especiais.
A divulgação ocorreu principalmente por meio de mídia espontânea. A marca já apareceu em veículos como Vogue e Forbes sem pagar pelas publicações, segundo as fundadoras.
“O mais legal é que todas as mídias foram espontâneas. A gente nunca pagou”, afirmou Cynthia.
A empresa também desenvolve presentes corporativos, pastas de couro, peças de seda e outros produtos que carregam as estampas e as histórias dos artistas. Com isso, a Almacor amplia as fontes de receita e aproxima as obras do cotidiano dos consumidores.
Instituto deve ampliar o impacto social
O próximo grande passo da Almacor envolve a expansão de seu projeto social. As fundadoras querem estruturar um instituto dedicado ao desenvolvimento artístico, profissional e pessoal de novos criadores.
A proposta prevê apoio em áreas como arte, saúde, convivência, lazer, formação, inserção no mercado e suporte às famílias. Segundo Cecília, o objetivo é criar um espaço no qual as pessoas possam exercer seus talentos e participar de atividades sociais com mais autonomia.
“A arte é o único lugar onde não há exclusão”, afirmou.
A ideia é usar parte dos resultados da empresa e futuras parcerias com grandes companhias para financiar a estrutura. O instituto também poderá estabelecer vínculos com clínicas, laboratórios e centros terapêuticos.
Além disso, a marca planeja levar suas produções ao mercado internacional. A empresa já avalia oportunidades em Londres e pretende iniciar um processo de exportação.
Com a expansão, a Almacor busca mostrar que uma causa social pode se transformar em um negócio viável, desde que a empresa valorize o talento, remunere os artistas e ofereça produtos competitivos.
Mais do que estampar roupas, a marca quer criar oportunidades e mudar a forma como o mercado enxerga artistas neurodivergentes e pessoas com deficiência.






