A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou reações de insatisfação entre representantes do agronegócio brasileiro. Após o resultado do segundo turno, realizado no domingo (25), entidades do setor defenderam mudanças na condução econômica do país e cobraram responsabilidade fiscal, juros menores, segurança jurídica e medidas para ampliar a competitividade da produção rural.
Embora as manifestações tenham tons diferentes, parte das lideranças ligadas ao agronegócio empresarial demonstrou preocupação com os rumos da política econômica no próximo mandato. O receio é que a manutenção de gastos públicos elevados e a falta de medidas para controlar o endividamento do governo mantenham os juros em patamares altos, encarecendo o crédito e pressionando os custos de produção.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) afirmou que respeita a decisão dos eleitores, mas avaliou que o resultado eleitoral também deve ser interpretado como um sinal de demanda por mudanças. A entidade destacou que cerca de 49% dos votos válidos foram destinados ao candidato adversário de Lula e defendeu que o governo considere esse recado na formulação de suas políticas.
Entre as prioridades apontadas pela federação estão a simplificação tributária sem aumento da carga sobre o setor produtivo, a redução sustentável dos juros, o controle dos gastos públicos e a garantia do direito de propriedade. A Faesp também pediu mais previsibilidade jurídica e medidas que reduzam os entraves à atividade empresarial no campo.
A reação evidencia o desafio de Lula para construir uma relação mais estável com um segmento importante para as exportações e para a economia brasileira. A aproximação dependerá não apenas do diálogo com entidades representativas, mas também de decisões concretas sobre crédito rural, infraestrutura, tributação, segurança no campo e políticas ambientais.
Crédito rural e endividamento estão entre as principais preocupações
Além das divergências políticas, o setor enfrenta desafios econômicos que exigem respostas do próximo governo. O acesso ao crédito, o endividamento dos produtores e a cobertura do seguro rural aparecem entre as principais demandas para os próximos anos.
A manutenção de juros elevados aumenta o custo dos financiamentos utilizados para comprar máquinas, sementes, fertilizantes e defensivos agrícolas. O problema ganha importância em um setor que exige investimentos antecipados e depende de meses entre o plantio e a comercialização da produção.
A renegociação de dívidas rurais também permanece na agenda. Produtores afetados por problemas climáticos, custos elevados e margens reduzidas precisam recuperar a capacidade de pagamento para continuar financiando as próximas safras.
Outro ponto de atenção é o seguro rural. Dados citados pelo setor mostram que a parcela da área cultivada brasileira protegida por seguro caiu de 16,3% em 2021 para 3,3% em 2025. A ampliação da cobertura é considerada importante para reduzir o impacto de secas, chuvas excessivas e outros eventos climáticos sobre a renda dos produtores.
O Plano Safra também será acompanhado de perto. O programa reúne linhas de financiamento para custeio, comercialização e investimentos, e sua execução pode influenciar diretamente o planejamento da produção. Embora o plano referente à safra 2026/27 já tenha sido anunciado, o ciclo de 2027/28 deverá ser o primeiro elaborado integralmente durante o novo mandato.
Mercado financeiro aumenta a preocupação no campo
A reação negativa dos mercados após a eleição acrescentou uma preocupação à lista de demandas do agronegócio. Na segunda-feira, o Ibovespa registrou perdas expressivas, o dólar disparou e os juros futuros avançaram, em meio à revisão das expectativas dos investidores sobre a política econômica do próximo governo.
A instabilidade pode afetar o setor de diferentes maneiras. A alta do dólar tende a encarecer insumos importados, máquinas e componentes utilizados na produção agrícola. Por outro lado, pode aumentar, em reais, a receita obtida com exportações, dependendo dos preços internacionais, dos custos e da exposição cambial de cada empresa.
Os juros elevados, por sua vez, podem tornar o financiamento da produção mais caro e reduzir a disposição dos produtores para realizar investimentos. O efeito varia conforme a atividade, o nível de endividamento e a proporção da produção destinada ao mercado externo.
A preocupação com as contas públicas também influencia as expectativas para a economia. Caso os investidores mantenham a percepção de risco fiscal elevado, o custo do crédito poderá continuar pressionado, dificultando a recuperação financeira de produtores e empresas do setor.
Relação com o governo será um desafio político
A relação entre Lula e o agronegócio é marcada por divergências que vão além da economia, incluindo questões ambientais, fundiárias e relacionadas à propriedade rural. A disputa sobre políticas de preservação, licenciamento e demarcação de terras continuará exigindo negociação entre o Executivo, o Congresso e as entidades do setor.
A composição do Legislativo também deve influenciar esse relacionamento. A força de partidos de oposição e o peso da Frente Parlamentar da Agropecuária ampliam a importância das negociações para aprovar medidas de interesse do governo e dos produtores.
Apesar das divergências, as entidades do agronegócio não adotaram uma posição uniforme após o resultado eleitoral. Enquanto a Faesp enfatizou cobranças por mudanças econômicas, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) cumprimentou Lula e defendeu diálogo, planejamento de longo prazo e investimentos em infraestrutura, logística, financiamento e seguros.
A CropLife Brasil, que representa empresas de sementes, biotecnologia, defensivos químicos e bioinsumos, também parabenizou o presidente reeleito e defendeu a continuidade dos investimentos em pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.
As manifestações mostram que, mesmo entre organizações que desejam mudanças na política econômica, existe disposição para manter canais institucionais de diálogo. O principal desafio será transformar as cobranças em medidas concretas, capazes de melhorar as condições de produção e ampliar a competitividade brasileira.
Para o governo Lula, a reeleição abre a oportunidade de reconstruir a relação com um dos setores mais importantes da economia nacional. Para o agronegócio, os próximos meses serão decisivos para avaliar se as demandas por crédito, segurança jurídica, controle fiscal e previsibilidade regulatória serão incorporadas às prioridades do novo mandato.






