Os acionistas da Raízen aprovaram nesta sexta-feira (30) a implementação do plano de recuperação extrajudicial da companhia, segundo informações de três pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Reuters. A decisão representa uma etapa importante na tentativa de reorganizar as finanças da produtora de açúcar e etanol e da distribuidora de combustíveis, que enfrenta um dos maiores processos de reestruturação de dívidas da história do Brasil. A empresa não comentou a votação.
O plano busca reestruturar aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras, conforme o acordo homologado pela Justiça de São Paulo em julho. A companhia havia obtido a adesão de 81,6% dos credores financeiros sem garantia, percentual suficiente para tornar o acordo vinculante para os credores abrangidos pelo processo.
O pacote de reestruturação inclui um aumento de capital que poderá variar entre R$ 3,5 bilhões e R$ 39,8 bilhões, conforme documentos apresentados pela companhia. A operação prevê a emissão de novas ações ordinárias, ações preferenciais e units, certificados que reúnem diferentes classes de ações. O objetivo é reforçar a estrutura financeira da empresa e viabilizar as medidas previstas no acordo com os credores.
O valor final da capitalização dependerá da adesão dos investidores às condições da operação. A proposta estabelece uma subscrição mínima de R$ 3,5 bilhões e permite que a captação alcance um montante significativamente maior, caso os acionistas exerçam seus direitos de preferência. A Shell, uma das controladoras da Raízen, comprometeu-se a aportar R$ 3,5 bilhões, enquanto a Aguassanta Participações, ligada à família de Rubens Ometto, poderá contribuir com outros R$ 500 milhões.
A reorganização também prevê a conversão de parte das dívidas em participação acionária e a substituição de outra parcela por novos instrumentos de dívida. A estratégia busca diminuir a pressão dos encargos financeiros sobre o caixa e adequar os compromissos da companhia à capacidade de geração de recursos de suas operações.
Outro eixo importante é a reorganização societária. O plano prevê a separação das atividades de produção de açúcar, etanol e bioenergia das operações de distribuição de combustíveis. A estrutura deverá permitir que os dois segmentos funcionem com maior autonomia financeira, com dívidas e recursos distribuídos de acordo com a capacidade de geração de caixa de cada negócio. A reorganização também envolve mudanças na governança e na composição do conselho de administração.
A crise financeira da Raízen foi agravada por uma combinação de fatores, incluindo investimentos elevados em projetos de expansão, safras de cana-de-açúcar abaixo do esperado, juros altos e preços menos favoráveis de commodities. Esses elementos pressionaram o fluxo de caixa e aumentaram o custo de financiamento da companhia, que atua tanto no setor sucroenergético quanto na distribuição de combustíveis.
A recuperação extrajudicial busca reorganizar as obrigações financeiras sem recorrer ao processo tradicional de recuperação judicial. O acordo com os credores já havia sido homologado pela Justiça, mas a execução das medidas depende de uma sequência de aprovações societárias e operações de capitalização.
Com a aprovação dos acionistas, a Raízen avança em uma etapa decisiva para implementar a reestruturação. O desafio agora será concretizar o aumento de capital, executar as mudanças societárias e recuperar a capacidade de geração de caixa. A efetividade dessas medidas será determinante para reduzir o endividamento e restabelecer a confiança do mercado na companhia.






