O Ceará ampliou a produção de energia eólica e solar nos últimos anos, mas começa a enfrentar um limite fora das usinas: a capacidade de transmissão. Sem infraestrutura adequada, investidores atravessam um período de insegurança. A prova mais recente consta no Planejamento da Operação Energética de Médio Prazo (PAR/PEL 2026), elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que não prevê aumento da capacidade de escoamento para o Nordeste até 2031. O documento considera projetos já autorizados e indica que a região não terá margem para novas conexões no período.
Na prática, isso reduz o espaço para novos empreendimentos e pressiona até quem já está operando. Hoje, parte das usinas é obrigada a reduzir a geração em determinados horários para evitar sobrecarga no Sistema Interligado Nacional (SIN). Esse corte forçado, conhecido como curtailment, ocorre quando há mais energia sendo produzida do que a rede consegue transportar. No segundo trimestre de 2025, os cortes afetaram 16% da produção solar centralizada do Ceará, segundo relatório do Bradesco BBI.
O curtailment corrói a previsibilidade que projetos estratégicos exigem, como os de hidrogênio verde e data centers. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia-CE), Luís Carlos Queiroz, a raiz do problema está no descompasso histórico entre geração e transmissão. “Esse desequilíbrio decorre principalmente da falta de sincronização entre a expansão da geração e da transmissão.
A infraestrutura necessária para escoar essa energia não acompanhou o mesmo ritmo dos projetos, resultando nas restrições operativas que hoje impactam o Estado”, afirma. As consequências já se materializam em decisões de mercado. “O cenário já tem levado à postergação e até à desistência de novos investimentos. Sem previsibilidade, o custo do capital aumenta e a competitividade do Estado diminui”, diz o executivo. O CEO da Qair Brasil, Armando Abreu, reforça. “Para o governo federal resolver os problemas de conexão que nós temos no Nordeste atualmente, possivelmente são 5 a 10 anos.
Mas se continuar da forma que está, 15, 20 anos”, disse o executivo em entrevista ao O Otimista em março. “Sem linhas de transmissão e sem armazenamento, não há como absorver o excedente”, completa. Segundo Luiz Carlos, é essencial garantir segurança regulatória e jurídica para os investidores. “Também é necessário revisar diretrizes recentes que priorizaram térmicas, com custos elevados”, ressalta.
Leilões
A responsabilidade não pode ser atribuída ao acaso. A expansão das linhas de transmissão é definida em âmbito federal, por meio de leilões conduzidos pelo governo e regulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O modelo é lento por estrutura, e essa lentidão tem custos, representado perda concreta de investimentos, empregos e arrecadação. O economista Thiago Holanda, e especialista em energias renováveis, reforça que o modelo de leilões opera em velocidade incompatível com o crescimento da geração renovável.
“O ONS mostrou que a expansão das fontes variáveis na região avançou, enquanto a infraestrutura e os critérios operativos ficaram para trás. Além disso, mesmo quando o leilão acontece, a entrega das obras leva anos. No certame de 2026, a própria Aneel indicou prazos de 42 a 60 meses para conclusão, e no Ceará há lotes estruturantes com término previsto apenas para 2029”, ressalta.
O tamanho do risco fica ainda mais evidente quando se observa o projeto do data center da ByteDance, dona do TikTok, cujo investimento é de R$ 200 bilhões. Para funcionar, depende de fornecimento contínuo de energia e água.“No estágio atual, eu diria que não é suficiente de operar com folga. Isso exige não apenas energia, mas conexão firme, estabilidade, redundância e qualidade elétrica, atributos que dependem de rede robusta e tempo de maturação da infraestrutura”, ressalta.






