Os conflitos recentes no Oriente Médio são apenas um dos fatores que afetam os frigoríficos brasileiros e até a alimentação do brasileiro. A redução no rebanho dos Estados Unidos e as tarifas impostas sobre a importação de carne bovina na China também afetam as companhias. Enquanto isso, os preços no Brasil continuam altos, tendo impactos na inflação e no seu churrasco.
O ano começou com alta nas exportações de carne bovina, suína e de frango, impulsionadas pela demanda internacional resiliente, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
O problema é a rentabilidade. No segmento de carne bovina no Brasil, a margem, ou a diferença entre o preço pago pelo boi pelos frigoríficos e a receita obtida com a venda das carnes caiu 8% em relação ao mês anterior, devido à alta de 7% nos preços do gado e à queda dos preços em reais.
Rebanhos menores nos EUA
Parte do aumento das exportações brasileiras vem de uma crise nos Estados Unidos. O rebanho bovino está nos menores níveis dos últimos 75 anos. São 86,2 milhões de cabeças de gado, menor nível desde 1951.
O preço da carne por lá disparou nos últimos meses, o que incentivou o abate de diversos animais, inclusive matrizes, justamente as vacas responsáveis por gerar mais bezerros e manter o rebanho em crescimento.
Reverter essa tendência não é fácil: a gestação de um bezerro leva nove meses, e demora de dois a três anos até que ele esteja pronto para o abate. Ou seja, o fim desse ciclo ainda está longe.
E isso não tem impacto apenas no barbecue norte-americano. Os frigoríficos brasileiros também têm operações por lá: a JBS, por meio da marca Pilgrim’s, e a MBRF, com a marca National Beef, ao lado das norte-americanas Tyson Foods e Cargill, dominam mais de 80% do mercado norte-americano.
Nos EUA, as margens da carne bovina permanecem próximas de mínimas históricas. Entre as empresas do setor, JBS permanece como a única com recomendação de compra, tanto para BTG Pactual quanto para o Citi.
O Citi considera que o cenário internacional favorece o Brasil. “A oferta global de carne bovina permanece restrita, especialmente por causa do ciclo pecuário nos Estados Unidos, que atravessa um dos níveis mais baixos em décadas. Esse quadro sustenta preços elevados e fortalece a competitividade brasileira no mercado externo”, diz relatório.
Tarifas chinesas contra importação
Do outro lado do mundo, o mercado chinês também taxou as importações de carne bovina. No último dia do ano passado, a China impôs tarifas de 55% para a importação de carne bovina, com cotas isentas de taxas para os países. A cota chinesa tem uma validade de três anos, durante os quais as tarifas irão diminuir e o tamanho da cota, aumentar.
O Brasil é o maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, com a carne mais barata — e isso acabou incomodando os frigoríficos chineses, que não estavam conseguindo competir no próprio território com os preços baixos brasileiros.
Há uma cota para a carne isenta, porém, se a China mantiver os níveis de importação do ano passado, essa cota deve se esgotar por volta de agosto deste ano.
Por isso, muitos estão antecipando as vendas. Isso é mais uma pressão em cima dos preços da carne, segundo Cesar de Castro Alves, gerente de Consultoria Agro do Itaú BBA.
Entre as alternativas para redirecionar a carne bovina que iria para a China, os frigoríficos podem vender para países que ainda não preencheram a cota com a China, para que eles então aumentem as exportações para lá.
Não há um único país que consiga dar conta de uma oferta tão grande, mas há algumas oportunidades. Os Estados Unidos, por exemplo, terão uma produção muito menor de carne bovina no ano e precisarão aumentar as importações para manter os preços equilibrados. O mesmo acontece com Argentina, Austrália e Uruguai.
Outro problema da cota é o preço médio da carne. Como a China tem uma demanda muito grande, o país pagava um preço mais alto para garantir a entrega. Entre os frigoríficos brasileiros, a Minerva é o que mais exporta para a China a partir do Brasil.
Preço internacional afeta supermercado brasileiro
Ainda que a maior parte da produção de carne bovina, cerca de 63%, seja destinada ao ambiente doméstico, o preço internacional é bastante relevante para os produtores e frigoríficos. Aqueles que têm certificações para vender no exterior sempre vão buscar o melhor preço, seja aqui ou lá fora.
“Como os preços do mercado externo são interessantes, os frigoríficos sabem operar bem esse mercado. Quando desmontam o boi, cada corte tem um destino”, diz Alves.
Mesmo com as restrições impostas pela China, não deve sobrar carne no Brasil. As exportações para os EUA compensam parte desse movimento, assim como a restrição na oferta de gado interna.
Também por aqui há redução no número de fêmeas disponíveis e, consequentemente, de bezerros, chegando perto de mínimas históricas. É um movimento cíclico comum no mercado bovino, embora esteja mais intenso no momento.
Com isso, a oferta deve cair de 700 a 800 mil toneladas no Brasil neste ano, diz Wagner Yanaguizawa, especialista em proteína animal do banco Rabobank.
Carne mais cara
No Brasil, o que já está acontecendo é o aumento da retenção dos bois no campo, quando o pecuarista decide deixar o boi no pasto, em vez de finalizar a criação em confinamento.
Assim, o preço deve continuar em alta. “A gente não trabalha com um cenário de queda de preço persistente. O pecuarista vai cortar a oferta”, afirma.
Apenas no ano passado, o preço do boi gordo já subiu 22,5%. “Uma parcela da população não vai conseguir absorver os preços mais altos e deve migrar para proteínas mais baratas”, diz Yanaguizawa.
“O aumento de 10% nos preços do gado no acumulado do ano sugere que a retenção já começou a ganhar forma”, afirmam analistas do BTG Pactual em relatório.
Ainda que o aumento do preço da carne possa beneficiar os frigoríficos com receitas maiores, deve afetar a inflação.
A alimentação corresponde a cerca de um quinto dos gastos dos consumidores e, dentro dessa categoria, as carnes representam 20%. Então o prato feito do brasileiro irá ficar ainda mais salgado.






