O mercado financeiro brasileiro registrou uma das sessões mais turbulentas de sua história nesta segunda-feira (26), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ibovespa chegou a cair 17,34% durante o pregão, enquanto o dólar disparou no mercado futuro e as taxas de juros futuros avançaram fortemente. A reação refletiu a frustração de investidores que vinham apostando em uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) e em uma possível mudança na condução da política econômica.
Diante da intensidade das perdas, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando o Ibovespa atinge uma queda de 10% em relação ao fechamento anterior. Foi a primeira vez desde março de 2020 que a ferramenta precisou ser utilizada para conter a volatilidade do mercado acionário brasileiro.
Na mínima do dia, o principal índice da Bolsa brasileira recuou para 169.516,43 pontos. Por volta das 14h20, o Ibovespa ainda registrava queda de 13,92%, aos 176.456,68 pontos, enquanto diversas ações permaneciam em leilão devido à forte oscilação dos preços.
O movimento ocorreu após Lula vencer o segundo turno das eleições presidenciais no domingo (25), com aproximadamente 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. O resultado contrariou as expectativas de parte dos agentes financeiros, que haviam ampliado a exposição a ativos brasileiros diante da perspectiva de uma vitória da oposição.
Bolsa devolve ganhos acumulados antes da eleição
A queda expressiva do Ibovespa representou uma reversão do movimento observado nas semanas anteriores ao segundo turno. Depois da primeira rodada da eleição, em 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, o mercado passou a apostar em uma possível mudança na orientação econômica do governo.
No pregão seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa avançou 7,70%, encerrando a sessão aos 206.911,89 pontos. O dólar também recuou, enquanto os juros futuros caíram diante da expectativa de uma política fiscal mais restritiva.
Com a reeleição de Lula, investidores passaram a desmontar essas posições. A pressão vendedora atingiu principalmente ações de empresas estatais e companhias sensíveis às condições de financiamento e às decisões do governo.
Os papéis do Banco do Brasil registraram perdas acentuadas, enquanto as ações da Petrobras também recuaram de forma expressiva. Empresas ligadas ao mercado doméstico e dependentes de crédito foram pressionadas pela perspectiva de juros mais elevados por um período prolongado.
Para analistas, o movimento representa uma reprecificação dos ativos, processo pelo qual os investidores ajustam os preços dos investimentos de acordo com novas expectativas econômicas e políticas.
A intensidade da queda também foi ampliada pelo posicionamento prévio do mercado. Como muitos investidores apostavam em um resultado eleitoral diferente, a confirmação da vitória de Lula provocou uma saída rápida de recursos de ativos brasileiros.
Dólar dispara e supera R$ 5,50 no mercado futuro
No câmbio, o resultado eleitoral provocou forte procura por proteção contra a desvalorização do real. O dólar futuro chegou a atingir R$ 5,60, alta de aproximadamente 12,5% em relação ao fechamento anterior, antes de apresentar oscilações ao longo do pregão.
O movimento refletiu a redução da exposição de investidores à moeda brasileira e a busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar. A cotação também incorporou o aumento da percepção de risco sobre a economia do país.
Na sexta-feira (23), antes do segundo turno, o dólar havia encerrado a R$ 4,9931, abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde 9 de outubro. A queda da moeda naquele pregão havia sido associada, em parte, às apostas de investidores em uma vitória de Flávio Bolsonaro.
A mudança abrupta de expectativas provocou a reversão desse movimento. A valorização do dólar no mercado futuro também tende a influenciar as negociações no mercado à vista, embora as cotações possam variar conforme a liquidez e a atuação de investidores e instituições financeiras.
A disparada da moeda americana pode elevar os custos de importação e pressionar os preços de produtos e insumos negociados internacionalmente. Se a desvalorização do real persistir, o movimento também poderá dificultar a trajetória de queda da inflação e limitar o espaço para cortes na taxa básica de juros.
Juros futuros sobem com preocupações fiscais
As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), que servem de referência para o custo do crédito e para as expectativas sobre a política monetária, também avançaram fortemente. Os juros futuros chegaram a subir mais de 260 pontos-base em determinados vencimentos, refletindo a preocupação dos investidores com a trajetória das contas públicas.
Os contratos de prazo mais longo são especialmente sensíveis às expectativas sobre o endividamento do governo, a política fiscal e a capacidade de crescimento econômico. Quando aumenta a percepção de risco, os investidores tendem a exigir uma remuneração maior para manter títulos e assumir compromissos financeiros no país.
Antes do segundo turno, o mercado trabalhava com a possibilidade de cortes graduais da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, nas reuniões seguintes do Comitê de Política Monetária (Copom). Com a reeleição de Lula, porém, parte dos agentes passou a revisar essas projeções, considerando a possibilidade de juros elevados por mais tempo.
A alta das taxas futuras também pode encarecer o financiamento de empresas e famílias, pressionar o custo de novas dívidas e reduzir a atratividade de investimentos produtivos. Para companhias listadas na Bolsa, juros mais altos podem diminuir o valor presente dos lucros esperados, tornando as ações menos atraentes.
Em meio à volatilidade, o Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos públicos que estavam programados para o dia. A decisão buscou evitar a realização de operações em condições consideradas desfavoráveis diante da forte oscilação dos preços e das taxas de mercado.
JP Morgan prevê pressão adicional sobre os ativos brasileiros
A reação negativa também levou instituições financeiras internacionais a revisar suas recomendações para investimentos no Brasil. O JP Morgan reduziu sua recomendação para o real e para títulos brasileiros denominados em moeda local, passando a adotar uma posição neutra em relação a esses ativos.
Em relatório divulgado nesta segunda-feira, o banco afirmou que a reeleição de Lula poderia provocar uma reprecificação significativa dos mercados, uma vez que parte dos investidores estava posicionada para um resultado eleitoral diferente.
A instituição também apontou a possibilidade de uma queda adicional de aproximadamente 20% da Bolsa em relação aos níveis anteriores ao movimento de valorização observado antes da eleição. Para o câmbio, o banco trabalha com um cenário em que o dólar poderia alcançar R$ 5,50, embora ressalte que a evolução das cotações dependerá das primeiras sinalizações econômicas do governo.
As projeções representam estimativas de mercado, e não resultados garantidos. A intensidade da reação dependerá da forma como investidores avaliarem as medidas econômicas anunciadas nos próximos dias e da capacidade do governo de reduzir as incertezas sobre as contas públicas.
Política fiscal será decisiva para a recuperação do mercado
A principal preocupação dos investidores está relacionada à trajetória da dívida pública e à capacidade do governo de controlar o crescimento das despesas. O mercado busca sinais de que a administração federal conseguirá conciliar programas sociais e investimentos com medidas capazes de estabilizar o endividamento.
A escolha da equipe econômica e as primeiras sinalizações sobre o orçamento de 2027 deverão ser acompanhadas de perto. Declarações sobre metas fiscais, gastos públicos e eventuais mudanças nas regras econômicas podem influenciar o comportamento do dólar, dos juros e das ações.
Caso o governo apresente medidas consideradas confiáveis para controlar a dívida, os ativos brasileiros poderão recuperar parte das perdas. Por outro lado, a ausência de sinais claros de ajuste fiscal pode prolongar a pressão sobre os preços e elevar o custo de financiamento do país.
O cenário internacional também continuará relevante, especialmente o comportamento dos juros americanos, a força do dólar global e as tensões geopolíticas. Esses fatores podem ampliar ou atenuar os movimentos domésticos.
Por enquanto, a sessão desta segunda-feira evidencia o tamanho do ajuste provocado pela diferença entre as expectativas eleitorais de parte do mercado e o resultado das urnas. A continuidade da volatilidade dependerá, sobretudo, da capacidade do governo de oferecer previsibilidade econômica e de convencer os investidores de que a trajetória das contas públicas permanecerá sob controle.






