A carne bovina brasileira certificada como livre de desmatamento começou a ganhar espaço no mercado chinês, em uma iniciativa considerada um marco para a pecuária sustentável e para o comércio entre os dois países. A medida busca atender à crescente demanda da China por produtos com maior rastreabilidade ambiental e social, reforçando a posição do Brasil como principal fornecedor de carne bovina para o gigante asiático.
O movimento ocorre por meio da certificação Beef on Track (BoT), desenvolvida pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). O sistema verifica se a cadeia produtiva da carne está livre de desmatamento ilegal, ocupação de áreas protegidas, invasão de terras indígenas e práticas de trabalho análogas à escravidão. A certificação também estabelece diferentes níveis de conformidade socioambiental para frigoríficos e fornecedores.
A implementação começa com um projeto-piloto na China envolvendo a Tianjin Meat Association (TMA) e nove importadores chineses. As empresas participarão de auditorias e testes de rastreabilidade para validar o modelo de certificação antes de uma adoção mais ampla. A expectativa é que o programa permita a comercialização de carne brasileira com o selo de “desmatamento zero” diretamente aos consumidores chineses.
A China é atualmente o principal destino das exportações brasileiras de carne bovina, absorvendo mais de 47% do volume embarcado pelo país. Somente em 2025, mais da metade das exportações brasileiras do produto — cerca de 3,1 milhões de toneladas, avaliadas em US$ 8,8 bilhões — teve como destino o mercado chinês.
Segundo o Imaflora, a iniciativa pretende reproduzir o efeito observado com o chamado “boi China”, padrão que exigiu maior rastreabilidade e critérios específicos para os animais destinados à exportação. A organização acredita que a valorização da carne certificada poderá incentivar produtores a ampliar práticas sustentáveis, reduzindo a pressão sobre biomas como Amazônia e Cerrado.
Além do benefício ambiental, a certificação pode representar ganhos econômicos para a cadeia produtiva. A Tianjin Meat Association sinalizou interesse em adquirir até 50 mil toneladas de carne certificada ao longo de 2026 e discute a possibilidade de pagar um prêmio de até 10% sobre o valor do produto que atingir os níveis mais elevados de conformidade socioambiental.
Especialistas avaliam que a iniciativa reflete uma mudança no perfil dos consumidores e importadores chineses, que passaram a considerar critérios ambientais e de sustentabilidade como parte dos requisitos de qualidade dos alimentos. Nesse contexto, a rastreabilidade e a comprovação de origem livre de desmatamento tendem a se tornar diferenciais competitivos para a carne brasileira no mercado internacional.
O avanço da certificação também reforça a tendência global de exigências ambientais nas cadeias de suprimentos agropecuárias, colocando a sustentabilidade como fator cada vez mais relevante para a manutenção e expansão do acesso a mercados estratégicos.






