O setor de energia renovável brasileiro enfrenta um dos momentos mais desafiadores de sua história. Em junho de 2025, o curtailment – cortes na geração de energia por falta de escoamento ou demanda – atingiu um recorde de 28% da geração solar centralizada, conforme relatório do Bradesco BBI.
O dado preocupa investidores e especialistas, sobretudo em estados do Nordeste como o Ceará, que aparece entre os mais afetados, com 16% da produção solar cortada no segundo trimestre do ano.
O curtailment é uma prática que, embora prevista contratualmente em níveis mínimos, tem extrapolado qualquer normalidade. “O corte de 28% é muito significativo. Em média, os cortes no Brasil giram em torno de 15%. No Ceará, chegam a atingir até 18%”, afirma Luiz Eduardo Moraes, diretor de Geração Centralizada do Sindienergia Ceará.
“Certamente é a maior crise pela qual passa o setor de renováveis no Brasil. A solar está inserida nisso. Os prejuízos são gigantescos”, afirma. Com grande potencial solar e eólico, o Ceará se tornou polo natural para usinas de geração renovável, mas o crescimento acelerado desses empreendimentos não foi acompanhado pela expansão da infraestrutura elétrica necessária. “O Estado teve um crescimento acelerado de projetos intermitentes, mas a rede de transmissão não acompanhou, nem o aumento da carga. Quando a oferta supera a demanda local, o ONS precisa limitar a geração”, explica Mariana Cavalcanti, coordenadora de engenharia da Kroma Energia.
De acordo com Marília Brilhante, diretora da Energo Soluções, essa limitação representa não apenas perda de energia limpa, mas de receita. “Estamos jogando fora basicamente um terço do que está sendo gerado. Isso compromete totalmente a viabilidade dos empreendimentos”, alerta. Segundo ela, o impacto é direto no retorno dos investimentos, no cumprimento de contratos e na confiança do mercado. Além de afetar empreendimentos já em operação, o cenário inibe novos investimentos. “Naturalmente, o investidor vai dar um passo para trás e aguardar soluções claras do mercado regulador, operador e planejador do sistema”, reforça Eduardo Moraes.
Marília Brilhante acrescenta que os efeitos vão além do setor solar: “Compromete também o desenvolvimento de cadeias como hidrogênio verde e data centers. Se não conseguimos conectar a geração limpa, deixamos de ser competitivos em setores estratégicos para o futuro”. A raiz do problema está no descompasso entre a geração e o escoamento. Enquanto 75% da energia renovável do Brasil é gerada no Nordeste, o principal centro de consumo está no Sul e Sudeste, regiões com redes de transmissão mais robustas. “No Brasil, o avanço das fontes renováveis não foi acompanhado pela infraestrutura de transmissão. Isso gerou um excedente de energia que não conseguimos transportar”, aponta Moraes.
Soluções
Diante da gravidade do cenário, especialistas são unânimes: é urgente avançar em políticas públicas e soluções estruturais. “Medidas devem ser tomadas para minimizar os cortes. O uso de armazenamento de energia, por exemplo, precisa ser incentivado e regulamentado”, defende Mariana Cavalcanti. Marília Brilhante também destaca a necessidade de modernização da rede e de critérios mais rígidos para outorgas: “Projetos não podem ser aprovados em regiões onde a rede já está saturada. Sem essa reorganização, o Brasil perde competitividade justamente no setor em que mais avançou”, explica.
Apesar do discurso institucional de transformação energética, como o posicionamento do Complexo do Pecém como hub de hidrogênio verde, o cenário atual exige coerência entre ambição e realidade. “O discurso está tecnicamente correto, mas desalinhado da realidade da rede. Sem reforço na infraestrutura, o curtailment continuará”, alerta.
Para Luiz Eduardo Moraes, o impacto é nacional, mas a resposta precisa ser rápida. “Se não solucionarmos esse problema logo, a transição energética no Brasil será comprometida. Quanto mais tempo levar, maior será o prejuízo.”






