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Início Investimentos Exterior

De que maneira Trump debilitou o dólar e contribuiu para a valorização do real?

Carla Santiago por Carla Santiago
27 de abril de 2026
em Exterior
De que maneira Trump debilitou o dólar e contribuiu para a valorização do real?

Ilustração: Roberta Ribeiro/Gazeta do povo

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Se tem alguma coisa chamando a atenção do mercado atualmente, é a recente valorização do real frente ao dólar. E isso com certeza está surpreendendo investidores.

Por mais que muitos acreditem, parte desse movimento, segundo especialistas, não está necessariamente ligado a uma melhora estrutural da economia brasileira. Mas, sim, ao enfraquecimento global da moeda americana, principalmente diante das incertezas geradas pelo histórico e política econômica de Donald Trump.

Retorno de Donald Trump marcado por gastos

Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, o mercado passou a reprecificar riscos relacionados ao cenário fiscal e comercial dos Estados Unidos.

Propostas de redução de impostos combinadas com aumento de gastos públicos, além de sinalizações protecionistas, elevaram a percepção de risco sobre a economia americana e reduziram parte da força do dólar.

“A leitura mais técnica sobre o enfraquecimento recente do dólar passa pela reprecificação de riscos associados à política fiscal e comercial dos Estados Unidos”, afirma Christian De Luca, advogado especializado em Direito Empresarial e sócio do escritório Domenico de Luca Law.

Segundo ele, no campo fiscal, a combinação entre cortes de carga tributária e expansão de gastos aumenta a expectativa de deterioração das contas públicas americanas. Além, do crescimento da dívida pública, o que pressiona a moeda.

“Esse tipo de combinação tende a aumentar a necessidade de financiamento do Tesouro americano e pode reduzir a atratividade relativa dos ativos denominados em dólar”, explica.

Além da questão fiscal, a política comercial também pesa. A sinalização de ampliação de tarifas e medidas protecionistas aumenta a incerteza sobre o comércio global e sobre as cadeias produtivas, reduzindo a previsibilidade para investidores institucionais.

“Esse ambiente afeta negativamente a confiança e leva o investidor a exigir maior prêmio de risco para manter exposição em ativos americanos”, acrescenta De Luca.

Dólar mais fraco favorece moedas emergentes

Quando o dólar perde força globalmente, moedas de países emergentes tendem a se beneficiar, especialmente aquelas de economias que oferecem juros elevados, como o Brasil.

Nesse cenário, o real ganha força não apenas por fatores domésticos, mas principalmente pelo diferencial de juros oferecido pelo país.

“A apreciação do real, em momentos como o atual, é explicada predominantemente por fatores externos. O principal motor recente é a perda de força global do dólar”, afirma o especialista.

Com a taxa Selic ainda em patamar elevado, o Brasil segue atraente para operações de carry trade. Uma estratégia em que investidores buscam retorno em mercados com juros mais altos.

“O Brasil se destaca porque oferece diferencial de juros elevado. Isso atrai fluxo de capital estrangeiro e fortalece o real no curto prazo”, diz.

Ainda assim, o ambiente doméstico também contribui. Controle inflacionário, estabilidade macroeconômica e um sistema financeiro considerado sólido. Assuntos que ajudam a reduzir a percepção de risco e tornam o país mais competitivo na disputa global por capital.

“O cenário interno não é o principal responsável pela valorização, mas funciona como condição necessária para que o Brasil consiga capturar esse fluxo internacional”, explica.

Movimento pode durar?

Apesar do enfraquecimento recente, especialistas não veem uma perda estrutural e definitiva de protagonismo do dólar. A moeda americana segue como principal reserva global e mantém forte resiliência no sistema financeiro internacional.

Segundo De Luca, o que está em curso hoje é uma reavaliação de expectativas, e não necessariamente uma ruptura permanente.

“Movimentos cambiais ligados a eventos políticos costumam ter natureza cíclica e podem se reverter à medida que novas informações são incorporadas pelo mercado”, afirma.

No entanto, se políticas de expansão fiscal, aumento do endividamento e intensificação de disputas comerciais se consolidarem como diretrizes permanentes, o impacto pode deixar de ser apenas conjuntural.

“Nesse cenário, o mercado passa a reavaliar estruturalmente o risco dos ativos americanos, o que pode gerar um período mais prolongado de enfraquecimento do dólar”, diz.

Ainda assim, ele pondera que dificilmente haveria uma perda abrupta da relevância da moeda americana.

“O cenário mais plausível é o de volatilidade prolongada, com alternância entre períodos de fortalecimento e enfquecimento, sempre condicionada à evolução das políticas econômicas dos Estados Unidos e à resposta dos mercados internacionais”, conclui.

Tags: dolareconomiainvestimentos

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