Grandes empresas farmacêuticas globais estão ampliando a busca por medicamentos desenvolvidos na China e recorrendo a contratos de licenciamento para ter acesso a novas tecnologias e candidatos em desenvolvimento. O movimento ganhou força em 2026 e vem transformando as empresas chinesas de biotecnologia em importantes fontes de inovação para multinacionais do setor.
Um dos exemplos mais recentes é o acordo entre a suíça Novartis e a chinesa Abogen, anunciado nesta sexta-feira, 2 de outubro. A parceria pode alcançar cerca de US$ 7,8 bilhões e prevê o desenvolvimento de terapias baseadas em RNA. A Novartis terá direitos exclusivos sobre o medicamento experimental ABO2203, além de opções para licenciar outros tratamentos desenvolvidos a partir da plataforma tecnológica da Abogen.
O negócio ocorre poucos dias depois de a Novo Nordisk fechar um acordo de até US$ 2,6 bilhões com a chinesa Jiangsu Hengrui Pharmaceuticals para obter os direitos de desenvolvimento e comercialização fora da China de uma pílula experimental para perda de peso. A sequência de operações reforça a crescente importância da China na estratégia de pesquisa e desenvolvimento das grandes farmacêuticas.
China ganha espaço na inovação farmacêutica
A mudança representa uma evolução importante no papel da indústria chinesa. Durante décadas, o país foi associado principalmente à produção de medicamentos e princípios ativos, mas as empresas locais passaram a desenvolver moléculas próprias, ampliar investimentos em pesquisa e acelerar testes clínicos.
Dados compilados pelo JPMorgan mostram o avanço dessa tendência. No primeiro trimestre de 2026, medicamentos originados em empresas chinesas representaram metade dos grandes negócios globais de licenciamento com pagamentos iniciais superiores a US$ 50 milhões. No período, foram anunciados sete acordos desse tipo, envolvendo US$ 2,6 bilhões em pagamentos iniciais e participação acionária.
O resultado representa uma mudança expressiva em relação aos anos anteriores. Em 2021, os ativos de origem chinesa respondiam por apenas 5% dos grandes acordos de licenciamento considerados pelo levantamento. A participação passou para 39% em 2025 e chegou a 50% nos primeiros três meses de 2026.
Multinacionais procuram novos medicamentos
O interesse das farmacêuticas estrangeiras está relacionado, entre outros fatores, à necessidade de renovar seus portfólios de medicamentos. A aproximação de vencimentos de patentes de produtos importantes aumenta a pressão para encontrar novos tratamentos capazes de gerar receitas nos próximos anos.
Nesse cenário, licenciar um medicamento desenvolvido por uma empresa chinesa pode permitir que uma multinacional tenha acesso a uma molécula promissora sem precisar assumir sozinha todo o custo e o tempo necessários para desenvolver um tratamento desde os primeiros estágios.
Os contratos normalmente envolvem um pagamento inicial à empresa responsável pela descoberta e valores adicionais condicionados ao cumprimento de etapas de desenvolvimento, aprovação regulatória e comercialização. Também podem incluir royalties sobre as vendas futuras.
Em fevereiro, a Reuters informou que o valor dos acordos de licenciamento de medicamentos desenvolvidos na região da Grande China havia alcançado um recorde de US$ 137,7 bilhões em 2025, quase dez vezes o nível registrado em 2021. Para 2026, analistas projetavam uma nova expansão desse mercado.
Acordos bilionários se multiplicam
A dimensão financeira dos contratos também aumentou. Entre os principais negócios de 2026 está o acordo de até US$ 18,5 bilhões entre a AstraZeneca e a CSPC Pharmaceutical Group envolvendo candidatos para obesidade e controle do peso. A AbbVie, por sua vez, assinou com a RemeGen um contrato que pode alcançar US$ 5,6 bilhões para um tratamento experimental contra tumores sólidos.
A Novo Nordisk também ampliou sua presença no mercado chinês com o acordo com a Hengrui. A operação prevê pagamento inicial de US$ 300 milhões e até US$ 2,3 bilhões adicionais em pagamentos relacionados a desenvolvimento, regulamentação e comercialização. O medicamento HRS-1596 é um candidato oral de administração semanal que atua sobre os receptores GLP-1 e GIP.
A concentração de grandes negócios em diferentes áreas, como oncologia, obesidade, doenças metabólicas e terapias baseadas em RNA, mostra que o interesse das multinacionais não está restrito a uma única categoria de medicamentos.
Relação entre China e grandes farmacêuticas enfrenta desafios
Apesar do crescimento dos acordos, as negociações envolvendo empresas chinesas também enfrentam obstáculos regulatórios e geopolíticos. Nos Estados Unidos, autoridades discutem regras para investimentos de empresas farmacêuticas no país asiático, ao mesmo tempo em que avaliam restrições relacionadas à segurança nacional.
Em setembro, fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que o governo norte-americano trabalhava em regras que poderiam preservar a possibilidade de empresas farmacêuticas dos Estados Unidos realizarem a maior parte dos contratos de licenciamento com companhias chinesas, desde que determinados setores considerados sensíveis não fossem envolvidos. As regras ainda estavam em elaboração e poderiam sofrer alterações.
Mesmo diante dessas incertezas, a crescente quantidade de contratos indica que as multinacionais passaram a considerar a China uma fonte relevante de medicamentos experimentais e tecnologias farmacêuticas. Para as empresas chinesas, os acordos oferecem acesso a capital, experiência regulatória e redes internacionais de desenvolvimento e comercialização.
A tendência também pode aumentar a competição entre centros globais de pesquisa farmacêutica. Com a expansão da capacidade científica chinesa e o interesse crescente das multinacionais, a indústria do país asiático passa a ocupar um espaço maior na cadeia mundial de inovação e no desenvolvimento de medicamentos de próxima geração.






