A rápida expansão da infraestrutura de inteligência artificial (IA) está sendo sustentada, cada vez mais, por financiamentos via dívida e estruturas sofisticadas de engenharia financeira, segundo análise publicada pelo Carson Group. A gestora destaca que o forte aumento dos investimentos em data centers, chips e capacidade computacional tem reduzido o fluxo de caixa das grandes empresas de tecnologia, levando o setor a buscar novas formas de financiamento para manter o ritmo da corrida pela IA.
De acordo com o economista-chefe de mercado do Carson Group, Sonu Varghese, as projeções de investimentos das chamadas hyperscalers — empresas como Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle — aumentaram significativamente ao longo de 2026. A estimativa para os gastos de capital neste ano passou de US$ 515 bilhões para cerca de US$ 775 bilhões, enquanto os investimentos previstos para 2027 já superam US$ 1 trilhão. Esse crescimento acelerado vem consumindo grande parte da geração de caixa dessas companhias.
Segundo o estudo, a consequência direta é uma mudança na forma de financiar a expansão da infraestrutura de IA. Em vez de depender apenas de recursos próprios, as gigantes de tecnologia passaram a recorrer de maneira mais intensa ao mercado de capitais, emitindo títulos de dívida e estruturando operações com fundos de investimento, gestoras de ativos e veículos financeiros especializados.
Um dos exemplos citados é a iniciativa liderada pela Nvidia, que firmou memorandos de entendimento com grandes gestoras de investimentos, como BlackRock, Apollo, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR, para criar plataformas independentes de financiamento voltadas à construção de infraestrutura de IA. O objetivo é mobilizar mais de US$ 500 bilhões em capital de terceiros para financiar centros de processamento de dados e novos projetos de computação de alta performance.
Na avaliação do Carson Group, esse modelo representa uma evolução da chamada engenharia financeira aplicada ao setor de tecnologia. Em vez de manter todo o risco nos balanços das empresas desenvolvedoras de chips e infraestrutura, parte relevante do financiamento passa a ser assumida por investidores institucionais, que utilizam contratos de longo prazo e ativos tecnológicos como garantias das operações. Essa estrutura amplia a capacidade de investimento, mas também aumenta a dependência do mercado de crédito.
Ao mesmo tempo, analistas observam que o crescimento acelerado das emissões de dívida começa a testar o apetite dos investidores. Dados da Reuters mostram que empresas de tecnologia já emitiram cerca de US$ 220 bilhões em títulos relacionados ao financiamento de projetos de IA em 2026, provocando aumento dos prêmios exigidos pelo mercado e sinais de saturação entre alguns grandes compradores de renda fixa. Embora a qualidade de crédito das companhias permaneça elevada, o volume crescente de emissões tem pressionado os spreads e elevado o custo de captação.
Para especialistas, a expansão da inteligência artificial continua sendo um dos principais motores de investimento da economia global, mas a crescente dependência de financiamentos por dívida adiciona um novo elemento de risco ao setor. Caso o custo do crédito permaneça elevado ou a demanda por infraestrutura de IA desacelere, empresas e investidores poderão enfrentar um ambiente mais desafiador para sustentar o atual ciclo de expansão tecnológica.






