Uma das maiores redes hoteleiras do mundo revela os aprendizados de uma ambiciosa aposta em economia circular que vem sendo implementada em mais de 100 hotéis espalhados por 14 países — incluindo unidades no Brasil. A iniciativa, liderada pela Iberostar, transformou práticas internas, operações e relações com fornecedores em uma jornada que resultou em uma redução de mais de 80% do lixo enviado a aterros sanitários, segundo relatório divulgado nesta semana.
Há quatro anos, a empresa espanhola decidiu reestruturar sua atuação em sustentabilidade com um objetivo claro: eliminar o envio de resíduos para aterros. O movimento que começou como uma meta ambiental tornou-se, na avaliação de executivos, uma mudança estrutural nos modelos de gestão — e um exemplo para o setor hoteleiro global.
O recente relatório, produzido em parceria com a Organização das Nações Unidas para Turismo e a Circle Economy, vai além de contabilizar resultados, oferecendo um guia prático para outras redes adotarem a circularidade como estratégia central. Seus autores destacam que, no setor de hospedagem, cerca de 70% das emissões de CO₂ estão ligadas à cadeia de suprimentos — desde a produção de bens e serviços até o descarte — e não apenas às operações dos hotéis em si.
Três pilares para a transformação
De acordo com o estudo, a mudança na Iberostar foi sustentada por um “tripé da circularidade”: pessoas, dados e inovação. Mais de 250 profissionais foram treinados e designados para gerir resíduos com foco nos princípios de reduzir, reutilizar e reciclar. Ferramentas de inteligência artificial foram ainda introduzidas em cozinhas de dezenas de unidades para monitorar e reduzir o desperdício de alimentos em tempo real.
A iniciativa também influenciou decisões de compra e o próprio design arquitetônico dos hotéis, levando os gestores a pensar em materiais que possam ser facilmente desmontados e reaproveitados no futuro — um passo além da reciclagem tradicional.
Desafios e propostas para o setor
Apesar dos resultados positivos, o relatório reconhece limites para mudanças unilaterais: a falta de infraestrutura de reciclagem eficiente em muitos destinos turísticos e barreiras culturais internas continuam a dificultar a expansão das práticas circulares.
Para superar esses obstáculos, a publicação propõe cinco frentes de atuação: compras circulares, operações mais eficientes, construção sustentável, cultura empresarial engajada e o desenvolvimento de destinos circulares — espaços onde hotéis e comunidades locais crescem juntos em direção a modelos de economia regenerativa.
Representantes da ONU Turismo afirmam que a transição para práticas circulares e regenerativas não é apenas uma questão ambiental, mas também uma estratégia para fortalecer competitividade, resiliência e criação de valor a longo prazo em um setor que, globalmente, responde por milhões de toneladas de emissões por ano.






