O Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) entra em uma nova fase de desenvolvimento, marcada pela transição energética, digitalização e inovação. Depois de se consolidar como um dos principais polos industriais e logísticos do Brasil, com a primeira Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do país e uma parceria estratégica com o Porto de Roterdã, o Pecém se reposiciona como epicentro da economia verde e digital.
Com localização geográfica estratégica, próxima à Europa, aos Estados Unidos e ao Norte da África, e uma infraestrutura portuária moderna integrada à ZPE, o Complexo se prepara para receber grandes investimentos nos setores de hidrogênio verde (H₂V) e data centers, fortalecendo o Ceará como destino global para energia limpa e tecnologia.
Hidrogênio verde e data centers
O Pecém desponta como o berço do hidrogênio verde no Brasil. A EDP produziu ali a primeira molécula de H₂V do país, abrindo caminho para outros projetos de grande porte, como os da Qair Brasil e Casa dos Ventos, que também apostam no potencial energético da região.
Segundo o Governo do Estado, já foram assinados mais de 30 memorandos e pré-contratos com empresas nacionais e internacionais interessadas em instalar plantas de produção de hidrogênio verde no Ceará.
De acordo com o governador Elmano de Freitas, o Estado vive “um momento histórico de consolidação de sua vocação para a energia limpa e sustentável”. A infraestrutura do Pecém, aliada à segurança jurídica e à capacidade técnica do Ceará, cria um ambiente ideal para novos investimentos.
O equipamento também caminha para se tornar um dos principais polos digitais e de energia limpa da América Latina. A Casa dos Ventos, considerada a maior desenvolvedora de projetos de energias renováveis do Brasil, surpreendeu o mercado ao anunciar investimentos bilionários no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
Os empreendimentos incluem um megadata center e uma planta de amônia verde, ambos abastecidos 100% por energia renovável, aproveitando a matriz limpa e estratégica do Estado.
O Data Center Pecém, desenvolvido pela Casa dos Ventos em parceria com a ByteDance, controladora do TikTok, promete transformar o Ceará em um hub digital do Nordeste. Segundo a companhia, será o maior centro de dados da América Latina e um dos maiores do mundo, com consumo de até 876 megawatts de energia elétrica e investimentos estimados em R$ 150 bilhões.
O projeto será implantado em duas fases e deverá gerar mais de 8 mil empregos diretos e indiretos, além de impulsionar a formação de mão de obra qualificada na região.
Entre os benefícios sociais previstos estão a criação de um Centro Tecnológico, programas de capacitação profissional e a inclusão digital de cerca de 200 escolas públicas, que receberão internet de alta velocidade.
O sistema de refrigeração do Data Center contará com consumo mínimo de água, utilizando apenas 30 metros cúbicos por dia, volume equivalente ao gasto médio de 72 residências. O projeto se alinha à política estadual de sustentabilidade, que prevê o uso de água de reúso e tecnologias de baixo impacto ambiental em todas as novas indústrias instaladas no Estado.
O segundo empreendimento, a planta de Amônia Verde, também será construída no Pecém e utilizará vento, sol e água de reúso para produzir combustível sustentável. Com capacidade de 1,2 gigawatt de eletrólise, a estrutura converterá o hidrogênio em amônia, voltada principalmente à exportação, posicionando o Brasil como um dos protagonistas do mercado global de moléculas verdes.
Para viabilizar ambos os projetos, a Casa dos Ventos construirá novos parques de geração renovável, adicionando 6,6 gigawatts à matriz elétrica nacional, com investimentos adicionais de cerca de R$ 25 bilhões.
De acordo com a companhia, a iniciativa “marca um novo capítulo da história do Brasil”, consolidando o Ceará como referência mundial em tecnologia, inovação e transição energética.
O presidente do Complexo do Pecém, Max Quintino, destaca que os novos investimentos confirmam o potencial do Estado para liderar a economia verde e digital. “O Pecém mostra mais uma vez sua capacidade de se reinventar e de atrair grandes projetos alinhados às demandas do futuro”, afirma.
ZPE: liderança global e inovação
O início das atividades da ZPE Ceará, em agosto de 2013, marcou um ponto de virada no desenvolvimento industrial do Estado. Três anos depois, em 2016, o Ceará exportava a primeira placa de aço produzida pela siderúrgica instalada no Setor I da zona de processamento, em São Gonçalo do Amarante, município que, naquele mesmo ano, se tornaria o maior exportador do Estado.
Desde então, os produtos siderúrgicos permanecem como as principais cargas movimentadas pelo Ceará, simbolizando o impacto duradouro da industrialização iniciada no Complexo do Pecém.
Com o Setor II já preparado para receber novos investimentos, especialmente voltados à produção de hidrogênio verde, a ZPE Ceará assume hoje um papel estratégico na transição energética do Brasil. Seis pré-contratos já foram assinados para a instalação de unidades fabris de hidrogênio verde dentro da poligonal, com empresas como AES Brasil, Casa dos Ventos, Cactus Energia, Fortescue, FRV e Voltalia, somando mais de US$ 8 bilhões em investimentos previstos até 2030 e 500 hectares reservados para implantação.
Atualmente, operam no local a Phoenix do Pecém, a White Martins e a ArcelorMittal Pecém, reforçando a vocação industrial do complexo.
A trajetória da ZPE é considerada um exemplo de como políticas de Estado e planejamento de longo prazo podem impulsionar o desenvolvimento econômico e gerar empregos qualificados.
Desde a instalação da siderúrgica, o projeto foi responsável por dobrar o PIB industrial do Ceará, consolidando-se como uma referência nacional em zonas de processamento de exportação.
A meta, agora, é transformar as vantagens comparativas do Estado como localização estratégica, infraestrutura portuária e matriz energética limpa em vantagens competitivas globais.
A relevância ganhou ainda mais projeção mundial com o recente reconhecimento da fDi Intelligence, publicação vinculada ao jornal britânico Financial Times, que elegeu a ZPE Ceará como a melhor zona franca do mundo na edição 2025 do Global Free Zones of the Year.
Além do título principal, a ZPE também foi agraciada com o prêmio de Global Industrial Free Zone of the Year, consolidando sua liderança no segmento industrial e reforçando o papel estratégico do Ceará no cenário global de exportações.
O reconhecimento chega em um momento de expansão acelerada: apenas um ano após figurar entre as dez melhores zonas francas do planeta, a ZPE Ceará superou mais de 80 concorrentes internacionais, destacando-se pela diversificação de estratégias de atração de investimentos, aumento do espaço ocupado, geração de empregos e fortalecimento da confiança junto a parceiros locais e estrangeiros.
Oportunidades e desafios
Segundo pesquisa da CNI em parceria com a Fiec, o avanço da economia verde e digital no Ceará deve gerar alta demanda por profissionais qualificados em engenharia, tecnologia da informação, automação, energias renováveis e logística portuária.
O desafio, agora, é manter a competitividade diante da rápida transformação global. A antiga ideia de uma refinaria, símbolo de um modelo energético do passado, cede espaço a um novo paradigma baseado em sustentabilidade, digitalização e integração internacional.
Quem tem a ganhar não é apenas o Senai; é o estado do Ceará, pois os próprios players que estão vindo, no contexto das energias renováveis, vão precisar de capacitação”, afirma o diretor regional do Senai-CE e Superintendente do Sesi-CE, Paulo André Holanda.
O Pecém segue fiel à sua vocação de reinvenção. Desde a siderurgia e exportação de aço até a era do hidrogênio e dos data centers, o porto mostra capacidade de adaptação às demandas de cada tempo. O Pecém é a prova de que o Ceará sabe se reinventar.
REPORTAGEM






