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O receio em relação ao dólar se agrava com o ‘America First’ de Trump, mesmo após um período de alívio

Carla Santiago por Carla Santiago
2 de fevereiro de 2026
em Exterior
O receio em relação ao dólar se agrava com o ‘America First’ de Trump, mesmo após um período de alívio

Fonte: Getty Images

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Para parte dos mercados financeiros, trata-se da chamada “aposta na desvalorização”. Para outros, é vender, fazer hedge ou até “abandonar silenciosamente” os Estados Unidos. Seja qual for o nome, operadores de câmbio de Tóquio a Nova York voltaram a se posicionar na semana passada, desencadeando uma onda de vendas que levou o dólar à maior queda desde as salvas tarifárias de abril do presidente Donald Trump.

No centro do movimento está novamente Trump. Seu segundo mandato foi marcado por uma queda de quase 10% no índice Bloomberg Dollar Spot, levando a moeda americana ao nível mais baixo desde 2022.

A retomada das ameaças tarifárias, a tentativa de pressionar o Federal Reserve a cortar juros, declarações sobre domínio no hemisfério ocidental e o confronto com aliados europeus ao defender que os EUA assumam o controle da Groenlândia levaram muitos investidores a reduzir a exposição ao dólar. A polarização política e os crescentes riscos fiscais internos também pesam.

Ao mesmo tempo, investidores voltaram a comprar proteção contra uma queda mais profunda da moeda, o que poderia reduzir o valor de ações e títulos americanos, reforçando a pressão.

Outro fator em evidência é a suspeita de que, apesar do discurso oficial de apoio a um dólar forte, o governo estaria disposto a tolerar — ou até desejar — uma moeda mais fraca para tornar os produtos americanos mais competitivos no exterior.

Isso reforça uma conclusão que vem ganhando força nos mercados: a visão “America First” de Trump e sua ruptura com a ordem econômica do pós-guerra criam novos riscos para investidores estrangeiros, que durante anos compraram ativos americanos e ajudaram a financiar a dívida pública dos EUA por meio de trilhões de dólares em Treasuries.

“O dólar está seguindo o caminho de menor resistência, para baixo”, afirmou Padhraic Garvey, chefe de pesquisa para as Américas no ING, em Nova York. Segundo ele, essa parece ser a preferência implícita da administração — “mas não fraco demais, rápido demais”.

As dúvidas ajudaram a empurrar o dólar para uma queda de 1,3% em janeiro, o pior desempenho mensal desde agosto. Houve alívio na última sexta-feira, após Trump indicar Kevin Warsh, ex-diretor do Fed, para substituir Jerome Powell, reduzindo temores de interferência política nos juros.

Após despencar no primeiro semestre de 2025, em meio à escalada tarifária, a moeda havia se estabilizado com a moderação das tarifas, o rali das big techs e a resiliência da economia americana. Agora, porém, novas incertezas reacendem o debate.

Além da política, outros fatores contribuem para a fraqueza recente: expectativa de novos cortes de juros pelo Fed, recuperação econômica fora dos EUA e sinais do Japão de que não permitirá uma desvalorização excessiva do iene.

Stephen Jen, da Eurizon SLJ Capital, alertou clientes para uma possível “correção estrutural” do dólar. Carsten Menke, do Julius Baer, disse que a “aposta na desvalorização voltou com força”, em meio à alta do ouro.

Pramol Dhawan, da Pimco, avaliou que a queda pode levar investidores estrangeiros a reduzir compras de Treasuries e direcionar recursos para seus próprios mercados. Bolsas fora dos EUA já superaram Wall Street: um índice MSCI de mercados internacionais avançou quase 30% no ano passado, contra alta próxima da metade no S&P 500.

“Isso não é ruído, é uma mudança de regime”, escreveu Dhawan no LinkedIn. “A era da acumulação automática de dólares acabou.”

O movimento mais recente começou quando Trump ameaçou impor tarifas à Europa caso a Dinamarca não cedesse a Groenlândia aos EUA, provocando queda nas bolsas. Depois, ganhou força com rumores de possível apoio americano a uma intervenção para fortalecer o iene e com comentários do próprio Trump elogiando um dólar mais fraco.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou conter os danos, reiterando que o governo segue defendendo um dólar forte e não está intervindo no câmbio.

Nem todos, porém, veem o recuo como sinal de fuga dos EUA. Neil Dutta, da Renaissance Macro, diz que o movimento reflete mais a redução do prêmio de porto seguro do dólar do que uma revisão estrutural das perspectivas econômicas americanas.

“A verdadeira venda dos EUA envolveria queda simultânea do dólar e das ações”, afirmou.

Trump, por sua vez, tem defendido que outros países manipularam suas moedas por décadas, prejudicando a indústria americana. Um dólar mais fraco, embora possa pressionar a inflação, poderia ajudar exportações e crescimento às vésperas das eleições legislativas.

Mercados emergentes vêm se beneficiando: ações subiram mais de 8% em janeiro e moedas se fortaleceram frente ao dólar. O custo para se proteger contra quedas da divisa americana atingiu o maior nível desde 2011, enquanto o ouro segue valorizado.

“É o dólar perdendo parte de seu status de porto seguro”, disse Kathy Jones, da Schwab. “Não é um desastre, mas indica uma transição gradual para um mundo menos centrado na moeda americana.”

Com déficit fiscal próximo de US$ 1,8 trilhão, os EUA continuam dependentes de investidores estrangeiros para financiar sua dívida. Uma perda de confiança poderia elevar juros e dificultar o objetivo de Trump de reduzir custos de financiamento.

Para alguns analistas, esse próprio nível de endividamento — hoje perto de US$ 39 trilhões — pode funcionar como freio a políticas que ameacem a estabilidade cambial.

“Quando a dívida é tão alta, a estabilidade da moeda provavelmente fala mais alto que as exportações”, disse Robert Kaplan, ex-dirigente do Fed e hoje vice-presidente do Goldman Sachs.

Tags: EUAexterior

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